LXXXIV

793 Words
A ausência de Rowena não passou despercebida. No primeiro dia, foi estranhamento. No segundo, murmúrio. No terceiro… preocupação. A rainha não apareceu no conselho. Não sentou ao lado do rei no trono. Não ouviu as queixas dos camponeses nem mediou disputas. A cadeira ao lado de Ewan permaneceu vazia. — Vossa Majestade, a rainha… — começou um conselheiro mais jovem, cauteloso. Ewan ergueu o olhar lentamente. Bastou isso. O homem engoliu as palavras e baixou a cabeça. — Prossiga — disse o rei, a voz baixa, cortante. O conselho seguiu. Sem Rowena, a sala parecia mais fria. Menos humana. Mais perigosa. Ewan estava diferente. Mais rígido do que jamais fora. As decisões vinham rápidas, sem espaço para debate. Punições eram exemplares e as vezes exageradas. Ordens, absolutas. O lobo estava de volta e sem contenção. — O rei voltou a ser o que era — cochichavam os conselheiros mais antigos. — Pior — murmuravam outros. — Agora ele governa sem a rainha. Nos atendimentos ao povo, a mudança foi ainda mais visível. Os camponeses entravam receosos. Falavam baixo. Evitavam olhar nos olhos do rei. Antes, Rowena suavizava o ambiente. Perguntava nomes. Ouvia com atenção. Agora, havia apenas o silêncio pesado… e o olhar gélido do lobo. Ewan resolvia tudo com justiça, ninguém podia negar isso. Mas sem palavras de conforto. Sem proximidade. Sem calor. — Ele não é c***l — diziam nas vilas. — Mas é frio como o inverno. Ewan sentia. Sentia a ausência dela em cada reunião. Em cada decisão. Em cada noite solitária. Mas não chamava por ela. Orgulho demais. Medo demais. — Se ela quiser vir, virá — repetia para si mesmo, como se fosse uma verdade. Mas o silêncio do castelo gritava o contrário. Rowena, por sua vez, permanecia em seus aposentos. Não por fraqueza. Mas por escolha. Ela precisava se recompor. Redefinir quem era sem depender da presença dele. — Eu não posso ser a rainha que só existe ao lado do rei — pensava, olhando pela janela. — Preciso existir por mim. E, ainda assim, cada decisão tomada por Ewan sem ela… era um lembrete c***l do que haviam sido juntos. O reino sentiu. Os soldados tornaram-se mais rígidos. O povo, mais cauteloso. O castelo, mais frio. E todos sabiam, mesmo que ninguém dissesse em voz alta: Enquanto Rowena permanecesse afastada, o lobo governaria sozinho. E o inverno, embora a neve já estivesse derretendo, parecia ter voltado a morar no coração do rei. O dia amanheceu pesado, como se o castelo pressentisse o que viria. O conselho reunia-se havia horas quando, finalmente, um dos homens mais antigos bateu o cajado no chão de pedra. — Exigimos a presença da rainha — disse, firme. — O reino precisa vê-la. Precisa ouvi-la. Ewan não reagiu de imediato. O olhar dele permaneceu fixo à frente, impassível. — Chamem-na — ordenou, após um breve silêncio. Rowena entrou algum tempo depois. Não houve anúncio solene. Não houve demora calculada. Ela simplesmente atravessou as portas. Vestia-se com sobriedade, elegante, mas sem qualquer ornamento que lembrasse vaidade. A postura era impecável, a expressão controlada, fria. Ewan sentiu. Sentiu antes mesmo de vê-la por completo. Mas ela não olhou para ele. Nem ao entrar. Nem ao sentar-se. Nem durante toda a reunião. Os conselheiros falaram. Sobre impostos. Sobre fronteiras. Sobre alianças. Rowena permaneceu em silêncio absoluto. Não interrompeu. Não questionou. Não acrescentou. Algo impensável meses atrás. Ewan, por dentro, estava em alerta constante. Cada segundo sem a voz dela era como uma lâmina lenta. Quando o último assunto foi encerrado, o conselheiro mais velho pigarreou. — Vossa Majestade, a rainha… deseja se pronunciar? Por um instante, o ar ficou imóvel. Rowena levantou-se. Finalmente, todos olharam para ela. Ela respirou fundo e então falou, com calma absoluta: — Concordo com todas as decisões tomadas pelo rei nesta reunião. Silêncio. — O que ele escolhe… — continuou, a voz firme, sem emoção aparente — é o que deve ser feito. Nenhuma palavra a mais. Nenhuma opinião própria. Nenhum olhar em direção a Ewan. Ela fez uma breve reverência ao conselho. Virou-se. E saiu. As portas se fecharam atrás dela com um som seco. Ewan permaneceu imóvel. Por fora, o rei intacto. Por dentro… algo cedeu. Ela não o enfrentara. Não o desafiara. Não o provocara. Ela simplesmente… retirara-se. Como se dissesse, sem palavras: Você escolheu governar sozinho. Então governe. O conselho trocou olhares inquietos. — Majestade… — começou alguém. Ewan ergueu a mão, interrompendo. — A reunião está encerrada. A voz era de gelo puro. Mas quando ele se levantou, todos perceberam algo diferente. O lobo ainda estava ali. Mais temido do que nunca. Só que, pela primeira vez, governava com um trono completo… e um vazio ao lado que nenhum poder parecia capaz de preencher
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