Capítulo 4: Estruturas Rígidas

1039 Words
(POV: Sebastian Rossi) O som da minha caneta tinteiro batendo ritmadamente contra a mesa de carvalho era o único ruído na sala de reuniões, além da voz monótona do diretor financeiro. Eu não precisava olhar para os gráficos no telão para saber que os lucros da Rossi Arquitetura & Engenharia tinham subido 15% no último trimestre. Eu mesmo projetei cada passo dessa expansão. No mundo dos negócios, assim como na engenharia, se você não calcular a carga que uma estrutura pode suportar, ela desaba. E eu não permitia desabamentos. Nem na minha empresa, nem na minha vida. A porta da sala abriu-se levemente e a minha secretária, Patrícia, entrou com uma bandeja de cafés. Ela usava uma saia um pouco mais justa do que o código de vestimenta exigia e inclinou-se deliberadamente ao colocar a xícara à minha frente, deixando o perfume doce demais invadir o meu espaço pessoal. Eu sabia o que ela estava fazendo. Já tinha visto aquele olhar em dezenas de mulheres que orbitavam minha posição social. Houve um tempo em que eu me divertia com isso. Às vezes, ainda me permitia noites casuais com mulheres que entendiam as regras do jogo: uma noite era um contrato de prazer; duas noites era o início de uma expectativa que eu não estava disposto a cumprir. Eu nunca passava dos limites, nunca prometia o que não sentia. Eu não sabia o que era amor, e para ser sincero, a julgar pelo que vi o meu pai fazer com a minha mãe durante toda a minha adolescência, o amor era apenas uma ferramenta de tortura usada por homens fracos para subjugar mulheres. Eu não seria nenhum dos dois. — Mais alguma coisa, Sr. Rossi? — ela perguntou, a voz num tom sugestivo, sustentando o olhar. — Apenas que feche a porta ao sair, Patrícia. — Respondi, sem sequer levantar os olhos dos documentos. — E avise ao jurídico que quero os contratos da filial do Sul na minha mesa até o fim do dia. Vi pelo canto do olho ela murchar, a vergonha tingindo o seu rosto enquanto saía rapidamente. Eu não sentia prazer em ser rude, mas a clareza era a minha maior virtude. Se eu não dava esperanças, não havia corações partidos. Pelo menos, era o que eu dizia a mim mesmo para manter minha consciência em silêncio. A reunião terminou e minha mente estava exausta, mas o meu corpo precisava de movimento. Peguei as chaves do meu carro e dirigi até uma das nossas maiores obras na zona sul do Rio de Janeiro. Eu não era um presidente que ficava apenas atrás de uma mesa de vidro. Eu era arquiteto por formação e paixão. Gostava do cheiro do cimento, do barulho das betoneiras e da precisão dos níveis. Passei a tarde revisando cada viga, conferindo se o acabamento estava de acordo com o padrão Rossi. Se houvesse um erro de um milímetro, eu mandava refazer. A perfeição não aceita desculpas, e meu sobrenome estava em jogo. Quando o sol começou a se pôr, pintando o céu do Rio com tons de laranja e roxo sobre o Cristo Redentor, dirigi finalmente para casa. A mansão no Jardim Botânico era o meu verdadeiro refúgio. Ali, as paredes não eram feitas apenas de betão e vidro, mas de algo que eu ainda lutava para entender: afeto. Assim que abri a porta, fui atingido por um pequeno furacão de sete anos. — Tio Sebastian! — Lorenzo correu e agarrou-se às minhas pernas. Senti a rigidez dos meus ombros desaparecer instantaneamente. Agachei-me e levantei-o no ar, arrancando-lhe uma gargalhada pura que sempre desarmava minhas defesas. Lorenzo era o meu xodó, o filho que eu provavelmente nunca teria. Ele era a razão pela qual eu trabalhava tanto para garantir que a Bianca, minha irmã, nunca mais precisasse depender de nenhum homem que a abandonasse, como aquele covarde fez quando ela ainda estava grávida. — Como está o campeão? — perguntei, bagunçando o seu cabelo enquanto entramos na sala de jantar. — Ele estava à tua espera para jantar, Sebastian — minha mãe, Helena, apareceu com um sorriso suave. Ao lado dela, a minha avó, Vitória, observava-nos com aquele olhar sábio que parecia atravessar todas as minhas armaduras de gelo. Sentámo-nos à mesa para o jantar, um dos poucos momentos do dia em que eu não precisava ser o "Presidente Implacável". Bianca contava sobre os preparativos para o aniversário de Lorenzo, enquanto minha mãe servia o vinho. O clima era de paz, até que meu celular vibrou. — Rossi falando. — Atendi, sentindo o instinto de trabalho assumir o controle. — Senhor, temos um problema sério na fundação da obra de Curitiba. O solo cedeu mais do que o esperado e o mestre de obras está parado esperando uma decisão técnica. Se não resolvermos em 24 horas, o cronograma vai para o lixo. Trinquei os dentes. Curitiba. Eu detestava atrasos. Olhei para as mulheres da minha vida e para Lorenzo. Eles pareciam cansados do calor abafado do Rio de Janeiro. — Vou resolver isso pessoalmente — eu disse ao telefone. — Estarei aí amanhã de manhã. Desliguei e olhei para minha mãe e minha avó. — Preciso ir a Curitiba amanhã para salvar uma obra. O que acham de virem comigo? Temos a nossa casa de praia lá, é espaçosa e o clima está muito mais agradável. Lorenzo pode aproveitar a areia e vocês descansam um pouco da rotina do Rio. — Uma viagem em família? — Bianca sorriu. — Eu topo! Preciso mesmo respirar novos ares. Minha mãe e avó concordaram, animadas com a ideia de uma mudança de cenário. Para elas, era um passeio. Para mim, era uma missão de resgate empresarial. Mas, enquanto eu terminava meu jantar, um pensamento estranho cruzou minha mente. Por que, de repente, a ideia de voltar para Curitiba fazia meu pulso acelerar de um jeito que nenhum problema em obra jamais fez? Eu não acreditava em destino, acreditava em cálculos. E, matematicamente, eu não deveria estar ansioso para pisar naquela cidade de novo. m*l sabia eu que aquela viagem não seria para consertar uma fundação de concreto, mas para começar a demolir a fundação de gelo que eu construí ao redor do meu próprio coração
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