Capítulo 5: O Choque de Realidade

1195 Words
POV: Sebastian Rossi) O ar de Curitiba era consideravelmente mais gelado que o do Rio, mas o meu humor estava ainda mais frio. Assim que o jato da empresa tocou a pista, não dei tempo para distrações. Encaminhei o motorista para levar minha mãe, Bianca, o pequeno Lorenzo e minha avó Vitória para a nossa casa de praia, enquanto eu seguia direto para o epicentro do problema: a obra do novo condomínio de luxo no Batel. Ao pisar no canteiro de obras, o que encontrei foi um cenário de incompetência que fez meu sangue ferver. Problemas na drenagem, atrasos nos fornecedores e uma falha de comunicação que poderia custar milhões. Passei horas entre plantas arquitetônicas e discussões com o mestre de obras. Para piorar, eu estava sem um suporte jurídico local. O advogado que cuidava dos nossos interesses no Sul havia se aposentado e eu precisava urgentemente de alguém que conhecesse as leis municipais de Curitiba como a palma da mão para fiscalizar cada contrato. — Eu não pago vocês para me darem desculpas, pago para anteciparem problemas! — bradei na sala de reuniões improvisada, fazendo dois engenheiros baixarem a cabeça. Ao final da tarde, exausto e com os nervos à flor da pele, sentei-me no banco de couro do meu carro e abri uma lista de recomendações que minha secretária enviara. Três nomes de escritórios de advocacia de elite em Curitiba. Um deles, no entanto, saltou aos meus olhos: Gabriel Duarte. Os relatórios diziam que ele era implacável em direito empresarial e tinha um histórico de vitórias impecável. "Duarte... vamos ver se ele é tudo isso mesmo", pensei, guardando o nome na mente. Eu ia discar o número dele quando percebi que meu celular, que estivera no mudo durante as reuniões, tinha duas chamadas perdidas de um número desconhecido. Antes que eu pudesse retornar, o aparelho vibrou novamente. Atendi com a paciência de quem está prestes a explodir. — O que é? Se for telemarketing, saiba que está ligando para a pessoa errada no pior momento possível — disparei, a voz carregada de uma rudeza que eu usava como escudo. Houve um segundo de silêncio do outro lado. Então, uma voz chegou aos meus ouvidos. Era suave, doce, mas carregada de uma firmeza que me pegou desprevenido. — Eu não sou telemarketing. Estou ligando para avisar que a sua avó está no hospital. Ela passou m*l e eu a trouxe para o pronto-socorro. Minha primeira reação foi o cinismo. No meu mundo, pessoas usam tragédias falsas para extorquir dinheiro o tempo todo. — Do que você está falando? Isso é algum tipo de golpe barato? — bufei, rindo sem qualquer humor. — Minha avó está segura em casa. Não tente brincar comigo, mulher. Procure outra vítima. — Escute aqui, seu ignorante! — A voz dela mudou instantaneamente. O doce deu lugar a um chicote de indignação. — Eu não tenho tempo para as suas paranoias de grandeza. Sua avó, Vitória Rossi, está na urgência. Se você se importa minimamente com ela, venha logo. Se não, o problema é seu! Ela desligou. Na minha cara. Fiquei olhando para a tela do celular, estupefato. Ninguém nunca falava comigo daquela forma. A audácia daquela mulher era irritante, mas a voz dela... era como um ímã que ficou ecoando na minha cabeça. Antes que eu pudesse processar a raiva, chegou uma foto. O meu coração, que eu julgava ser feito de pedra, despencou. Era minha avó, pálida, sentada em uma maca de hospital. O medo me atingiu como um soco no estômago. — Merda! — gritei para o motorista. — Para o hospital! Agora! Dou-lhe cinco minutos! Eu não levei nem cinco. O trajeto foi um borrão de adrenalina e culpa. Entrei na recepção do hospital como um furacão, atropelando quem estivesse na frente até encontrar o leito onde ela estava. — Vó! — me aproximei, segurando as mãos dela. — O que aconteceu? — Calma, Sebastian... estou bem. Foi só um susto. Aquela moça, a Olívia, ela foi um anjo... — Vitória tentou explicar, mas eu m*l ouvia. Virei-me para o lado e vi a mulher. Ela estava ali, de pé, observando a cena. Seus cabelos estavam meio bagunçados, ela usava roupas simples, jeans e uma camiseta preta de trabalho. Estava coberta de poeira e o que parecia ser brilho dourado nos braços. "Claro", pensei com o preconceito habitual, "uma oportunista que viu uma senhora rica e decidiu fazer o papel de boa samaritana para ganhar uma recompensa". Sem dizer uma palavra, sem sequer olhar nos olhos dela por mais de um segundo, enfiei a mão no bolso do paletó. Puxei um maço de notas de cem — o valor era alto, o suficiente para calar qualquer um — e joguei sobre ela, ou melhor, em direção a ela. — Pegue. Isso deve pagar o seu tempo e o seu silêncio. Obrigado por não deixar minha avó morrer na calçada — eu disse, a voz gélida, já me virando de volta para Vitória. Esperei que ela se abaixasse para pegar. Esperei que ela agradecesse com a ganância típica de quem não tem nada. Mas o que aconteceu a seguir me deixou em choque. Ela simplesmente ignorou o dinheiro espalhado. Não tocou em uma nota sequer. Olívia apenas me lançou um olhar de desprezo tão profundo, tão carregado de decepção humana, que eu me senti, por um microssegundo, pequeno. Ela deu as costas e saiu do hospital sem olhar para trás, com uma postura de rainha que desafiava a simplicidade de suas roupas. Fiquei sem entender. Quem, em sã consciência, não gosta de dinheiro? Quem recusa uma quantia daquela por um favor de poucos minutos? Peguei as notas do chão, sentindo um gosto amargo na boca, e as guardei de volta no bolso. Mas o olhar dela e aquela voz... eles ficaram gravados na minha mente como uma marca de fogo. Eu tentei focar na minha avó, que agora me olhava com uma tristeza que doía mais que qualquer bronca. Levei Vitória para casa sob protestos. Quando chegamos, o clima na nossa casa de praia era de caos. Minha mãe, Helena, estava agoniada, andando de um lado para o outro. Bianca tinha acabado de chegar da praia, com os cabelos ainda úmidos, e entrou em choque ao saber do hospital. — Como você a deixou sozinha, Sebastian? — Bianca perguntou, enquanto ajudávamos nossa avó a se deitar. — Eu estava na obra, Bianca! Eu não previa isso! — respondi, tentando esconder meu próprio abalo. A casa finalmente se acalmou tarde da noite. Eu me sentei na varanda, olhando para o mar escuro de Curitiba. Eu tinha uma obra caindo, um contrato milionário em risco e precisava ligar para aquele tal de Gabriel Duarte para resolver o jurídico. Mas, pela primeira vez na minha vida profissional, eu não conseguia pegar o telefone. Minha prioridade agora era garantir que minha avó ficasse bem, mas, no fundo, eu sabia que a imagem daquela mulher — Olívia — saindo do hospital sem aceitar um centavo meu, seria a única coisa que eu veria quando fechasse os olhos. O que havia de errado com ela? Ou melhor... o que havia de errado comigo
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