Não era difícil perceber a aura de felicidade que todos os estudantes da melhor universidade de Paris tinham sobre seus corpos. O alívio e cansaço que exalavam era tão contraditório que poderia se tornar um novo humor oficial para aqueles que frequentavam o ensino superior — independente do lugar.
No entanto, eles não poderiam ligar menos para isso, as provas finais acabaram, faltando apenas verificar se tinham obtido ao menos a média para relaxar completamente. Com duas opções para escolher, a maioria esperava a nota cair no sistema — garantidos de que foram bem —, mas aqueles mais inseguros, iam a cada aula para assinar a lista de retirada da prova, ficando para conversar com os professores e saber o que estudar para a prova substitutiva.
O que não foi o caso do trio de amigos, Charlotte ficou tentada a buscar duas de suas notas — era apenas sua insegurança falando muito mais alto que a certeza de que tinha ido muito bem. E para controlar a ansiedade, aproveitando o tempo livre de sobra, usou e abusou de todos os ingredientes que tinha nos armários para cozinhar diversos pratos — com a companhia da melhor amiga na maioria deles.
— O que vamos testar hoje, ma bichette? — a ruiva perguntou assim que a mais nova saiu do banheiro, muito ansiosa para colocar a mão na massa.
A morena levou um susto, colocando a mão no coração e se recostando na parede ao seu lado, não estava preparada para aquela animação tão cedo. Pelo menos sua mente ainda não tinha despertado o suficiente para focar no motivo de seus surtos internos, mas também não precisava, era sexta e todos os professores tinham até o meio-dia para computar os resultados finais.
— Não ganho nem um bom dia? — resmungou, olhando f**o para a outra.
— Quanto mau humor em uma pessoa tão pequena — Louise brincou, sabendo que brincava com fogo. Charlotte nem mesmo piscou com a implicância. — O que aconteceu?
A mais nova deu de ombros, indicando que apenas acordou daquele jeito — às vezes isso acontecia com uma frequência maior do que elas conseguiam contar. Fontaine levantou o indicador, pedindo que ela esperasse ali mesmo, como se ela fosse sair — a parede estava muito confortável para que saísse dali ou que tivesse qualquer energia para tal.
Louise correu pelo pequeno dormitório que dividiam, procurando o que sempre melhorava o humor da melhor amiga, não achando em nenhum lugar visível. Ela sabia que deveria ter guardado em um lugar fácil de lembrar para que não passasse por esse apuro toda vez. Foi só quando passou pela geladeira pela quarta vez que leu o aviso grudado nela, mostrando onde estava. A ruiva deu dois tapinhas na testa, impressionada com a lerdeza.
— Procurando por isso? — Charlotte a encontrou no meio do caminho, o abacate de pelúcia em mãos e uma sobrancelha erguida. A mais velha sorriu amarelo, os ombros encolhidos. — Merci.
A morena abraçou forte o objeto fofo, começando a rir conforme se sentia melhor — era tão reconfortante de assistir a mudança, como se uma fera fosse domada apenas pelo amor, um verdadeiro conto de fadas.
— Então... — Louise tentou dizer como quem não queria nada, aproximando-se lentamente. — O que iremos cozinhar hoje?
Por mais que cupcakes fossem fáceis e rápidos de fazer, a dupla dinâmica demorou algumas horas desnecessárias para terminar os dez bolinhos que deram certo. A mais velha conseguiu queimar as duas primeiras fornadas, distraídas com a cantoria desafinada da melhor amiga — o que passava um pouco da responsabilidade para ela. No entanto, enquanto a morena tirava o miolo de cada um, Louise vinha por trás da mais nova para comer, alegando estar verificando se estava realmente bom, fazendo com que precisassem preparar mais algumas massas.
