Arya tentou continuar o turno como se nada estivesse errado.
Era o que ela sempre fazia.
Respirar.
Sorrir.
Anotar pedidos.
Fingir que o mundo não estava prestes a desabar sobre sua cabeça.
Mas era impossível ignorar.
Os dois homens permaneciam ali havia tempo demais para clientes comuns. As xícaras estavam vazias, o assunto entre eles era quase inexistente, e, ainda assim, não iam embora.
Observavam.
Não de forma vulgar. Não explícita.
Era pior.
Era cálculo.
Arya sentia os olhos deles voltando sempre, medindo cada passo que ela dava atrás do balcão, cada vez que se abaixava para pegar algo, cada respiração mais profunda.
Ela queria perguntar se precisavam de mais alguma coisa.
Queria que pagassem e saíssem.
Queria que desaparecessem.
Mas algo a impedia.
Instinto.
O mesmo instinto que gritava para atravessar a rua correndo quando via o carro preto.
O mesmo que dizia que Dominic Russo era perigo.
Só que agora o medo tinha mudado de forma.
Não era intenso como o dele.
Era frio.
Silencioso.
Como mãos se fechando devagar em volta do seu pescoço.
— Arya.
Ela piscou, voltando ao presente.
— Oi?
— Mesa três.
Ela assentiu, forçando as pernas a obedecer.
Enquanto passava pelos dois homens, ouviu um deles rir baixo. Não era sobre algo engraçado.
Era sobre ela.
O estômago embrulhou.
Mantenha a cabeça baixa, repetiu mentalmente. Termine o turno. Vá para casa. Fique com o Latte. Tranque a porta.
Vai passar.
Sempre passava.
Mas, do lado de fora, outra engrenagem já estava girando.
O carro de Matteo estava estacionado a meia quadra.
Discreto.
Vidros escuros.
Ele observava pelo retrovisor, recebendo as atualizações pelo fone.
— Eles ainda estão lá dentro — disse um dos homens espalhados pela região. — Não pediram mais nada.
Matteo apertou a mandíbula.
Amadores.
Ou provocadores.
Talvez os dois.
Ele sabia que Dominic odiava isso — o jogo de mostrar que sabia. Era um convite para a guerra.
O telefone vibrou na mão dele.
Dominic.
— Fala — Matteo atendeu.
— Confirmou? — a voz veio controlada demais.
— Sim. São do Petrov.
O silêncio do outro lado durou um segundo a mais.
Suficiente.
— Eles falaram com ela? — Dominic perguntou.
— Não.
— Chegaram perto?
— Não.
Outro silêncio.
Matteo conhecia aquele silêncio.
Era onde a violência nascia.
— Tira eles de lá — Dominic ordenou.
Simples assim.
Sem gritos.
Sem ameaça.
Mas Matteo sabia que, se aqueles homens ainda estivessem respirando até o fim do dia, já seria um milagre.
— Entendido.
Ele desligou.
Fez um gesto para os outros.
Era hora.
Dentro do café, Arya estava limpando uma mesa quando viu movimento pela vitrine.
Dois homens desceram de um carro.
Não eram clientes.
Não tinham o ar casual de quem queria café.
Tinham propósito.
Arya sentiu o coração falhar uma batida.
Eles entraram.
Não olharam para o balcão.
Foram direto para a mesa dos desconhecidos.
Trocaram poucas palavras.
Rápidas.
Secas.
O tipo de conversa que não precisava ser longa para ser entendida.
Os dois homens que observavam Arya levantaram imediatamente.
Sem protestar.
Sem discutir.
Foram embora.
Assim.
Simples.
Como se nunca tivessem estado ali.
Arya ficou parada, o pano ainda na mão.
O que…?
Os recém-chegados também saíram logo depois, sem pedir nada.
O sino da porta tocou.
E o café voltou ao normal.
Conversas.
Talheres.
A máquina de espresso.
Mas Arya não conseguia se mexer.
Porque havia entendido uma coisa.
Aquilo não tinha sido coincidência.
Alguém tinha mandado.
Alguém tinha poder suficiente para decidir quem podia ou não ficar perto dela.
E, no fundo, ela já sabia o nome.
Dominic.
O ar pareceu faltar.
Proteção não deveria ser assustadora daquele jeito.
Mas era.
Porque não vinha com escolha.
Ela apoiou a mão no balcão, tentando recuperar o equilíbrio.
A sensação de estar presa em algo muito maior se instalou de vez.
Não era imaginação.
Não era paranoia.
Era real.
Ela estava no meio.
Quando Matteo ligou de volta, Dominic já estava em pé.
Esperando.
— Resolvido — o braço direito informou.
— Eles falaram com ela?
— Não.
Dominic assentiu lentamente.
Uma parte da pressão no peito diminuiu.
Outra aumentou.
Petrov tinha dado o primeiro passo.
Agora ele sabia onde atingir.
Sabia quem olhar.
E Dominic precisava agir antes que a curiosidade virasse iniciativa.
Ele pegou o paletó.
— Onde você vai? — Matteo perguntou, mesmo já suspeitando.
— Passear.
Não era verdade.
Era território.
Era aviso.
Era guerra desenhada com passos elegantes.
Dominic não podia mais fingir que Arya era um interesse privado.
Ela tinha sido colocada sob holofotes.
E isso significava uma única coisa:
Ele teria que chegar primeiro.
Arya terminou o turno em automático.
A mente repetia a cena sem parar.
Os homens.
A chegada.
A retirada.
Ela queria acreditar que tinha sido apenas impressão, mas a verdade pulsava.
Dominic tinha interferido.
Por quê?
Para protegê-la?
Ou para garantir que ninguém mais tocasse no que ele considerava dele?
A diferença importava.
E, ao mesmo tempo…
Não mudava nada.
Quando saiu do café, o vento frio da rua pareceu mais pesado do que o normal.
Arya abraçou a própria bolsa contra o corpo.
O mundo seguia.
Pessoas riam.
Carros passavam.
Mas, em algum ponto invisível da cidade, linhas estavam se cruzando.
Homens estavam decidindo destinos.
E o dela estava entre eles.
Sem que tivesse sido consultada.
Arya começou a caminhar.
Sem perceber que, a poucos quarteirões dali, Dominic Russo vinha na direção oposta.
Cada passo aproximando dois mundos que jamais deveriam ter se tocado.
Mas que agora eram inevitáveis.