Pierre se sentia ansioso.
Marcou com Thomas de ajudá-lo com a mudança no final de semana, onde estaria um pouco mais tranquilo — não teria aula nenhuma para atrapalhar com a viagem da casa dele até o seu apartamento. O mais novo insistiu em vir antes, alegando que precisava se acostumar com a nova vida, inocentemente esquecendo de mencionar que iria procurar um emprego de meio expediente — não queria dar mais despesas para o amigo.
O sentimento não era somente porque teria o amigo o tempo consigo — esse fato o deixava eufórico de uma forma que nem ele entendia direito —, mas também por ter chamado suas amigas para acompanhá-lo e conhecer o tal novo colega de quarto. No dia do piquenique, Pierre compartilhou a história de quando se conheceram, o seu primeiro amigo até então.
Charlotte ficou tão feliz e animada, que não via a hora de chegar na cidade natal do moreno — estavam a caminho naquele exato momento, no metrô. Ela falava pelos cotovelos, qualquer assunto, tentando aliviar o clima que os envolvia, a morena conseguia sentir o nervosismo do amigo — era muito perceptível. Em sua mente, a viagem que fez com a ruiva martelava incessantemente, trazendo um certo desconforto, o medo de ver Louise angustiada daquela forma era o que menos queria — em toda a sua vida.
Já a ruiva, por incrível que pareça, estava calmíssima. Ouvia atentamente o que Lottie falava, rindo e comentando em todos os assuntos. Sabendo que sua família estava bem — sua mãe tinha prometido não mentir ou ocultar qualquer informação sobre a saúde de cada um —, a memória daquele dia praticamente tinha sumido, trancado em uma caixa em que abriria nunca, ela esperava.
E Pierre sentia-se avoado em alguns momentos, divagando sobre como seria quando os três se encontrariam pela primeira vez. Tinha quase cem por cento de certeza de que daria certo, todos eles sendo ótimas pessoas — o coração de ouro, como Camille costumava dizer. Ao pensar em vê-la novamente, depois de anos, aquecia seu coração como nunca antes de perder contato com eles.
No entanto, quando chegaram, o moreno m*l teve tempo de assimilar o que aconteceu, sendo esmagado em um abraço do maior urso que existia — o próprio Thomas. Durou mais de cinco minutos, estava tão bom que a falta de ar que começou a sentir não o impediu de aproveitar cada segundo, já que seu rosto encostava diretamente o peito musculoso do amigo. A ansiedade passou naquele momento e um alívio o dominou por completo.
— Sei que só se passaram alguns dias desde a última vez que nos vimos, mas... — Leroy sussurrou em sua orelha, agradecendo pelo amigo não conseguir ver suas bochechas vermelhas com o segredava. — Estava com saudades.
Pierre jurou que derreteria ali mesmo, nos braços daquele que conseguia derrubar todos os seus muros de uma só vez. As palavras se enrolaram em sua garganta, impossibilitando-o de retribuir o sentimento, contudo, ele o apertou entre seus braços, erguendo sua cabeça minimamente para encará-lo, o sorriso do qual Thomas estava acostumado a ver brilhando nos lábios do melhor amigo.
Charlotte e Louise assistiam a tudo silenciosamente, o sentimento de uma amizade pura as preenchendo, elas trocaram um olhar rápido cheio de significado antes de se abraçarem também. O entendimento que tinham como amigas era o mesmo pelo qual os dois morenos compartilhavam, deixando toda a situação muito mais especial do que imaginavam.
No entanto, o quarteto não percebia o que realmente sentiam um pelo outro, seus olhos e mentes cegos por um véu, bastando apenas ficar atento aos sinais que emanavam por todos os lados — quem tinha um olhar mais observador, perceberia a quilômetros de distância. Mas eles não estavam prontos para essa conversa ainda.
O caminho de volta foi mais tranquilo, Thomas dirigia, já que voltar de metrô com suas caixas não seria fácil ou eficaz como precisavam ser. A playlist que tocava não estava tão alta para impedir que o motorista, Lottie e Lou cantassem a plenos pulmões — a maioria das músicas eram bem conhecidas por todos, menos Pierre, que preferia um bom rock. Ninguém esperava isso dele quando cantou tão alto quanto os três amigos tinham feito momentos antes, surpreendendo-os, mas logo o acompanharam — ainda que não soubessem a letra certa, apenas fazendo barulho.
