Os dias seguintes arrastaram-se densos, silenciosos.
Havia cinco meses que Rowena não tomava o desjejum com Ewan.
Cinco meses desde a última vez que dividiram a mesma mesa sem a presença fria do dever entre eles.
Naquela manhã, algo em Ewan rompeu.
— Chamem a rainha para o desjejum — ordenou, seco.
A criada hesitou ao voltar.
— Majestade… a rainha disse que… prefere não vir.
O olhar de Ewan escureceu.
— Não é um convite. — a voz saiu baixa, perigosa. — É uma ordem do rei.
Rowena veio.
Entrou no salão com a mesma postura impecável que agora a acompanhava como uma armadura. Sentou-se à mesa oposta à de Ewan, com movimentos contidos, quase mecânicos.
Não o cumprimentou.
Não o encarou.
Apenas se serviu.
Ewan não tocou na comida.
Desde o instante em que ela entrou, seus olhos permaneceram presos nela cada gesto, cada pequeno movimento, cada respiração contida.
Ele tentou encontrar algo.
Raiva.
Mágoa.
Qualquer emoção que denunciasse que ainda doía.
Mas Rowena parecia… distante.
Como se estivesse ali apenas no corpo.
Ela manteve os olhos no prato, nas mãos, na xícara.
Não olhou para ele uma única vez.
O silêncio entre os dois era ensurdecedor.
Talheres tocavam a porcelana.
Criadas entravam e saíam com passos leves demais.
O fogo da lareira estalava.
Ewan sentia a própria paciência se desfazer.
Ela estava ali por ordem.
Não por vontade.
E isso o atingiu mais fundo do que qualquer recusa.
Quando Rowena terminou, pousou o guardanapo com delicadeza.
Levantou-se.
Fez uma breve inclinação de cabeça formal, distante direcionada não ao homem, mas à figura do rei.
E saiu.
Só então Ewan respirou fundo.
A mesa permanecia intacta diante dele.
A rainha obedecera.
Mas, ao fazê-lo sem sequer olhá-lo, deixara claro algo que ele compreendeu tarde demais:
Ele podia ordenar a presença dela.
Mas já não tinha o direito de exigir o coração.
Ewan não a seguiu.
Não chamou seu nome.
Não quebrou o silêncio.
Mas algo dentro dele rasgou.
O rei deixou o salão com passos duros, o maxilar travado, e foi direto para o campo de treino. A armadura ainda não estava completa quando ele já empunhava a espada pesada, c***l, feita para guerra, não para exercícios.
— Todos para fora do meu caminho. — rosnou.
Os soldados se entreolharam.
Ewan nunca treinava assim.
O primeiro golpe veio como um trovão.
A lâmina cortou o ar com violência desnecessária, cravando-se no poste de treino a ponto de rachar a madeira. Ele puxou a espada com força bruta e atacou novamente golpe após golpe, sem ritmo, sem técnica refinada.
Apenas raiva.
Raiva de si mesmo.
Raiva do silêncio de Rowena.
Raiva por tê-la afastado.
Raiva por agora não saber como trazê-la de volta.
O capitão Fergus observava de longe, os braços cruzados.
— Ele não está treinando… — murmurou um dos soldados mais jovens. — Está punindo algo.
Outro engoliu em seco.
— Ou alguém.
Ewan avançou contra dois homens ao mesmo tempo.
— Venham. — disse, a voz baixa, perigosa. — Sem piedade.
Os soldados hesitaram apenas um segundo antes de obedecer.
Foi um erro.
Ele os desarmou com brutalidade, jogando um no chão e forçando o outro a recuar tropeçando. O som do impacto ecoou pelo campo, pesado demais para um treino.
— De novo. — ordenou.
O suor escorria, misturado à dor antiga nas costelas, mas ele não diminuiu o ritmo.
Se doía, melhor.
Se sangrasse, melhor ainda.
Os homens começaram a perceber.
Não era o Lobo frio e estratégico.
Era algo pior.
— Há ódio nele hoje… — cochichou um veterano. — Um ódio que não vem da guerra.
— Vem de dentro. — respondeu outro.
Ewan derrubou o último adversário e permaneceu parado, respirando pesado, a espada pendendo da mão. Seus olhos estavam escuros, vazios, como se buscassem um inimigo invisível.
Por um instante, ninguém ousou se mover.
Então ele falou, sem olhar para ninguém:
— Se a guerra vier novamente… — a voz saiu grave, carregada — não deixarei nada de pé.
Os soldados se ajoelharam quase por instinto.
Não por respeito.
Por medo.
O Lobo estava acordado.
E todos sabiam: quando o ódio habita um rei como Ewan, o campo de batalha é o único lugar onde ele não se despedaça.