E quando a hora do almoço chegou, suas barrigas estavam tão cheias que decidiram pular essa refeição, prometendo que acabassem com os quatro cupcakes restantes mais tarde. Charlotte, esparramada no chão da sala, recorreu ao celular para olhar suas notas, ainda que o aplicativo não funcionasse direito, tamanha era sua preguiça de sair daquela posição. As duas não só tinham comido muito doce, como também dançado e cantado tão alto quanto seus pulmões conseguiam aguentar — irritando dois vizinhos do dormitório.
— Se eu tiver realmente passado esse semestre, vou beber três doses de tequila hoje — falou, achando apenas uma desculpa para abusar no álcool naquela noite.
A ruiva riu, dando um t**a na perna da outra, percebendo o que ela fazia — era como se suas mentes estivessem conectadas.
— É óbvio que vai, deveria acrescentar alguns copos — provocou Louise, esperando pela resposta da melhor amiga.
— Tudo bem, você vai ter que virar a garrafa.
— Por que eu?
— Não era para aumentar? Seu pedido é uma ordem. — Charlotte se fez de inocente, recebendo outro t**a. — Para de me bater.
— Você é péssima quando age como uma santa, ma bichette. Nós duas sabemos a diabinha que é — a ruiva argumentou, a expressão de quem falava o óbvio fez com que a morena jogasse a pantufa na amiga. — E não vou parar, lide com isso.
— Hoje alguém está toda para frente — Lottie debochou, trocando com a outra o gesto mais infantil que existia na face da terra, a língua para fora. — Está pronta? Em cinco segundos saberemos o quanto a mulher mais inteligente desse mundo irá dançar em cima de qualquer mesa que tiver naquele bar.
O silêncio reinou por alguns segundos, o aplicativo demorando mais do que o normal para mostrar o resultado — pelo menos era o que Charlotte achava —, deixando-a um pouco nervosa momentaneamente. Contudo, quando verificou todas as matérias três vezes, fazendo um cálculo mental rapidamente, não disse nada para a ruiva, querendo criar mais suspense.
— E então? — Louise perguntou, a respiração presa em expectativa.
A Roux virou o rosto teatralmente, sorrindo tão grande que seus olhos m*l estavam abertos, apenas para dizer:
— Parece que alguém vai virar a garrafa a noite toda. — Começou a dançar com os ombros, os braços erguidos.
A ruiva gritou, acompanhando os movimentos descoordenados da melhor amiga, feliz por todo o trabalho que a morena tinha feito durante o semestre inteiro, realmente muito orgulhosa.
— Espera, quem você quis dizer com a mulher mais inteligente?
Como o desafio daquela semana era convidar para ir ao bar, o quarteto achou perfeito como tinha se encaixado para que comemorasse o fim da primeira parte da vida universitária deles — exceto Leroy, que ainda começaria —, tendo uma desculpa para se divertirem sem que ficassem preocupados com os milhões de trabalhos, estudos e provas. Pierre e Charlotte tinham sido os únicos a pegar avaliação com os professores, aparecendo nas aulas em que quase ninguém ia, então tiveram a certeza de que tinham passado antes do suspense todo de esperar que eles computassem as notas.
O mais velho nunca tinha colocado os pés dentro de um lugar como aquele, achando que eram muito cheios e com a música um tanto mais alta do que gostava, no entanto, por ser uma tarefa, resolveu dar uma chance — além de que seus melhores amigos estariam com ele, nada podia dar errado, né?
Thomas, quando soube onde iriam, ficou tão animado que não pensou em mais nada que não fosse a sexta-feira à noite. Ele contou os minutos para sair do trabalho, voltar para o apartamento para se arrumar e esperar que as amigas chegassem — tinham decidido de irem juntos ou teriam problemas para se encontrarem na maior muvuca dentro do estabelecimento, já que quase todos os estudantes também estariam lá. Sua experiência em um bar se resumia em uma única vez que foi anos antes com uns colegas do colégio após a formatura e tinha sido estranha, para dizer o mínimo. Ter a chance de apagar aquela memória com uma melhor ainda era sua maior esperança, ele tinha certeza que não seria deixado sozinho por nenhum dos amigos.
