LXXIX

956 Words
A guerra veio como sempre vinha quando o lobo era chamado: rápida, brutal, sem espaço para piedade. Ewan avançou à frente, como prometera a si mesmo que faria todas as vezes. Homens experientes ao redor, escudos erguidos, lanças firmes. Atrás deles, o exército que ele mesmo moldara homens e mulheres que aprenderam a lutar porque alguém ousou desafiar o mundo antigo. O choque foi violento. A lama misturou-se ao sangue. O ar cheirava a ferro e sangue seco. Gritos se erguiam e morriam tão rápido quanto vidas. Ewan não recuou. O lobo nunca recuava. Quando a lâmina inimiga encontrou suas costelas, foi um golpe profundo, traiçoeiro, vindo de baixo. A dor veio quente, intensa, mas não o derrubou. Ele avançou mesmo assim, golpeando, abrindo caminho, vencendo. A perna direita falhou depois. Um impacto forte, ossos gritando, músculos rasgando. Ainda assim, ele permaneceu de pé tempo suficiente para ver o inimigo cair. A bandeira do outro reino foi ao chão. A guerra… estava vencida. Ewan voltou como sempre voltava. Vitorioso. Silencioso. Quebrado. Quando os portões do castelo se abriram, o lobo ainda estava de armadura. Suja de sangue não todo seu, mas o suficiente para esconder a gravidade real dos ferimentos. — Levem-me direto aos meus aposentos — ordenou, a voz firme apesar do corpo traí-lo. — E ninguém deixe a rainha se aproximar. Os soldados hesitaram. — É uma ordem. Rowena soube antes mesmo de alguém lhe contar. O castelo inteiro mudara de tom. O ar estava pesado. E os passos apressados diziam mais do que palavras. Quando finalmente um criado, pálido demais, deixou escapar a verdade o rei voltou ferido ela não pensou. Correu. Mas foi barrada na porta. Dois soldados cruzaram lanças diante dela. — Saiam do caminho — disse Rowena, a voz baixa, perigosa. — Ordens do rei, minha rainha — respondeu um deles, sem erguer os olhos. — Ele pediu que não se aproxime. O coração dela falhou uma batida. — Ele está ferido. — Gravemente. Rowena respirou fundo, sentindo a raiva e o medo se misturarem. — Abram. Agora. Os homens não se moveram. — Ele não quer que a senhora o veja assim. Assim. A palavra doeu mais do que qualquer lâmina poderia. — Ele não tem o direito de decidir isso sozinho — ela disse, a voz tremendo pela primeira vez. — Eu sou a esposa dele. Silêncio. — E ele é o rei — respondeu o soldado, quase em súplica. — Se o desobedecermos… Rowena fechou os olhos por um instante. Quando abriu, havia algo novo ali. Algo afiado. — Então levem a ele uma mensagem — disse com calma gélida. — Digam que a mulher que ele tenta proteger está sendo dilacerada do lado de fora da porta. Os soldados se entreolharam, tensos. Lá dentro, Ewan cerrava os dentes, sentindo o sangue quente escorrer sob as bandagens improvisadas… e algo pior ainda apertar seu peito. Ele sabia. Mesmo ferido, mesmo tentando afastá-la, ele sabia que ela estava ali. E desde que a guerra começara, o lobo percebeu que talvez a maior batalha fosse impedir Rowena de ver o quanto ele podia sangrar. Os dias seguintes se arrastaram como um inverno sem fim. O castelo estava em silêncio forçado aquele silêncio pesado que só existe depois da guerra, quando a vitória cobra seu preço. Ewan permanecia nos aposentos, deitado não por escolha, mas por necessidade. As costelas quebradas ardiam a cada respiração. A perna direita, imobilizada, lembrava-o constantemente de que nem mesmo o lobo era invencível. Curandeiros iam e vinham. Bandagens eram trocadas. O sangue finalmente estancava… mas a dor permanecia. Rowena tentava vê-lo todos os dias. Mais de uma vez. Pela manhã, quando o sol ainda m*l tocava as janelas altas. À tarde, quando o castelo despertava lentamente. À noite, quando o frio se infiltrava pelos corredores. Sempre a mesma cena. Ela caminhava até a porta dos aposentos reais. Os guardas cruzavam as lanças. O olhar deles era respeitoso… e inflexível. — Ele ainda não pode receber visitas, minha rainha. — Ordens do rei. — Ele precisa descansar. No início, Rowena discutiu. Depois, exigiu. No terceiro dia, implorou algo que nenhum deles jamais esperara ouvir da rainha que calara o conselho. — Só preciso vê-lo — disse certa manhã, a voz baixa, controlada com esforço. — Não vou tocar, não vou falar. Só… ver se ele respira. Os soldados baixaram os olhos. Mas não abriram a porta. Ewan sabia. Sabia porque acordava com a respiração irregular toda vez que passos conhecidos se aproximavam. Sabia porque o ar parecia diferente quando ela estava do outro lado da porta. Sabia porque a dor no peito era pior quando ouvia sua voz abafada no corredor. — Não deixem ela entrar — repetiu aos guardas, mesmo quando os curandeiros já não estavam por perto. — Não importa o que ela diga. — Majestade… — um deles ousou dizer certa vez. — Ela está sofrendo. Ewan virou o rosto, cerrando o maxilar. — É melhor assim. À noite, Rowena voltava para o quarto sozinha. O lado da cama de Ewan permanecia vazio. Frio. Intocado. Ela se sentava ali às vezes, passando os dedos pelo tecido, como se pudesse sentir o calor dele ainda preso ali. — Teimoso..— murmurava, não com raiva… mas com medo. No quarto ao lado, Ewan encarava o teto, os punhos cerrados sobre o peito enfaixado. Ele suportara lâminas. Suportara ossos quebrando. Suportara a guerra. Mas ouvir Rowena ser impedida de vê-lo… isso era outra coisa. Algo que o lobo não sabia como vencer. E, ainda assim, permanecia firme na ordem. Porque, para Ewan, permitir que ela o visse ferido, imóvel, vulnerável… era expô-la ao único inimigo que ele jamais quis que ela enfrentasse: o medo de perdê-lo
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