Extra VI - Friendship

3152 Words
Ser um bom aluno era algo muito natural para Pierre, suas notas eram perfeitas, o comportamento com seus colegas, professores e qualquer funcionário da escola, impecável — principalmente a moça da biblioteca. Quer dizer, ele fazia sua parte com aqueles com quem dividia várias horas do seu dia, ainda que eles não retribuíssem. O moreno passava muito tempo entre as estantes cheias de livros — em sua maioria estudando ou lendo as mais diversas histórias, das quais achava interessante. Preferia mil vezes gastar seu dia enfurnado nos extensos corredores de pura sabedoria e um cheiro um tanto diferente, do que em sua própria casa — isso era um fato. Criar uma amizade sincera com Audrey não foi difícil ou estranho, o jovem Pierre tinha um aspecto maduro em sua forma de se portar, não criando problemas para se comunicar com os mais velhos. A mulher adulta não era tão velha quanto as senhoras que sempre cuidavam das bibliotecas nos livros que lia, sendo totalmente diferente da expectativa que esperava — a maioria do que sabia sobre interação com outra pessoa foi tirado das suas leituras, confiando fielmente no que aconselhavam. E por ser muito sozinha naquela enorme construção, ficava grata de ter pelo menos uma alma viva para passar o tempo. Seus colegas m*l se esforçavam para conversar consigo, intercalando entre fazer as piadas mais sem graça e o ignorar, dentro e fora de sala. O que estava tudo bem por parte do Pierre, ele não se importava nem um pouco com essa questão — tinha aprendido a se acostumar com a solidão dentro de casa. Nem mesmo seus primos tentavam manter uma relação amigável, seguindo os passos dos pais e tios. A única que ainda mantinha um sorriso gentil no rosto era sua avó materna, por mais que não conseguisse articular nenhuma palavra ou frase. No entanto, em um dia qualquer, mas chuvoso, um garoto de outro ano — e bem mais novo — o abordou em seu canto precioso dentro da biblioteca após o término das aulas. Pelo o pouco que observava quando não estava muito ocupado lendo ou estudando, conseguiu o reconhecer minimamente. Aquele menino também ficava algumas horas consideráveis em uma mesa do outro lado da sala de estudos. Geralmente estava com muita frustração com o que fazia. Ele não falou nada por vários minutos, apenas o olhava com aqueles grandes olhos cinzentos, como se estivesse travando uma batalha internamente para tomar algum passo ou não. Pierre sabia e sentia que o garoto se mantinha parado à sua frente, ainda que não tivesse tirado sua atenção das palavras do livro em seu colo — apenas sua concentração sendo comprometida. Então, querendo voltar rapidamente ao que fazia em paz, ergueu a cabeça para fitar o menino — que parecia ansioso, mexendo incessantemente seus dedos — e sorriu mecanicamente, era algo que não tinha o costume de fazer, por isso era estranho de se fazer. O menino repetiu o gesto, sentindo-se um pouco menos receoso de puxar assunto com o mais velho, mas ainda mexendo os dedos nervosamente. Na maior parte do tempo, Pierre não encorajava tais comportamentos para uma conversa, tinha aprendido da pior forma anos antes quando era ridicularizado pelos outros, no entanto, aquele garoto lhe passava uma tranquilidade, abaixando a armadura que criara para se proteger — uma certa expectativa se formando em seu peito. E antes que dissesse qualquer coisa para quebrar o gelo, os olhos ainda conectados um ao outro como se estivessem se comunicando por ali, o mais velho deu três tapinhas no puff amarelo que tinha ao seu lado — seria melhor se ele se sentasse para o que quer que iniciariam nos próximos segundos. O garoto abaixou os olhos, um traço de timidez gritando em seus gestos, contudo, andou rapidamente para atender ao pedido silencioso do mais velho, colocando os braços entre as pernas dobradas. Ele ousou olhar para cima, dando de cara com o sorriso do Pierre em sua direção, desviando sua atenção para seus tênis brancos. — Olá — Pierre sussurrou, com medo de assustá-lo, inclinando-se para que ele o escutasse, os dentes retos e brilhantes a mostra em uma forma não tão assustadora na qual achava que estava, tentando acalmá-lo também. O moreno não entendia aquele medo todo consigo, o mais velho era a pessoa mais inofensiva que existia naquela escola. Provavelmente devia ter escutado os rumores que criaram sobre ele, alguns sendo verdadeiros, outros nem tanto — era muita coisa. Contudo, o garoto o olhou surpreso, os olhos arregalados. Por mais que esperasse uma conversa em algum momento de sua tentativa, não imaginou que ele seria tão gentil — tinha muita coisa r**m presa em