Charlotte e Louise estavam no banco de trás, separadas por duas caixas e mais quatro em cada uma — uma em cada pé e as outras no em seus colos. O que não era de todo r**m, não estavam tão pesadas e serviam como ótimas baterias para acompanhar a batida de cada melodia que passava. Pierre também tinha as suas nos mesmos locais, ele só não se mexia muito, pois eram frágeis e não queria quebrar nada.
Quando chegaram ao apartamento em que os dois morenos dividiriam sabe-se Dieu até quando, pelo menos a formatura ainda estava longe de ser alcançada, dando uns três anos no mínimo. E saber disso, os deixavam tranquilos, tendo bastante tempo para aproveitar cada segundo — era o que bastava, por enquanto.
O universo estava colaborando para que desse tudo certo, Pierre pontuou que tinha um elevador de serviço para que pudessem usar, alegrando as duas sedentárias que odiariam ter que subir quatro andares com caixas que impossibilitavam sua visão de cada degrau até o seu destino. Contudo, assim que pararam para carregar a primeira leva para cima, perceberam que o bendito estava em manutenção e o porteiro negou qualquer pedido para que usassem o social.
Charlotte teve que ser segurada para não ofender o coitado, que apenas seguia as ordens do síndico — e ao saber desse detalhe, quis bater na porta do maldito. Ele não sabia o que era carregar inúmeras caixas pesadas várias vezes, já que morava no primeiro andar, bem de frente para a saída de emergência.
Thomas a tranquilizou, a viagem de carro tendo os unido de uma forma mágica — o que não era difícil, os dois eram mais abertos e escandalosos, a conexão imediata era inevitável. Louise se contentava em rir dos gritos da melhor amiga, sempre reclamando que estava morrendo ou fazendo qualquer piada que vinha em sua cabeça fértil. Trabalhou em silêncio, acompanhada do moreno mais velho, trocando olhares pela interação que os outros dois tinham.
Como tinham dezesseis braços e pernas, não demorou mais do que quarenta minutos para terminarem, contando com o empecilho do elevador quebrado. E assim que a última caixa foi colocada no quarto do mais novo, o quarteto se jogou no sofá grande que Pierre tinha em sua sala, precisando de um descanso de no mínimo dez horas — palavras da morena, exagerada como sempre.
— Alguém mais está com fome? — Charlotte perguntou, os olhos fechados e a respiração acelerada. — Porque eu estou faminta.
Os outros três levantaram as mãos, todos descansando a vista como ela fazia, o que dificultou a decisão do que fariam sobre esse assunto.
Por mais que Louise tivesse dito que nunca mais se aventuraria na cozinha após o desastre com os cupcakes na semana passada, começou a ver vídeos de pessoas que ensinavam dos mais simples pratos até os mais complicados, talvez assim ficasse mais fácil na sua próxima tentativa — tendo um conhecimento estritamente focado.
No almoço da quarta-feira fez um ensaio, fazendo um miojo, aproveitando que não teria aula na parte da tarde porque sua professora teve uma emergência com a filha. Não tinha como errar aquilo, era apenas ferver a água e deixar cozinhar por três minutos. A ruiva se sentia confiante, nada poderia lhe derrubar da certeza que a preenchia naquele momento. E para completar o clima, Confident da Demi Lovato tocava ao fundo, dando ainda mais intensidade ao que fazia.
Louise saiu correndo para o quarto, chamando a morena que trabalhava em seu computador com algum trabalho que sua professora passou, tendo que entregar dali umas horas, sua animação a mil.
— Lottie! — gritou, pulando em volta da melhor amiga, adquirindo a mania que a outra tinha quando se sentia do mesmo jeito ao que girava a cadeira de rodas de um lado para o outro no processo. — Consegui! Não explodi a panela ou cozinha.
A morena estava começando a ficar tonta com a movimentação, esperando que a ruiva parasse no seu tempo. Era extremamente recompensador vê-la feliz daquele jeito, ainda que não fizesse ideia do que ela estava falando — seu cérebro estava praticamente derretido por digitar loucamente aquele maldito trabalho, não conseguindo associar o que ela falava.
— Vem, fiz para você também — afirmou, puxando-a pelo pulso para a cozinha.
