A guerra veio como sempre vinha quando o lobo era chamado:
rápida, brutal, sem espaço para piedade.
Ewan avançou à frente, como prometera a si mesmo que faria todas as vezes.
Homens experientes ao redor, escudos erguidos, lanças firmes.
Atrás deles, o exército que ele mesmo moldara homens e mulheres que aprenderam a lutar porque alguém ousou desafiar o mundo antigo.
O choque foi violento.
A lama misturou-se ao sangue.
O ar cheirava a ferro e sangue seco.
Gritos se erguiam e morriam tão rápido quanto vidas.
Ewan não recuou.
O lobo nunca recuava.
Quando a lâmina inimiga encontrou suas costelas, foi um golpe profundo, traiçoeiro, vindo de baixo. A dor veio quente, intensa, mas não o derrubou. Ele avançou mesmo assim, golpeando, abrindo caminho, vencendo.
A perna direita falhou depois. Um impacto forte, ossos gritando, músculos rasgando. Ainda assim, ele permaneceu de pé tempo suficiente para ver o inimigo cair.
A bandeira do outro reino foi ao chão.
A guerra… estava vencida.
Ewan voltou como sempre voltava.
Vitorioso.
Silencioso.
Quebrado.
Quando os portões do castelo se abriram, o lobo ainda estava de armadura. Suja de sangue não todo seu, mas o suficiente para esconder a gravidade real dos ferimentos.
— Levem-me direto aos meus aposentos — ordenou, a voz firme apesar do corpo traí-lo. — E ninguém deixe a rainha se aproximar.
Os soldados hesitaram.
— É uma ordem.
Rowena soube antes mesmo de alguém lhe contar.
O castelo inteiro mudara de tom.
O ar estava pesado.
E os passos apressados diziam mais do que palavras.
Quando finalmente um criado, pálido demais, deixou escapar a verdade o rei voltou ferido ela não pensou.
Correu.
Mas foi barrada na porta.
Dois soldados cruzaram lanças diante dela.
— Saiam do caminho — disse Rowena, a voz baixa, perigosa.
— Ordens do rei, minha rainha — respondeu um deles, sem erguer os olhos. — Ele pediu que não se aproxime.
O coração dela falhou uma batida.
— Ele está ferido.
— Gravemente.
Rowena respirou fundo, sentindo a raiva e o medo se misturarem.
— Abram. Agora.
Os homens não se moveram.
— Ele não quer que a senhora o veja assim.
Assim.
A palavra doeu mais do que qualquer lâmina poderia.
— Ele não tem o direito de decidir isso sozinho — ela disse, a voz tremendo pela primeira vez. — Eu sou a esposa dele.
Silêncio.
— E ele é o rei — respondeu o soldado, quase em súplica. — Se o desobedecermos…
Rowena fechou os olhos por um instante.
Quando abriu, havia algo novo ali.
Algo afiado.
— Então levem a ele uma mensagem — disse com calma gélida. — Digam que a mulher que ele tenta proteger está sendo dilacerada do lado de fora da porta.
Os soldados se entreolharam, tensos.
Lá dentro, Ewan cerrava os dentes, sentindo o sangue quente escorrer sob as bandagens improvisadas… e algo pior ainda apertar seu peito.
Ele sabia.
Mesmo ferido, mesmo tentando afastá-la, ele sabia que ela estava ali.
E desde que a guerra começara, o lobo percebeu que talvez a maior batalha fosse impedir Rowena de ver o quanto ele podia sangrar.
Os dias seguintes se arrastaram como um inverno sem fim.
O castelo estava em silêncio forçado aquele silêncio pesado que só existe depois da guerra, quando a vitória cobra seu preço.
Ewan permanecia nos aposentos, deitado não por escolha, mas por necessidade.
As costelas quebradas ardiam a cada respiração.
A perna direita, imobilizada, lembrava-o constantemente de que nem mesmo o lobo era invencível.
Curandeiros iam e vinham.
Bandagens eram trocadas.
O sangue finalmente estancava… mas a dor permanecia.
Rowena tentava vê-lo todos os dias.
Mais de uma vez.
Pela manhã, quando o sol ainda m*l tocava as janelas altas.
À tarde, quando o castelo despertava lentamente.
À noite, quando o frio se infiltrava pelos corredores.
Sempre a mesma cena.
Ela caminhava até a porta dos aposentos reais.
Os guardas cruzavam as lanças.
O olhar deles era respeitoso… e inflexível.
— Ele ainda não pode receber visitas, minha rainha.
— Ordens do rei.
— Ele precisa descansar.
No início, Rowena discutiu.
Depois, exigiu.
No terceiro dia, implorou algo que nenhum deles jamais esperara ouvir da rainha que calara o conselho.
— Só preciso vê-lo — disse certa manhã, a voz baixa, controlada com esforço. — Não vou tocar, não vou falar. Só… ver se ele respira.
Os soldados baixaram os olhos.
Mas não abriram a porta.
Ewan sabia.
Sabia porque acordava com a respiração irregular toda vez que passos conhecidos se aproximavam.
Sabia porque o ar parecia diferente quando ela estava do outro lado da porta.
Sabia porque a dor no peito era pior quando ouvia sua voz abafada no corredor.
— Não deixem ela entrar — repetiu aos guardas, mesmo quando os curandeiros já não estavam por perto. — Não importa o que ela diga.
— Majestade… — um deles ousou dizer certa vez. — Ela está sofrendo.
Ewan virou o rosto, cerrando o maxilar.
— É melhor assim.
À noite, Rowena voltava para o quarto sozinha.
O lado da cama de Ewan permanecia vazio.
Frio.
Intocado.
Ela se sentava ali às vezes, passando os dedos pelo tecido, como se pudesse sentir o calor dele ainda preso ali.
— Teimoso..— murmurava, não com raiva… mas com medo.
No quarto ao lado, Ewan encarava o teto, os punhos cerrados sobre o peito enfaixado.
Ele suportara lâminas.
Suportara ossos quebrando.
Suportara a guerra.
Mas ouvir Rowena ser impedida de vê-lo…
isso era outra coisa.
Algo que o lobo não sabia como vencer.
E, ainda assim, permanecia firme na ordem.
Porque, para Ewan, permitir que ela o visse ferido, imóvel, vulnerável…
era expô-la ao único inimigo que ele jamais quis que ela enfrentasse:
o medo de perdê-lo