sua mente do qual lhe falaram alguns meses atrás. Ele não acreditou em nenhum segundo, mas, ainda assim, ficava uma dúvida sobre quem estava falando a verdade ou não. — Oi — respondeu o garoto depois de um momento, sorrindo lentamente, mantendo o  olhar fixo dessa vez. — Meu nome é Pierre — disse, tendo em mente que ele provavelmente já sabia disso, mas querendo ser gentil. — Qual é o seu? — Thomas. — Muito prazer! — O moreno esticou sua mão, que foi segurada sem hesitação, o garoto assentindo com a cabeça algumas vezes. O silêncio que se seguiu foi reconfortante, Thomas não sentia mais receio nenhum, um alívio preenchendo o seu corpo. A parte mais difícil tinha acabado, a introdução, agora ele sentia que poderia conversar livremente. Pierre, sendo bem sincero, não fazia ideia do motivo dele ter vindo falar consigo, ninguém mais o procurava — sendo da sua idade ou não —, por que ele o faria? Não que estivesse achando r**m, longe disso, ter alguém que não fosse Audrey — a bibliotecária —, era sempre bom. Ela também devia achar estranho que um adolescente sem amigos nenhum a procurasse para dialogar. — O que está lendo? — o mais novo perguntou, indicando com o dedo o livro aberto em seu colo, trazendo para o presente. — O livro de química do terceiro ano. Pierre sorriu envergonhado, pela primeira vez não sentindo orgulho por ser o nerd que era. Qualquer um que não fosse professor da matéria seria taxado de estranho, ele sabia bem disso. — É difícil? — Seus olhos cinzentos demonstravam curiosidade, deixando o mais velho ansioso com o assunto que permanecia. O Renaud pensou no que falaria, tentando ao máximo tentar ser um adolescente normal, o medo de assustar Thomas crescendo dentro do peito. No entanto, ele não sabia que o mais novo vinha criando coragem para puxar qualquer assunto há meses, não se importando com sua inteligência — na verdade, Leroy já imaginava isso, observando-o quando tentava fazer suas tarefas. — Um pouco — disse simplesmente, fechando o livro para mostrar para ele. — Se estudar direito, fazendo os exercícios, fica bem fácil, você vai ver. Thomas riu, duvidando muito que teria a mesma opinião quando chegasse no terceiro ano. Ele tinha muita dificuldade em quase todas as matérias — não porque fosse burrou ou algo do tipo, apenas se desconcentrava em um piscar de olhos. — Talvez. — O mais novo segurou o livro, analisando os detalhes da capa e contracapa. O garoto riu sem graça, deixando no ar suas dúvidas. Queria terminar o colegial o mais rápido possível, mas não se sentia ansioso por passar pelo último ano. Seu primo mais velho o enchia de histórias sobre como era h******l, não tendo tempo para uma vida social e todas as provas para conseguir entrar em uma universidade boa. Thomas tinha ficado traumatizado, no entanto, Pierre o fez acreditar que podia ser tranquilo — ele se seguraria com essa promessa. Após aquele dia, passaram a se encontrar com mais frequência, deixando os livros de lado para uma boa conversa. Os assuntos não acabavam nunca, sempre aparecendo um novo, com muitas risadas — por incrível que pareça, Pierre passou a gostar dos movimentos que o canto do seus lábios faziam, sendo mais fácil de produzi-los. Thomas o contava várias histórias sobre sua vida, não poupando nenhum detalhe de cada peripécia que fazia ou que acontecia consigo — seu primo sendo um personagem tão vívido para o mais velho, era como se o conhecesse também. Pierre não tinha muito o que compartilhar nesse quesito, o que estava tudo bem — o mais novo não se importava, mas querendo abraçá-lo toda vez que lembrava como sua própria família o negligenciava, por sua vez, contava sobre os vários livros que lia. O Leroy já tinha uma lista enorme com todas as recomendações que recebeu desde que o conheceu, lendo-os aos poucos. Em algum momento, Pierre começou a ajudá-lo com os deveres e a estudar para suas provas, ele tinha um jeito para professor, lembrando perfeitamente o que o nono ano aprendia do começo ao fim. Thomas ficou imensamente feliz, ele não tinha nem pedido nem nada, sabendo que seria uma dor de cabeça para o mais velho, por isso, tentava ao máximo não se distrair para que não desistisse. No entanto, Renaud tinha a maior paciência do mundo, não vendo problema nenhum nisso. Eles se divertiam durante os estudos, o mais velho não querendo que fosse apenas mais uma sala de aula e, sim, algo prazeroso — aprender era para ser assim e não algo maçante e entediante como a maioria achava. As notas do Leroy melhoraram, deixando até seus professores surpresos e seus pais fizeram questão de conhecer aquele que vinha o ajudando. Eles já tinham