Seus olhos brilhavam em expectativa para saber o que a melhor amiga acharia da comida que fez. As duas sentaram nos bancos próprios para a bancada que tinham, Charlotte sorriu com carinho, apoiando a cabeça no ombro da ruiva em forma de agradecimento pelo almoço — e descanso forçado do terror que fazia segundos antes —, para logo em seguida abocanhar o macarrão industrializado com vontade.
Lottie ergueu a mão com apenas o dedão levantado, mostrando que tinha ficado ótimo, escondendo a verdade, o leve gosto de queimado do caldo — questionando-se como ela tinha feito tal proeza com um miojo. Só então, Louise voltou sua atenção para o próprio prato. Ela estava tão animada que m*l sentiu o gosto amargo que a morena percebia com clareza, comendo com avidez.
— Estou tão orgulhosa, ma bichette! — A Roux disse, apertando as bochechas da melhor amiga por alguns segundos intermináveis. O sorriso que a ruiva deu se tornou em uma careta entre os dedos da outra. — Isso significa que teremos cupcakes em breve?
Louise analisou o pedido da melhor amiga, pensando se estaria pronta para enfrentar tal pesadelo novamente. Ela tinha apenas feito dois miojos, a comida mais fácil do mundo inteiro, muito diferente daquele bolinho demoníaco — talvez mais alguns treinos...
— Vou pensar no seu caso — disse, a boca ainda sendo apertada.
Essa foi a chance perfeita para que a morena fizesse seu famoso olhar de gato de botas, tendo aprendido que Louise não resistia a qualquer coisa que pedia com esse golpe baixo.
— Pensa com carinho, Izzie.
Foi o suficiente para balançar Louise, totalmente desarmada com o apelido mais íntimo sendo usado e as safiras brilhantes — ela teria que arrumar um jeito de não cair nessa armadilha ou estaria perdida para sempre. Fontaine dizia a mesma coisa toda vez, sendo impossível de agir diferente.
O desafio daquele semana foi marcado para sexta-feira à noite, os três estudantes completamente atolados de tarefas de suas matérias, então seria o dia e o horário perfeitos para uma boa diversão e descanso.
Pierre, ao saber o que seria, cedeu seu apartamento, já que era o mais espaçoso e arejado. Thomas ainda não sabia do desafio pelo qual estavam passando durante aquelas semanas e nem poderia, pela regra que concordaram em seguir — tinha sido assinado e tudo mais —, ele apenas participaria da jogatina.
Charlotte fez duas pizzas caseiras para levar, a pedido da melhor amiga que estava com um desejo de comer algo gorduroso e não era nada daquela invenção de massa integral ou coisa do tipo, a morena era profissional. Louise se encarregou das bebidas e alguns jogos — pegando os principais, onde diziam serem as melhores. E para não dizer que não fez nada, Thomas comprou vários doces na doceria ali perto, alegando que eles precisariam de açúcar no sangue para passar a noite inteira jogando.
— Nossa meta é dormir só às duas da tarde de sábado — Charlotte disse empolgada, levantando as mãos. — Quem está comigo?
Thomas se ergueu, gritando em concordância com a morena, começando a saltitar junto com ela, enquanto Louise e Pierre riam da palhaçada que ambos faziam. Os dois pensando em como se sentiam felizes em tê-los em suas vidas, diversão a todo momento, com certeza não teriam esses momentos do jeito que eram se não fosse por eles.
— O primeiro a cair no sono vai ficar com a cara toda pintada! — o mais novo acrescentou. — Perry, você tem canetinha, né?
— Só quando eu estava no ensino fundamental.
— Estraga prazer — Lottie murmurou e Louise jogou uma almofada nela, acertando seu rosto com exatidão. A ruiva podia não ser boa em esportes, evitando a todo custo desde o ensino médio, mas sua mira era excelente.
— Não tem problema, minha querida amiga, a gente improvisa.
Ambos piscaram em cumplicidade, um sentimento de que o mais velho e a ruiva seriam os primeiros a dormir, no entanto, guardaram esse segredo entre eles, não querendo estragar o plano.
O primeiro jogo, escolhido pela ruiva ao ganhar no pedra, papel e tesoura, foi xadrez. Seu oponente foi o mais novo, sendo o segundo a sair na decisão de quem começaria. Enquanto isso, Charlotte e Pierre batalhavam na adedonha de papel, algo que jogavam na época do cursinho entre as aulas — o moreno tinha sido convencido a tentar, ficando viciado, já que perdia com uma frequência absurda. Ele dizia que as amigas escreviam como um furacão, não dando tempo para que ele chegasse nem na quinta coluna.
