Rayca nunca foi mulher de se calar. Não foi o incêndio de sua casa na Venezuela, nem a perda da melhor amiga, nem a dor da maternidade solitária que a fizeram desistir. E agora, diante de um homem que amava e de um passado que ameaçava engoli-los, ela sabia que não podia continuar sendo apenas espectadora da própria história.
Ela precisava entender. Precisava saber quem tinha enviado o envelope, por que Fabiana aparecera em sua casa, e até onde iam os segredos que Nico escondia — e talvez até dele mesmo.
Na manhã seguinte à volta de Nicolas, Rayca saiu cedo. Deixou Nina com a vizinha e pegou um ônibus até o centro da cidade. No bolso da jaqueta, o envelope com os documentos. Suas mãos tremiam, mas seu olhar era firme.
A primeira parada foi um antigo cibercafé. Usou um computador velho e lento para procurar nomes, datas, processos. Pesquisou sobre o empresário Rogério Villar, sobre Fabiana Moura, e sobre o caso criminal que envolveu Nicolas Santiago há anos.
O que encontrou a deixou em choque.
— “Operação Escudo Branco... prisão de adolescentes em rota de tráfico entre Pacaraima e Santa Elena… esquema de recrutamento por treinadores de atletas…”
Ela leu o trecho várias vezes. Villar fazia parte de um programa de “ressocialização de jovens infratores”. Pelo menos era assim que aparecia nos papéis. Mas havia rumores de que usava os garotos como marionetes: ajudava-os a sair da prisão em troca de contratos vitalícios e obediência cega.
Nicolas era só mais um.
Rayca fechou a aba do navegador quando sentiu uma sombra atrás de si. Um homem estranho, de boné e capuz, fingia ler algo no computador ao lado, mas seus olhos estavam fixos nela. Ela não era burra. Sabia que estava sendo seguida.
Saiu dali com o coração acelerado.
De volta ao bairro, parou em frente à academia onde Nico treinava. Ficou ali, observando de longe. Homens grandes entravam e saíam. Carros importados. Mulheres com roupas justas e sorrisos fabricados.
Aquele era o mundo dele agora. E ela, com seu tênis surrado e mochila remendada, parecia de outro planeta.
Quando se virou para ir embora, uma voz a chamou:
— Rayca?
Era Yuri, o assistente de Nico. Um rapaz novo, gentil, que sempre fora simpático com ela.
— Oi… tudo bem? — ela perguntou, tentando disfarçar a tensão.
— Você tá procurando o Nico? Ele teve uma reunião agora, mas deve voltar daqui a pouco.
— Na verdade, não. Só passei por aqui… por impulso.
Yuri hesitou, depois se aproximou um pouco mais.
— Olha, eu não devia me meter, mas… tem alguma coisa errada. Desde o campeonato, o clima entre Villar e o Nico tá estranho. Eu ouvi o treinador falando ao telefone sobre uma “garantia” que faria Nico obedecer.
— Garantia?
— Não sei o que é. Mas se eu fosse você, tomava cuidado. Esses caras… eles jogam sujo.
Rayca assentiu. E naquele momento, decidiu que não podia mais andar às cegas.
Naquela noite, quando Nicolas voltou para casa, Rayca estava sentada no sofá, de frente pra ele. Não havia sorriso. Não havia abraço. Havia perguntas.
— Por que você nunca me contou sobre a operação Escudo Branco? — ela disparou, sem rodeios.
O sangue de Nico gelou.
— Como você sabe disso?
— Eu pesquisei. E descobri muita coisa. Inclusive que o Villar não apenas te salvou, mas te prendeu de outro jeito.
Ele se sentou à frente dela, a expressão tensa.
— Eu achei que te contar aquilo ia te afastar.
— E esconder me deixou mais perto?
Silêncio.
— Rayca… eu não sou mais aquele moleque. Eu lutei tanto pra mudar de vida…
— Mas continua preso aos mesmos monstros.
Nico passou a mão pelos cabelos.
— O que você quer que eu faça? Rompa com Villar agora e destrua tudo o que construí?
— Não. Eu quero que você escolha.
— Entre o quê e o quê?
— Entre o que é certo… e o que é fácil.
Mais tarde, sozinha na cozinha, Rayca preparava um chá para se acalmar quando seu celular vibrou. Uma mensagem anônima:
"Pare de fuçar o que não é da sua conta. Senão vai acabar igual a sua amiga Paloma."
Rayca sentiu um gelo na espinha.
Como alguém sabia do passado dela com Paloma?
Como sabiam que ela estava investigando?
Ela correu até o quarto e trancou a porta. Sentou-se no chão e abraçou os joelhos. O medo era real. As ameaças, cada vez mais próximas. Mas mesmo com o coração disparado, havia algo que não sentia há muito tempo: determinação.
Ela não iria recuar.
Se queriam intimidá-la… teriam que tentar mais.