tentado alguns professores particulares, mas nada deu certo, por isso que vinha tentando estudar sozinho no nono ano. Porém, Pierre se sentiu acuado com o convite, essa era uma experiência da qual nunca tinha passado ou esperava que acontecesse. Thomas insistiu, alegando que seria muito tranquilo, os genitores eram legais — ainda mais com alguém que vinha dedicando seu tempo com o filho, então não teria perigo —, mas foi os olhos brilhantes de empolgação e expectativa do mais novo que convenceu o mais velho, engolindo seu nervosismo para que conseguisse fazer tudo dar certo. O medo de entediar ou falar algo errado para os pais do amigo era muito grande, deixando-o mais tímido, não poderia estragar aquele momento. O mais novo não estava nem um pouco preocupado com nada sobre o encontro, sabia que sua mãe iria amar o moreno, cozinhando os seus doces preferidos para uma tarde agradável e seu pai faria as piadas mais sem graça do mundo, tentando amenizar o clima — não tinha erro. Conhecer Camille, Julien e Louis foi mais fácil do que Pierre podia ter previsto. A mãe do amigo era tão calorosa quanto abraçar o seu urso preferido quando criança, o seu pai era um pouco intimidador a primeira vista, porém, era só abrir a boca que sua barriga doía de tanto rir e seu primo, do qual foi uma surpresa encontrá-lo ali, confirmou todas as histórias que ouviu durante aqueles meses. Thomas realmente disse a verdade quando prometeu que seria tranquilo, adicionando vários pontos positivos em sua amizade, observando que agora não tinha mais volta, já era parte da família, Camille fez questão de pontuar. Ela não sabia da relação nada acessível que tinha com os próprios pais, evitando o assunto com toda a educação que possuía — tinha acabado de conhecê-los e não precisava assustá-los. Após esse primeiro encontro, os dois morenos passaram a se encontrar na casa do mais novo, sendo muito mais confortável no sofá do Leroy do que os puffs quase vazios que a biblioteca do colégio dispunha. No entanto, Audrey os prometeu que iria pedir que os trocasse, não querendo perder o contato com os dois — ela tinha se apegado a Thomas, assim como com Pierre. Os estudos se tornaram menores conforme as férias foram chegando, dando mais tempo para diversão — como o mais novo sempre quis —, apresentando os diversos jogos que tinha para jogar no seu Playstation 3. Pierre apanhou bastante para aprender e agora os papéis estavam invertidos, pois era Thomas quem o ensinava como fazer a cada nova partida. No entanto, isso significaria que eles não se veriam mais no colégio, pois Renaud não voltaria para lá. A formatura aconteceu antes do natal, formalizando seu término naquele lugar e o início dos últimos anos do mais novo, que não via sentido em continuar se não visse Pierre todos os dias como estava acostumado. Com a promessa de que não perderiam contato e que continuaria aparecendo na sua casa sempre que desse, Thomas ficou mais tranquilo, confiante de que daria tudo certo naqueles três anos. Contudo, Camille, pensando em uma forma de ajudá-los a ter a certeza de que se veriam, propôs que Pierre desse aulas particulares para seu filho, oferecendo até um salário para isso. Independente da amizade que tinham, o mais velho tinha sido o único a conseguir que Thomas tivesse ótimas notas em anos, agradecia por tê-lo conhecido e não o soltaria nunca, sabendo em seu íntimo que seu filho e o melhor amigo tinham uma grande jornada a trilhar. Renaud negou o dinheiro, alegando que faria de graça sem problema nenhum, mas ela insistiu com um jeitinho que ele não pudesse recusar — afinal, ele em breve completaria dezoito anos e precisaria de uma renda para começar o cursinho que tanto queria. Eles ficaram muito felizes, planejando jogar um pouco para desestressar ao final de todas as aulas e engordando com o tanto de doces que Camille faria — ela não podia deixá-los morrendo de fome enquanto gastavam praticamente toda a energia que tinham fazendo os dois. Os anos se passaram, Thomas teve as melhores notas do seu ensino médio e ainda que não tivesse tido o melhor amigo ao seu lado até o final, dedicou seu sucesso a ele. Pierre precisou ir para a capital para estudar e passar na melhor universidade de lá. Ambos ficaram com o coração partido, sabendo que não teriam a mesma frequência de conversa com o mais velho longe e super focado nos estudos o tempo todo — o mais novo o conhecia melhor do que ninguém. Eles até conseguiram manter o acordo pelos primeiros meses, no entanto, as matérias começaram a se acumular e ficou difícil conversar durante os dias. Leroy sabia também que Pierre não era bom