Não acostumado com tal evento, Pierre questionou o mais novo sobre qual roupa deveria vestir algumas vezes, fazendo Thomas ficar ainda mais animado com a noite. Renaud se sentia nervoso, totalmente fora da sua zona de conforto, mas ter o melhor amigo ao lado e o ajudando, conseguiu o acalmar. Contudo, percebeu que suas roupas eram formais demais para uma noite de diversão, decidindo fazer umas compras nas férias.
Charlotte e Louise, assim que deixaram de preguiça pela barriga cheia, passaram a tarde se produzindo para a saída que fariam. A ruiva tinha cachos nos fios compridos, um vestido preto não tão apertado quanto a maioria usaria, dando uma movimentação perfeita para dançar. E finalmente conseguiria dizer que era alta, usando um salto preto aberto. Sorte que ela sabia andar neles, ao contrário da morena que escolheu usar seu coturno preto, alegando que odiava sentir os pés doerem em meia hora, impossibilitando-a até mesmo de caminhar. A meia quadriculada contemplava o visual mais rockeiro que tinha.
A mais velha tentou convencer a melhor amiga a fazer algo no cabelo, mas Charlotte recusou, preferindo deixá-los soltos. E quando finalmente ficaram prontas, quarenta minutos depois do combinado, chegaram até o apartamento dos morenos, apenas interfonando para que descessem ou enrolariam ainda mais. Thomas assoviou para as duas, elogiando o quão lindas estavam, no entanto, tropeçando nas palavras para se explicar que eram bonitas sempre e não só quando se arrumavam. Contudo, era diferente do qual eles estavam acostumados a vê-las.
Pierre não conseguiu tirar os olhos de Louise, encantado com a forma delicada que ela estava, ficando vermelho ao ser pego a encarando por mais tempo que o normal, mas a ruiva apenas sorriu, puxando-o pela mão para que andassem logo.
— Não querem chamar um uber? — ele perguntou, imaginando a dor que ela deveria estar sentindo em cima daquele salto. E quando a mais velha negou, rindo de sua reação, Renaud insistiu: — Tem certeza que isso não machuca?
— Pierre, supera — Charlotte disse, piscando para ele, que, mais uma vez, sentiu seu rosto queimar.
Eles não chegaram tão tarde quanto imaginaram, o bar ainda estava um pouco vazio para uma sexta-feira, então foi fácil conseguir uma mesa boa para passarem a noite. Descobriram que aquele dia todas as bebidas estavam em promoção, o que Charlotte amou saber, escolhendo algo forte logo de cara. Tinha uma banda tocando cover dos sucessos da atualidade, deixando o ambiente gostoso de se estar, o que Pierre aprovou — somente depois da meia-noite que o DJ entraria para animar todo mundo.
A conversa que seguiu entre eles, no início, foi sobre a universidade, o trio de estudantes trocando as notícias sobre suas notas, os professores e seus colegas s*******o. Thomas anotava tudo mentalmente para se lembrar quando começasse a estudar semestre que vem, ainda mais o que o melhor amigo falava, já que estavam no mesmo curso. Louise e o mais novo acompanhavam a morena na bebida, seus copos ficando vazios muito rápido. Pierre recusou o álcool, por mais leve que fosse o drink, optando por um bom e gelado refrigerante.
A hora foi passando e quando as músicas ficaram melhores de dançar, Charlotte os chamou para invadir a pista, mas ao trocar um olhar com o mais velho, Leroy negou com a cabeça, evitando o deixar sozinho. No entanto, Louise tocou o ombro dele e foi o suficiente para que ele lembrasse do desafio, levantando da sua cadeira para seguir as amigas, o mais novo logo atrás — não entendendo o que tinha acontecido, porém não iria questionar nada.
