Capítulo 13

752 Words
O dia amanheceu comum demais. Arya odiava quando o mundo insistia em parecer normal enquanto algo dentro dela tinha mudado completamente. Ela acordou com a sensação conhecida de alerta, como se tivesse esquecido alguma coisa importante. Demorou alguns segundos para entender que não era esquecimento. Era expectativa. Desde a noite do homem na calçada, desde a maneira como aquela situação tinha sido interrompida por alguém que claramente não estava ali por acaso, um nome martelava na mente dela. Dominic. Ela não tinha provas. Mas tinha instinto. E o instinto de Arya raramente falhava. Chegou ao trabalho mais quieta do que de costume. Concentrou-se nas tarefas, nos pedidos, no barulho da máquina de café, em qualquer coisa que impedisse sua cabeça de criar teorias. Funcionou. Até a porta abrir. O sino tocou. Simples. Cotidiano. Mas seu corpo reagiu antes de ver. O arrepio subiu pela coluna, a respiração ficou rasa, o coração acelerou como se estivesse tentando avisá-la. Ele. Arya virou. E Dominic Russo entrou no café acompanhado de quatro homens. Não havia exagero na postura deles. Nada chamativo. Mas eram atentos demais, organizados demais, claramente ali por um único motivo: Ele. Dominic caminhava à frente, terno escuro, expressão tranquila, como alguém acostumado a ser observado. Algumas pessoas reconheceram. Outras apenas sentiram o peso da presença. O lugar mudou. Sempre mudava quando ele chegava. E, como se o resto do ambiente desaparecesse, os olhos dele encontraram os dela. Imediatamente. Arya sentiu o estômago afundar. Ele tinha dito que daria espaço. Mas ali estava. De novo. Dominic não foi até o balcão. Não falou com ela. Não exigiu nada. Escolheu uma mesa mais afastada, perto da janela. Sentou. Os homens ocuparam os lugares ao redor, formando um círculo natural de proteção, mas sem impedir que o café continuasse funcionando. Uma reunião. Discreta. Pública. Mas, ainda assim, carregada de tensão. O gerente se aproximou de Arya. — Vai lá atender — pediu em voz baixa, quase ansioso. Claro que ela iria. Quem mais poderia? Arya respirou fundo, pegou o bloquinho e caminhou. A cada passo, tinha a impressão de que o chão ficava menos firme. Dominic a observava aproximar-se sem interromper a conversa com os outros homens. Mas ela sabia. Ele sabia. A atenção dele nunca saía dela por completo. Quando Arya parou ao lado da mesa, o grupo ficou em silêncio. Os homens olharam para Dominic. Esperando. Ele ergueu o rosto. — Boa tarde, Arya. A familiaridade era suave. Pessoal. Perigosa. — Boa tarde — respondeu, profissional. As mãos dela estavam frias, mas a postura permaneceu firme. — O que os senhores vão querer? Dominic recostou na cadeira, os olhos analisando cada reação dela. Cada barreira. Cada centímetro de distância. — O de sempre para mim. Ela anotou. Os outros fizeram os pedidos rapidamente, respeitosos, quase cuidadosos com a presença dela — e isso não passou despercebido. Arya terminou de escrever. Era para ir embora. Era o que qualquer funcionária faria. Mas a pergunta queimava na língua. E, antes que a prudência pudesse impedi-la, escapou: — Vai ficar muito tempo? Os homens trocaram olhares discretos. Dominic respondeu sem hesitar. — O necessário. O coração dela apertou. Não era ameaça. Mas também não era conforto. Arya juntou o bloquinho contra o peito. — Certo. Virou-se para sair. — Arya. O chamado foi baixo. Mas a alcançou. Ela parou. Não queria virar. Virou mesmo assim. Dominic mantinha a expressão neutra, mas o olhar… o olhar era intenso demais para aquele espaço público. — Eu continuo cumprindo o que prometi. Ela engoliu em seco. — Prometeu muitas coisas sem dizer em voz alta — respondeu, antes de pensar. Os homens ficaram absolutamente imóveis. Dominic gostou da resposta. Era possível ver. — Eu não atravessei nenhuma porta que você fechou — disse. Aquilo fez o peito dela apertar. Porque era verdade. Ele aparecia. Mas nunca invadia. A diferença era mínima. E gigantesca. Arya sustentou o olhar por mais um segundo. — Às vezes a presença já é suficiente. Dominic absorveu a frase em silêncio. Ela saiu antes que ele pudesse responder. O coração batendo rápido demais. O ar pesado demais. Quando voltou com os pedidos, tentou agir normalmente. Colocou as xícaras na mesa, evitou encará-lo por muito tempo. Mas a consciência dele ali era inevitável. Cada risada baixa do grupo. Cada pausa na conversa. Cada segundo. Dominic estava perto. Real. E, pela primeira vez, Arya teve medo de outra coisa. Não de que ele fosse longe demais. Mas de que, se ele parasse de aparecer… ela sentiria falta.
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