LXXXVI

910 Words
Rowena apareceu no corredor pouco antes da hora marcada. Vestia cores sóbrias, postura impecável, o rosto sereno demais para quem carregava meses de silêncio. Os guardas anunciaram sua chegada, e Ewan, que aguardava à entrada da sala do trono, ergueu o olhar no mesmo instante. Por um segundo apenas um o mundo pareceu parar. Ela estava ali. Tão perto. E ainda assim, inalcançável. — Rowena. — chamou ele, a voz mais baixa do que pretendia. Ela parou, fez uma reverência correta, formal. Como se estivesse diante de um estranho. Aquilo foi mais do que Ewan suportou. — Até quando vai me tratar assim? — rosnou dando um passo à frente. — Como se eu fosse apenas… o rei. Os guardas desviaram o olhar. Aquela não era uma conversa para ouvidos alheios, mas ninguém ousou se mover. Rowena ergueu o rosto devagar. Seus olhos encontraram os dele pela primeira vez em dias firmes, controlados, mas cansados. — Estou apenas seguindo ordens, meu rei. — respondeu, com calma cortante. — Foi o senhor quem determinou distância. Foi o senhor quem mandou fechar portas. As palavras não eram ditas em tom de acusação. E isso doeu ainda mais. Ewan sentiu o golpe como uma lâmina invisível. — Eu fiz isso para protegê-la. — disse, num fio de voz que quase não parecia dele. — Para que não me visse fraco. Rowena sustentou o olhar por mais um instante… então baixou os olhos. — Não me cabe julgar os motivos do rei. — disse. — Apenas obedecê-los. Ela passou por ele, o tecido do vestido roçando de leve em sua armadura um contato mínimo, cruelmente íntimo e caminhou até a porta da sala do trono. Antes de entrar, parou. — Os camponeses aguardam. — acrescentou, sem se virar. — E o reino precisa de nós… unidos. Ao menos em aparência. Então entrou. Ewan permaneceu parado por um momento longo demais. O Lobo, que não temia exércitos nem lâminas, sentiu algo muito mais perigoso se instalar em seu peito: O medo de tê-la perdido para sempre. Respirou fundo, recompôs a expressão, e seguiu atrás dela. O trono os aguardava. E, diante do povo, eles seriam rei e rainha. Mas por dentro, a distância entre eles parecia maior do que qualquer guerra que Ewan já tivesse vencido. A sala do trono já estava cheia quando Ewan entrou. O murmúrio cessou no instante em que o Lobo cruzou o limiar. Os camponeses se ajoelharam, alguns com respeito genuíno, outros com temor antigo aquele que havia voltado a rondar o castelo desde que o rei se tornara novamente de gelo. Rowena já estava ao lado do trono. Não ao lado dele. Ao lado do trono. As mãos delicadamente pousadas à frente do corpo, o rosto impassível, a rainha perfeita. Nenhum gesto fora do lugar. Nenhuma inclinação em sua direção. Ewan sentou-se. O som pesado do trono pareceu ecoar mais do que o normal. — Tragam o primeiro. — ordenou ele. Um camponês idoso foi conduzido à frente. Falava de terras alagadas, de colheitas perdidas, de impostos que não conseguia mais pagar. Sua voz tremia não apenas pelo problema, mas pela presença do rei. Ewan escutava. Atento. Calculista. Rowena escutava também. Ela percebeu algo que ele não: o homem apertava demais o chapéu entre os dedos, os olhos marejados não eram apenas de medo, mas de vergonha. Quando o camponês terminou, o silêncio caiu. Ewan ia falar. Mas Rowena deu um passo à frente. O salão inteiro pareceu prender a respiração. — Majestade… — disse ela, olhando para Ewan, não como esposa, mas como rainha falando ao rei — se me permite. Ele hesitou por um segundo. — Permito. — respondeu. Rowena voltou-se para o camponês, sua voz suave, porém firme. — Quantos filhos o senhor tem? — Três, minha rainha. — E todos dependem dessa terra? — Sim, senhora. Ela assentiu lentamente. — O rei protegerá suas terras. — disse. — Os impostos serão suspensos até a próxima colheita. E homens do castelo ajudarão a conter as águas. O camponês arregalou os olhos. — Minha… minha rainha… Ele começou a chorar. Ewan observava. Não com raiva. Não com orgulho aberto. Com algo muito mais perigoso: lembrança. Lembrança da mulher que caminhara com ele pelo vilarejo. Daquela que pensava primeiro no povo, depois em si. Daquela que ele afastara por medo de ser visto fraco. — Está decidido. — disse Ewan, selando a ordem. O camponês se curvou profundamente, repetindo agradecimentos enquanto era retirado. Um após outro, os pedidos seguiram. E, sem que percebessem, rei e rainha começaram a agir como antes. Ela antecipava necessidades. Ele reforçava decisões. Ela suavizava o medo. Ele garantia proteção. Não trocavam olhares longos. Não se tocavam. Mas o reino sentia. Os murmúrios já não eram de temor. Eram de alívio. Quando o último camponês saiu, o salão foi esvaziado. As portas se fecharam. Ficaram sozinhos. O silêncio agora era outro. Pesado. Vivo. Ewan se levantou devagar. — Você não precisava ter falado. — disse, a voz controlada. Rowena virou-se. — O senhor permitiu. — respondeu. — E o reino precisava. Ele deu alguns passos em sua direção. — E você? — perguntou, mais baixo. — Do que você precisa, Rowena? Ela sustentou o olhar por um instante. Mas ela não respondeu. Apenas fez uma reverência curta. — Com sua licença, majestade. E se retirou. Deixando para trás um rei vitorioso diante do povo… e derrotado diante da única mulher que jamais conseguiu dominar..
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