com o aplicativo de mensagens do celular, entendendo seu lado. Ele nunca forçou nada, também envolvido com as demandas da própria vida. Alguns novos amigos foram feitos — nenhum como o que tinha com Pierre —, esforçando-se para se manter no time de basquete, afinal, seus hormônios decidiram que cresceria absurdamente, até então, era menor do que sua idade previa. Thomas até se envolveu romanticamente com duas garotas e um garoto que treinava consigo. Por algum motivo, evitou tocar nos relacionamentos, não tendo ideia de como o mais velho reagiria, eles nunca tinham conversado sobre isso antes e pareceu estranho comentar. Ele tinha certeza que Pierre não acharia estranho seu interesse pelo mesmo s**o, no entanto, era algo que não estava pronto para falar com qualquer pessoa. Além de ser tímido, suas inseguranças eram muito enraizadas. Enquanto isso, Renaud se via em outra oportunidade de começar duas amizades, suas colegas do cursinho. Ele tinha esquecido o quão difícil era desde que conheceu Thomas e sua família, sendo os únicos ao qual se abriu totalmente. Não entendia o motivo de ter sido relativamente fácil na época, contudo, não tinha tentado com ninguém mais. Charlotte e Louise lhe passaram a mesma energia que sentiu com o melhor amigo, talvez por isso conseguiu se abrir com elas — o resto dos seus colegas não se importaram de fazer o mesmo, ele já estava acostumado. Todo dia pensou em mandar mensagem para o mais novo, mas algo o impedia toda vez que tentou — sentia que estaria atrapalhando seus estudos ou que quer que fosse que ele se ocupava. Queria contar todos os detalhes dos seus dias, querendo ouvir sua risada das coisas mais bestas pelo o qual se encontrava, as besteiras que seus colegas faziam durante a aula, ao invés de estudarem. Até falar sobre sua coragem em conseguir se comunicar com duas outras pessoas, deixando-se ser levado pela gentileza e diversão com que elas o envolviam em seus compromissos. Talvez ele se arrependesse de não ter tentado com mais vontade, pensando que tinha perdido sua amizade para sempre com a distância, se odiando por isso. A culpa o assolou por muito tempo, ele tinha desistido de qualquer outra aproximação, eles não se falavam por alguns meses, o contato perdido de verdade. No entanto, ainda tinha Charlotte e Louise — não se comparava ao que tinha com Thomas —, mas ainda assim lhe aquecia o coração por tê-las consigo nessa nova fase da vida, a universidade. Com a lição aprendida, fez de tudo para mantê-las presentes no seu dia a dia, certo de que não cometeria o mesmo erro novamente. E nesse tempo todo, nunca tinha se sentido atraído por ninguém, sendo homem ou mulher, ele apenas não via sentido nisso. Quando parava para observar os casais pelo campus, um sentimento de nostalgia o preenchia, contudo, não sabia o que aquilo significava, já que não teve experiência nenhuma com esse aspecto da sua vida. Estranhamente, a imagem do melhor amigo aparecia em sua mente, a última foto que ele mandou presa em sua mente e um filme de tudo o que viveram no colegial rodava, trazendo mais saudade ainda. O desejo de voltar no tempo para viver tudo novamente e aproveitar melhor era constante, nem mesmo passar na melhor universidade de Paris o preenchia de orgulho como antes. Thomas estava ansioso para viajar, tinha conseguido passar no vestibular, realizando o sonho dos pais, ainda que ele tivesse que morar longe deles. Fisioterapia era um sonho distante de dois garotos, por mais que seu melhor amigo não tivesse certeza do que iria cursar quando chegasse a hora, ele sabia que advocacia não era uma opção. Sua esperança mais boba era encontrar o moreno por coincidência, sabendo que as possibilidades eram mínimas, no entanto, estaria de olhos abertos para qualquer sinal. Não tinha certeza de como ele estaria, depois de alguns meses sem contato algum, mas sentia que o reconheceria de qualquer jeito. Os assuntos que teve que resolver na secretaria o baratinaram completamente, demorou tanto — muitos novatos também tinham marcado para aquele dia —, deixando-o com a incerteza de que conseguiria um dormitório para facilitar seu deslocamento durante as aulas, que nem percebeu o melhor amigo parado em frente ao mural de avisos. Ele teria perdido sua chance de reencontrá-lo antes do próximo semestre se não fosse pela percepção do moreno. Pierre sentia sua aura mesmo de costas, Thomas não o encarava todo nervoso como na primeira vez que conversaram, no entanto, o mais velho sentia como se estivesse sorrindo para acalmá-lo, esperando para sua vida mudar completamente.
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