XVII

779 Words
O dia seguinte amanheceu limpo e frio, como se o próprio castelo soubesse que decisões definitivas seriam tomadas. As três mulheres foram convidadas para um banquete privado não no grande salão aberto ao povo, mas na sala de pedra usada apenas para conselhos de guerra. A mesa era simples: pão escuro, carne, frutas frescas, vinho leve. Nada cerimonial. Ewan sentou-se à cabeceira. Não como anfitrião gentil. Como rei atento. — Comam. — disse apenas. As três obedeceram, cada uma à sua maneira. Isolde contida. Maeve elegante. Rowena sem hesitação. Quando o banquete terminou, Ewan levantou-se. — Sigam-me. Nenhuma pergunta foi feita. Eles atravessaram corredores antigos, escadas em espiral, portas que raramente eram abertas. O som de aço começou a surgir antes mesmo de o local ser visto. O Centro de Treinamento de Stonehall ( Castelo MacAllister) Onde gerações de MacAllister aprenderam a lutar. Onde Ewan sangrou, caiu, levantou e se tornou o Lobo. O cheiro de ferro e madeira era intenso. Soldados treinavam em silêncio respeitoso ao vê-lo entrar. As três mulheres pararam, confusas. — Majestade…? — começou Maeve. Ewan virou-se. — Aqui não sou majestade. — disse. — Aqui sou apenas mais um que sobreviveu. Ele fez um gesto. Um armeiro aproximou-se com três conjuntos simples: espadas de treino e escudos leves. O silêncio caiu pesado. — Isto… — Isolde começou, cautelosa — não é costume. — Eu não sigo costumes.— disse Ewan. Rowena observava as armas com atenção. Maeve arqueou levemente a sobrancelha. Isolde manteve a postura firme, mas alerta. Ewan caminhou até o centro do espaço circular marcado por riscos antigos no chão. — Quem se sentar ao meu lado — começou — governará um reino cercado por homens que resolvem tudo com lâminas. Ele virou-se para elas. — Quero saber quem de vocês congela, quem aprende, e quem reage quando colocada fora do papel esperado. — Não espero que vençam. — continuou. — Espero que não fujam. O mestre de armas observava, tenso. Aquilo não era comum. Não era confortável. — Escolham. — disse Ewan. — Escudo ou lâmina primeiro. Isolde Isolde foi a primeira a se mover. Pegou o escudo. — Defesa mantém o reino em pé. — disse. Ewan assentiu levemente. Ela enfrentou um soldado experiente, de forma justa. Não atacava impulsivamente. Observava, recuava, testava limites. Caiu duas vezes. Levantou-se duas vezes. Quando finalmente perdeu o escudo, respirava pesado mas não desviou o olhar. — Você aprende rápido. — disse Ewan. — E aceita o chão sem se render a ele. Isolde inclinou a cabeça, ofegante. Maeve Maeve demorou um segundo antes de escolher. Pegou a lâmina. — Ataque decide conflitos antes que se tornem caros. — disse. Seu combate foi curto, calculado. Usava passos precisos, golpes rápidos, mas evitava aproximação prolongada. Quando percebeu que não venceria, tentou negociar no meio da luta, falando para distrair. O soldado não caiu. Ela foi desarmada, mas não caiu. — Você prefere controlar o campo sem entrar nele. — comentou Ewan. — Útil… até que alguém não queira negociar. Maeve sustentou o olhar. — E quando isso acontece? — Então é quando o sangue começa. Rowena Rowena não falou nada. Pegou escudo e lâmina. — Eu disse escudo ou lâmina.— Repreendeu Ewan. — Quem vai para uma guerra com apenas um escudo ou uma lança é um t**o. — Respondeu Rowena sem hesitar. Alguns soldados se entreolharam. Ewan ficou em silêncio. Ela enfrentou o adversário de frente. Não era técnica refinada. Era instinto. Protegia o corpo, avançava quando via brecha, recuava sem vergonha. Levou um golpe forte no braço. Rangeu os dentes. Continuou. Quando caiu, rolou para fora do alcance da lâmina e levantou rindo, cuspindo poeira. — De novo. — disse. Ewan ergueu a mão. — Chega. O salão respirou. Ewan então fez algo que ninguém esperava. Ele mesmo entrou no círculo. Tirou o manto. Pegou uma espada de treino. — Agora — disse — quero ver quem enfrenta o Lobo. O silêncio foi absoluto. Isolde deu um passo à frente. Maeve hesitou… depois avançou. Rowena já estava em posição. Não foi uma luta longa. Ewan controlou cada movimento. Derrubou, desarmou, empurrou sem humilhar. Quando terminou, as três estavam ofegantes, sujas, vivas. Ele as observou por um longo momento. — Nenhuma de vocês será rainha porque sabe lutar. — disse enfim. — Mas todas provaram algo raro. Ele virou-se para sair. — Vocês não quebraram quando o mundo fez algo que não foi feito para vocês. Parou na porta. — E isso… — completou — é o mínimo para sobreviver ao meu lado. As três permaneceram ali, em silêncio. Porque, naquele dia, entenderam: O trono de Ewan MacAllister não exigia delicadeza. Exigia resistência.
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