Ao contrário do que os outros três achavam, Pierre não tinha o sentimento de obrigação no coração, ele só não levava jeito para mexer os ossos como a maioria das pessoas dali, ele só não queria passar vergonha desnecessariamente. Contudo, com apenas dez minutos o moreno esqueceu esse pensamento, abrindo sua mente para se divertir com os amigos como a noite prometia. O quarteto ria das danças improvisadas que eles inventaram, parecendo que tinham combinado cada passo em casa.
Mesmo com a música rolando uma após a outra, Pierre decidiu sentar um pouco. Seu corpo suava em todos os lugares e uma sede absurda era o que ele mais queria fazer parar. Quando o garçom chegou, sem pensar muito, pediu uma bebida alcoólica, deixando a lembrança vívida da ressaca que, com certeza, teria no dia seguinte. E enquanto esperava, observou seus amigos ainda cheios de energia na pista de dança.
Era óbvio que Charlotte e Louise estavam muito bêbadas, o que deixava tudo mais engraçado com os movimentos que faziam e Thomas não parecia no nível delas, ainda. Seus olhares se encontraram, o mais novo sorrindo ao mesmo tempo que o chamava, recebendo um sinal de que estava com sede em troca. Leroy então falou algo no ouvido da mais nova, indo até o melhor amigo.
— Cansou, Perry? — questionou assim que sentou ao lado dele, que negou. — Acho que a idade bateu, hein?
O mais velho ergueu uma sobrancelha, sentindo-se ofendido com a ousadia do amigo, mas não deixaria barato.
— E você deveria estar bebendo? Cadê seus pais? — devolveu, o outro com o copo na mão na hora certa para que a resposta saiu.
Thomas sorriu abertamente, adorando o humor do mais velho. Ambos se encaravam com um ar divertido entre eles, algo que não conseguiam identificar de primeira os cercava, deixando-os tentados a se aproximarem ainda mais. E assim fizeram, com a desculpa que não se escutavam direito por causa da música alta. Os joelhos se encostavam, as cabeças alternando entre o ouvido e a boca um do outro ao que conversavam aleatoriedades, mas sempre uma farpa era trocada.
Charlotte, depois que avisou a ruiva o que o mais novo tinha lhe falado, aproximou da amiga, tendo-a como parceira oficial de dança. Os corpos se moviam em sincronia, tão perto que os toques foram impossíveis de evitar. A corrente elétrica que sentiam por todos os membros despertava desejos que repararam ter há alguns dias, desde que os últimos selinhos aconteceram.
Louise tinha os olhos fechados, aproveitando o calor que as mãos da melhor amiga compartilhava consigo quando as peles se encostavam, tão bom que entreabrir os lábios foi algo inconsciente de se fazer e a morena teve que se segurar para não avançar, utilizando um autocontrole que seu estado bêbado não comportava. Porém, diminuiu a distância entre elas do mesmo jeito, tocando os cachos perfeitos da ruiva ao que alcançava o ouvido dela.
— Você está me provocando — murmurou, os lábios pintados de bordo acariciando o lóbulo da amiga no processo.
A mais velha tremeu, instintivamente segurando a cintura da morena, puxando-a para colar o corpo ao seu, apertando-a como um pedido mudo de que ela continuasse. Charlotte suspirou, o calor deixando a ruiva ansiosa com todo aquele estímulo.
— Posso parar, se quiser — sugeriu Louise, subindo uma das mãos para o rosto da amiga, tirando uma mecha de cabelo do caminho, ousando em morder a orelha dela.
A Roux poderia ter se afastado e acabado com a aura sensual que elas criaram, envolvendo-as de forma que o mundo ao redor não importava mais, no entanto, começou a distribuir beijos no pescoço alvo da melhor amiga, os movimentos da dança que faziam ficando lentos.
Louise suspirou, subindo as mãos pelos ombros da morena, querendo muito mais daquilo que não podiam fazer e com um lapso de consciência, afastou a amiga, trocando um olhar rápido e seguindo por um caminho até o banheiro mais próximo.