XVI

1213 Words
O grande salão não foi preparado como para um baile. Sem música. Sem flores. Sem vinho em excesso. Três cadeiras foram colocadas diante do trono, afastadas entre si o suficiente para que nenhuma mulher se sentisse protegida pela outra. Ewan MacAllister observava em silêncio quando as portas se abriram. Isolde de Invermor Isolde entrou primeiro. Vestia-se com sobriedade elegante, sem ostentação. Os cabelos escuros presos de forma prática. Caminhava como alguém acostumada a ser observada e julgada. Ewan não a convidou a sentar de imediato. — Lady Isolde, — começou. — Seu marido morreu em campanha. O que você fez na semana seguinte? Ela não hesitou. — Assumi o controle das provisões. — respondeu. — Reduzi impostos temporariamente para evitar revoltas e convoquei os chefes de vila para ouvir reclamações antes que se tornassem rebeliões. Ewan inclinou levemente a cabeça. — Quantos homens você perdeu? — Trinta e dois. — disse ela. — Não mandei substitutos. Não havia por quê. — E se houvesse guerra maior? — Teria preparado o povo antes de mandar seus filhos morrerem. Silêncio. — Você se casaria comigo sabendo que talvez eu nunca volte de uma guerra? Isolde sustentou o olhar dele. — Eu me casaria com um rei que não mente sobre o preço da coroa. Ewan fez um gesto para que se sentasse. Lady Maeve de Aros A segunda mulher entrou com passos seguros. Mais jovem. Olhar afiado. Um leve sorriso que não chegava aos olhos. — Maeve de Aros. — anunciou o chanceler. — Casa mercantil forte, controla rotas de sal e ferro. Ewan foi direto. — Quanto vale meu reino para você? Maeve piscou, surpresa. — Em comércio? — Em risco. Ela pensou rápido. — O suficiente para que eu o fortaleça. Mas não para que eu o destrua por orgulho. — Você financiaria uma guerra que sabe que não pode vencer? — Não. — respondeu. — Cortaria o financiamento do inimigo antes que a guerra começasse. Ewan cruzou os dedos. — E se eu decidisse lutar mesmo assim? Maeve inclinou a cabeça. — Então eu garantiria que você tivesse recursos para vencer… e um plano para quando o sangue secasse. Ewan não comentou. Lady Rowena de Glenarraidh A terceira candidata surpreendeu. Rowena era alta, postura firme, mãos marcadas de quem já trabalhou com mais do que penas e tecidos. — Glenarraidh fica na fronteira norte. — disse Ewan. — Terras instáveis. — Sempre foram. — respondeu ela. — Por isso ainda estão de pé. — Quantas vezes você negociou com inimigos armados? — Três. — disse ela. — Duas deram certo. Uma falhou. — O que você fez quando falhou? — Fechei as rotas e os deixei passar fome até implorarem. Alguns conselheiros se entreolharam. — Você pisaria em cadáveres para manter o reino unido? — perguntou Ewan, sem suavizar. Rowena sustentou o olhar. — Eu pisaria em orgulho. Cadáveres vêm quando líderes não sabem ceder antes. Um canto da boca de Ewan se moveu quase um sorriso. Ewan levantou-se. — Se eu ordenasse algo que vocês julgassem errado… o que fariam? Isolde respondeu primeiro: — Eu o alertaria. Em particular. Uma vez. Maeve falou em seguida: — Eu buscaria uma alternativa que salvasse o reino… mesmo que contrariasse sua ordem. Rowena foi a última: — Eu perguntaria se você ainda vê o fim da estrada. Se não, tentaria fazê-lo enxergar. Se sim… obedeceria. O salão ficou em silêncio. Ewan caminhou lentamente diante das três. — Não busco uma rainha para me tornar melhor. — disse. — Busco alguém que não me torne pior para o reino. Ele parou. — Permanecerão em MacAllister por enquanto. — concluiu. — O povo observa. Os reinos também. As três inclinaram a cabeça. Quando saíram, o conselho aguardava, tenso. — E então? — perguntou