Rayca andava inquieta. A sensação de que algo grande estava prestes a acontecer já a acompanhava havia dias. Desde que vira Fabiana sair do portão de sua casa como se fosse dona do mundo, o coração de Rayca vivia em sobressalto.
Nico estava estranho. Calado. Distraído. E, apesar dos beijos roubados e da cumplicidade silenciosa que ainda dividiam, ela sentia que ele também estava travando uma batalha que não ousava revelar.
Foi então que a ligação veio.
Ela atendeu no segundo toque, reconhecendo de imediato a voz da vizinha idosa que morava na rua de seus pais, em Maracaibo.
— Rayca… mija… tus padres están en peligro.
Rayca empalideceu.
— Como assim, Dona Carina? O que houve?
— Homens… dois deles. Carros escuros. Foram até a casa dos seus pais. Disseram que sabiam onde você estava. Falaram que se você não parasse de mexer com certas pessoas, seus pais pagariam o preço.
— Meus Deus… não… — a voz dela saiu como um sussurro desesperado.
A senhora ainda completou:
— E tem mais uma coisa… um homem foi até lá ontem. Disse que era o pai da sua filha. Queria informações sobre você.
Rayca sentiu o mundo girar.
— Richie?
Sentou-se no chão da cozinha com o celular ainda na mão. A cabeça parecia prestes a explodir. As ameaças, o nome de Richie, os olhos assustados de sua mãe que ela conseguia imaginar, mesmo sem vê-la… Era demais.
Não bastava estar lidando com um relacionamento às escondidas com um homem vigiado pela mídia e preso a contratos duvidosos. Agora, seus pais estavam ameaçados. E Richie, o homem que a abandonara grávida em meio ao caos da crise humanitária, estava de volta.
Ela encarou o vazio por longos minutos.
Nina entrou na cozinha, esfregando os olhos com sono.
— Mamãe?
Rayca respirou fundo, forçou um sorriso e a puxou para o colo.
— Tá tudo bem, mi amor. Vai ficar tudo bem.
Mas ela sabia que não estava.
Mais tarde, Rayca esperou Nico chegar. Ele entrou cansado, largando os equipamentos no canto. Quando a viu sentada no sofá, séria e em silêncio, soube que algo não ia bem.
— Aconteceu alguma coisa? — ele perguntou, se aproximando.
Ela não respondeu de imediato. Pegou o celular, mostrou a ele o histórico da ligação, as mensagens da vizinha.
— Meus pais estão sendo ameaçados. Alguém foi até lá. Alguém que quer me atingir.
— Meu Deus…
— E tem mais… Richie voltou.
Nico arregalou os olhos.
— O pai da Nina?
— Ele apareceu por lá, perguntando de mim.
Silêncio. Denso.
— Eu tô com medo, Nico. E não só por mim. Tô com medo do que pode acontecer com meus pais. Com a minha filha. E com você.
Nico se ajoelhou à frente dela. Pegou suas mãos.
— Rayca… eu juro por tudo que é mais sagrado, eu vou descobrir quem está por trás disso. Ninguém vai tocar em você nem na sua família.
Ela o olhou com olhos marejados.
— Mas e se o perigo vier de onde você menos espera?
— Então eu luto. Como sempre lutei. Só que agora, por você.