Atraso era desrespeito.
Dominic observava o relógio na parede do escritório como se pudesse obrigar os ponteiros a andarem mais rápido apenas com a força da própria irritação. O ambiente estava silencioso, amplo, elegante demais para combinar com o tipo de decisões que eram tomadas ali dentro.
Vidro, mármore, couro.
Sangue invisível.
Matteo permanecia em pé perto da porta, mãos cruzadas à frente do corpo, postura firme. Sabia reconhecer o humor do chefe, e o de hoje tinha gosto de tempestade.
O carregamento deveria ter chegado há quarenta minutos.
Quarenta.
Em outros lugares, talvez isso significasse trânsito, um pneu furado, um imprevisto banal.
No mundo de Dominic Russo, significava possibilidade de traição.
— Já rastreou? — a voz dele saiu baixa, mas cortante.
— Sim — Matteo respondeu. — O sinal parou por alguns minutos perto do viaduto, depois voltou a se mover. Está a dez minutos daqui.
Dominic tamborilou os dedos sobre a mesa.
Parou perto do viaduto.
Paradas não programadas não existiam.
Alguém falou com alguém.
Alguém viu algo que não devia.
Ou alguém estava testando limites.
E testar limites era uma péssima ideia.
Ele se levantou devagar, ajustando o paletó. A cidade se estendia do outro lado da janela, viva, barulhenta, cheia de pessoas que acordavam, trabalhavam, amavam, reclamavam.
Ignorantes.
A maioria nem imaginava que a ordem que mantinha tudo funcionando vinha de homens como ele.
— Quando chegarem, quero todos na sala — disse.
Matteo assentiu.
— Vai interrogar pessoalmente?
Dominic lançou um olhar rápido.
— Você deixaria passar?
Matteo entendeu o recado. Não insistiu.
Alguns minutos depois, o som do portão eletrônico ecoou no pátio inferior. Motores. Portas batendo. Passos apressados.
O cheiro do medo sempre chegava antes.
Dominic caminhou até a sala de reuniões — maior do que a de muitos hotéis — e ocupou a cadeira na cabeceira da mesa. Não precisava levantar a voz. A presença fazia o trabalho.
Quatro homens entraram.
Nenhum deles o encarou por muito tempo.
— A carga está intacta, senhor — um deles disse rápido demais. — Foi só um problema na rota, tinha uma blitz…
Dominic inclinou levemente a cabeça.
— Eu perguntei se estava intacta?
O homem engoliu seco.
Erro.
Matteo fechou a porta atrás deles.
Dominic apoiou os cotovelos na mesa, unindo as mãos, observando um por um. Ele sabia ler microexpressões, respirações, o jeito como os ombros tremiam.
Mentiras eram barulhentas.
— Quem vocês encontraram no viaduto? — perguntou.
Silêncio.
Um deles desviou o olhar.
Dominic viu.
Sempre via.
— Fala — ordenou.
— Foi rápido, chefe… um carro preto. Eles não desceram, só perguntaram se a estrada estava livre. A gente não reconheceu.
Não reconhecer era pior.
Dominic se levantou.
Caminhou devagar ao redor da mesa, cada passo medido, cada segundo ampliando o desespero deles.
Parou atrás do homem que desviara o olhar.
— Você não reconheceu… ou não quis reconhecer?
— Eu juro…
Dominic apoiou a mão no ombro dele.
O toque parecia calmo.
Não era.
— Eu odeio quando tentam me fazer de i****a.
O homem começou a suar.
— Eu não sei quem eram!
Dominic manteve o olhar fixo por mais alguns segundos, avaliando. Talvez fosse verdade. Talvez fosse incompetência.
Nenhuma das duas opções era boa.
Ele retirou a mão.
— Se eu descobrir que você mentiu, não vai ter segunda conversa.
O aviso pairou no ar como uma sentença.
Dominic voltou para a cabeceira.
— Dobrem a segurança das próximas rotas. Quero nomes, placas, imagens. Se alguém estiver sondando meu território, eu vou saber antes que pisem nele.
Todos assentiram rápido demais.
— Podem ir.
Eles praticamente fugiram da sala.
A porta fechou.
O silêncio retornou.
Matteo soltou o ar devagar.
— Quer que eu mande gente atrás do carro?
— Já devia ter mandado.
Matteo fez um gesto afirmativo, pegando o celular.
Dominic caminhou até a janela outra vez.
Negócios.
Poder.
Controle.
Era nisso que ele era bom.
Era nisso que sempre tinha sido bom.
Mas, no meio da avalanche de números, rotas e possíveis traições, um pensamento atravessou sua mente sem pedir permissão.
Cabelo preso às pressas.
Olhos cansados.
Um sorriso que ela não oferecia a quase ninguém.
Arya.
Ele apertou a mandíbula.
Aquilo era inconveniente.
Perigoso.
Desde quando uma mulher ocupava espaço nos pensamentos dele em plena reunião de segurança?
— Ela saiu — Matteo informou, interrompendo o silêncio.
Dominic não precisou perguntar quem.
— Foi para o trabalho?
— Sim. Sozinha.
Claro que estava.
Arya Carter parecia ter nascido sozinha.
Não havia amigos entrando ou saindo do prédio. Não havia família ligando. Não havia ninguém esperando por ela no fim do dia.
Era quase irritante.
Como alguém podia ser tão isolado e, ainda assim, tão… vivo?
Dominic observou a rua lá embaixo, como se pudesse vê-la caminhando mesmo estando longe dali.
Ele lembrava do jeito que ela segurava o bloquinho no café, como se fosse um escudo. Lembrava do tremor leve na voz, da coragem desesperada quando disse não.
Ela tinha medo dele.
E mesmo assim recusou.
Os lábios dele se curvaram minimamente.
Interessante.
— Quer que mantenha a distância de sempre? — Matteo perguntou.
Dominic demorou um segundo a mais para responder.
— Não.
Matteo ergueu o olhar.
— Não a assuste mais do que o necessário — completou. — Mas eu quero saber de tudo.
Tudo.
Se ela falava com alguém.
Se alguém a olhava por tempo demais.
Se alguém ousava imaginar que poderia se aproximar.
O peito dele se enrijeceu com o pensamento.
Arya ainda não tinha entendido.
A negativa dela não tinha encerrado nada.
Tinha iniciado.
Dominic não era um homem acostumado a perder. Muito menos algo que ele já tinha decidido que lhe pertencia.
E, enquanto a cidade seguia acreditando que aquele dia era comum, a obsessão dele criava raízes mais profundas.
Inevitáveis.
— Mais alguma ordem? — Matteo perguntou.
Dominic continuou olhando para fora.
Havia guerra se movendo nas sombras. Havia homens testando fronteiras. Havia dinheiro, risco, traição.
Mas, no centro de tudo, existia uma mulher voltando para casa com ração de gato e pressa no olhar.
Ele queria entender aquilo.
Queria quebrar aquilo.
Queria possuir aquilo.
— Por enquanto, não — disse.
Mas o pensamento continuou.
Logo.
Muito em breve.
Arya Carter iria aprender que fugir dele nunca tinha sido uma possibilidade.