Quando Pierre ganhou, pela primeira vez, eles já tinham jogado sete partidas e a dupla do xadrez tinha finalmente um vencedor: Louise, a melhor estrategista que existia. Thomas exigiu revanche, mas só depois que ganhasse dos outros dois.
— Nem um pouco modesta — a morena murmurou para ninguém em específico, conhecendo o lado competitivo da ruiva, que a olhou em desafio, uma sobrancelha arqueada. — Odeio xadrez, sempre perco.
Louise e Thomas riram, o mais novo começando a entender o que Charlotte dissera. Pierre se prontificou a ser o segundo, já preparando algumas estratégias para ganhar. Seu melhor amigo sabia que ele era bom, ele quem o tinha ensinado a jogar, contudo, sem sucesso algum de vencê-lo.
O jogo começou com a ruiva mexendo as peças brancas, concentrando-se ao máximo em qualquer movimento ou detalhe. Não podia perder para seu adversário, tendo consciência de que ele era um oponente poderoso, mas ela também era — tinha sido treinada pelo melhor, seu professor de matemática do ensino médio.
A tensão entre eles era tão grande, que os outros dois ficaram assistindo atentamente enquanto beliscavam da pizza e doces. Os dois jogadores nem sentiam os olhares fixos dos amigos, totalmente imersos no tabuleiro. Seria uma longa noite se continuasse desse jeito.
Charlotte desistiu logo depois da imersão que era o xadrez, ligando o som para animar o ambiente silencioso que a sala de estar dos morenos tinha ficado. Louise não se deixou abalar pelo barulho, no entanto, Pierre teve um pouco de dificuldade de acessar seus pensamentos com as músicas. Mas não foi por isso que acabou perdendo, sua oponente era melhor do que ele imaginava, pegando-o de surpresa com um movimento do qual ele não esperava.
Eles trocaram um sorriso cúmplice, que prometia outras partidas no futuro. Ambos sabiam que jogar em grupo naquela noite, apesar de terem que jogar entre si, precisavam acolher Charlotte e Thomas ou ficaria chato, por isso, uno foi o próximo jogo da noite. Todos vibraram, todos conheciam as regras apelonas que deixava qualquer partida mais caótica e divertida.
Com um piscar de olho, Pierre soube que esse a morena e ele estariam competindo para o desafio — ainda que estivessem em grupo. Como esperado, ela se gabou de ser a melhor — tinha toda a experiência do ensino médio em suas costas, não tinha como ser de outro jeito.
Sem que percebessem, eles montaram duplas um contra os outros, roubando mais do que as regras permitiam, gritando e se divertindo mais do que nunca. As pizzas já tinham acabado, restando apenas duas bombas de chocolate e a bebida, bom, ajudando nas risadas e frase sem sentido.
— Lottie, você roubou! — Thomas falou alto, mais do que o horário permitia, apontando o dedo sujo de chocolate em sua direção. — Pode devolver o mais quatro!
Louise trocou um olhar com a amiga, que estava ao seu lado, passando uma carta entre elas, deixando bem perto da sua b***a — só assim eles não veriam. Pierre estava bem atento, contudo, um pouco lerdo com o último gole que tinha ingerido, por isso não conseguiu pronunciar o que queria, então ele apenas se inclinou até a morena, pegando a carta de onde estava, encostando levemente no corpo dela no processo.
— Ahá! — o mais novo gritou, o dedo ainda levantado, dessa vez indicando as duas amigas, o olhar arregalado.
— Qual é, Pier? — Louise jogou a almofada mais próxima de si, já que estava apoiada no sofá. — Essa carta é minha!
— E por que passou descaradamente para Charlotte?
— Nem vem que fui cautelosa — ela disse emburrada. — O Pierre que estragou tudo.
— Por favor, não me chame pelo nome, parece que estão brigando comigo por eu ter feito algo errado — choramingou, encostando a cabeça no ombro da ruiva.
— Mas eu estou!