Seumas. Ewan voltou ao trono. — Nenhuma é fraca. — disse. — Agora veremos qual delas suporta o peso do silêncio… e da espera. Porque, para Ewan MacAllister, as batalhas mais decisivas não eram travadas com espadas. Mas com perguntas que poucos ousavam responder. O anúncio surpreendeu o reino. Um baile. Aberto. Para o povo. Não para nobres apenas, não para alianças seladas em sussurros mas para artesãos, soldados, viúvas de guerra, jovens aprendizes. As portas do grande salão do castelo MacAllister foram abertas como raramente acontecia. Ewan MacAllister não explicou o motivo. Não precisava. Archotes iluminavam as paredes de pedra. Músicos tocavam melodias antigas, conhecidas do povo. Mesas longas estavam repletas de pão, carne, hidromel. Risos ecoavam onde antes só havia eco. No alto, o trono permanecia ocupado. Ewan não usava armadura nem coroa pesada. Apenas um traje escuro, simples, com o símbolo do lobo bordado discretamente no peito. Observava. Sempre observava. Isolde de Invermor Isolde surgiu vestida em azul profundo, sem joias excessivas. O tecido era nobre, mas prático. Os cabelos presos de modo elegante, porém funcional. Ela não permaneceu entre nobres. Desceu. Falou com mulheres mais velhas. Ajudou uma criança a alcançar comida. Ouviu mais do que falou. Quando um veterano mancava ao passar, Isolde foi até ele, inclinou-se para ouvir uma história que ninguém mais parava para escutar. Ewan notou. Ela não olhava para o trono com ansiedade. O olhava apenas quando achava necessário. Maeve de Aros Maeve entrou com presença marcante. Vestido claro, joias discretas porém valiosas. Sabia exatamente como ser vista sem parecer excessiva. Conversava com mercadores, ria no tempo certo, tocava braços ao falar uma habilidade treinada. Quando o povo a cercava, ela sorria. Quando se afastavam, ajustava o manto. Ewan percebeu algo importante: Maeve olhava o salão como quem mede oportunidades. Não desprezo. Cálculo. Rowena de Glenarraidh Rowena escolheu algo inesperado. Vestia-se em tons terrosos, sem adornos. Um vestido resistente, quase simples demais para um baile real. Mas caminhava com firmeza. Sem pedir licença. Sem pedir aprovação. Ela bebeu com soldados. Riu alto. Dançou sem cerimônia. Quando um homem tropeçou, foi ela quem o segurou antes da queda. Ewan viu quando Rowena encarou um grupo de jovens e disse algo que os fez se endireitar, envergonhados. Não buscava agradar. Buscava pertencer. Enquanto o salão se movia, Ewan permanecia imóvel. Observava: Quem agradecia aos criados. Quem reclamava do vinho. Quem falava com o povo… e quem falava sobre o povo. Quem se cansava da música simples. Quem dançava mesmo assim. As candidatas não sabiam, mas cada gesto era anotado. O Povo Observa Também — Aquela ali parece rainha. — cochichou uma mulher sobre Isolde. — A loira fala bonito. — disse um mercador, apontando Maeve. — Gosto da do norte. — murmurou um soldado sobre Rowena — Não tem medo de nós. Ewan ouviu tudo. Não reagiu. Quando a noite avançou, Ewan finalmente levantou-se. O salão silenciou aos poucos. — Este baile — disse ele — não é para me agradar. Um murmúrio percorreu a sala. — É para que eu veja quem respeita este reino quando não há guerra. Ele desceu os degraus. Passou por Isolde. Um aceno breve. Por Maeve. Um olhar avaliador. Por Rowena. Um olhar firme… e algo mais atento. — Amanhã — concluiu — farei escolhas. O salão voltou a respirar. Ewan se afastou, deixando para trás música, risos e olhares curiosos. Porque naquela noite, o Lobo não dançou. Ele observou o rebanho… e quem caminhava entre ele sem se perder
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