A morena o encarou com olhos semicerrados, mais por estar com sono do que qualquer outra coisa, e o mais novo mostrou a língua, ambos rindo em seguida. Os quatro sabiam que aquela conversa não levaria a lugar nenhum, não do jeito que estavam, mas também não se importavam, a farra era o que mais queriam naquele início de final de semana.
A jogatina durou até quatro horas da manhã, depois que enjoaram do uno, jogaram Just Dance que o mais novo trouxe de casa — obviamente que não deixaria seu videogame para trás. Assim, se intercalaram entre danças solos, dupla e todos juntos. Com o tanto de energia perdida, a fome voltou, decidindo comprar hambúrgueres para todos, caminharam pelas ruas silenciosas até se lembrarem que Thomas tinha um carro e poderiam voltar mais rápido para casa.
O que não foi o caso. Tinham combinado de pedir e voltar para jogarem qualquer outro jogo, mas ficaram no estabelecimento, conversando sobre tudo e nada ao mesmo tempo. E quando voltaram para casa, recebendo uma bronca do porteiro quando passaram por ele, ficaram quietos por aproximadamente meia hora antes de começarem a gritar e rir alto.
No meio disso, Louise insistiu em assistir algum dos seus filmes de romance meloso, o que Thomas concordou, adorava se encher de expectativas inúteis de conseguir alguém do mesmo jeito. Charlotte não falou nada, àquele ponto nem se importava com o que não veria, dormiria até com a tela toda ensanguentada e Pierre, secretamente, gostava de sentir o coração quentinho com a felicidade dos personagens.
Agora, duas horas da tarde, eles se encontravam imersos em seus sonhos. Pierre não sabia, mas tinha uma linda flor em sua bochecha esquerda, o nariz pintado e uma quadra de basquete na testa feitos com uma rolha queimada de uma das garrafas de vinho que tomaram durante a madrugada. Louise exibia uma linha barba — igualzinha ao que o mais velho tinha de verdade — e uma nuvem sorrindo também na testa.
Charlotte e Thomas tinham avisado as regras e eles cumpriram com o que tinham proposto, realmente achando um jeito. No entanto, o mais novo tinha três corações bem tortos nas bochechas e testa, o nariz despojava uma árvore um tanto estranha, afinal, ele dormiu antes que a morena conseguisse ser embalada pelo sono que a atormentava.
A primeira a acordar foi Louise, encontrando-se abraçada à melhor amiga, que dormia toda encolhida entre seus braços. Sorriu abertamente com a situação, evitando se mexer para não acordá-la. Percebeu tardiamente que seus pés congelavam para fora da coberta improvisada que usavam ou o sofá que dividiam, por pouco não caindo em cima do Pierre, que estava encostado ao móvel.
As lembranças da noite passada vieram como flashes sem ordem alguma, tendo que segurar as risadas que queriam sair a qualquer custo — era como aquela tosse irritante que todo mundo tinha de vez em quando. A movimentação acordou a morena, que abriu os olhos sonolentos, demorando a se situar onde estava. Contudo, sentiu o aroma tão conhecido por si, o creme de chocolate que a melhor amiga usava a convidando a se aconchegar mais para voltar a dormir no conforto daquele abraço.
— Bonjour, mon amour — a ruiva sussurrou, fazendo um carinho agradável no cabelo de Lottie.
— Ainda é manhã? — questionou, recusando-se a abrir os olhos.
— Não faço a menor ideia. — Elas riram e a morena finalmente cedeu, encarando as esmeraldas da amiga.
Elas estavam tão próximas, um sentimento estranho subindo pela boca do estômago de cada uma, ao mesmo tempo que era quente, tinha um frio no meio, misturando no meio do caminho até a garganta. Charlotte, movida por essa sensação, avançou a distância que faltava para selar o nariz vermelho da melhor amiga, que fechou os olhos para aproveitar melhor.
A lembrança do selinho que tinham trocado sem querer voltou com força total, o sentimento de ansiedade se misturou ao que já sentiam. E quando a morena se afastou, observando o rosto da melhor amiga com muita atenção, esperando que a ruiva abrisse os olhos para encará-la, sem ideia do que aconteceria quando ela realmente fizesse, contudo, aceitaria o que quer que o destino lhe tivesse reservado.
— Onde está a minha meia?
A expectativa foi quebrada com Thomas acordando, completamente alheio, deixando apenas as batidas aceleradas de dois corações como prova do que poderia ter acontecido.