O centro de treinamento voltou lentamente ao seu ritmo habitual, mas o impacto do que ocorrera ali permanecia no ar, denso como ferro aquecido.
As três mulheres foram conduzidas a aposentos separados.
Nenhuma saiu ilesa.
Nenhuma saiu igual.
Isolde de Invermor
Isolde estava sentada à beira da cama quando a criada entrou para cuidar dos arranhões em seus braços.
— Não precisa. — disse, segurando o pano ela mesma.
O silêncio do quarto era confortável para ela. Necessário.
Ela encarava as próprias mãos, ainda levemente trêmulas não de medo, mas de adrenalina tardia.
Ele não queria força, pensou.
Queria decisão.
Quando fechou os olhos, não viu a espada de Ewan vindo em sua direção.
Viu o momento em que caiu… e decidiu levantar.
— Um rei que testa mulheres como testa homens… — murmurou para si. — Governa como se o mundo fosse honesto.
Isso a assustava.
E, estranhamente, a atraía.
Isolde respirou fundo.
— Se ele me escolher… — sussurrou — não será por piedade.
E isso, para ela, era uma honra rara.
Maeve de Aros
Maeve recusou ajuda.
Lavou o rosto sozinha, diante do espelho polido de metal. O pequeno corte no ombro não era grave, mas seu orgulho ardia mais.
Ela apertou os lábios.
Ele viu através de mim.
Não era algo comum.
Sempre fora a mulher que antecipava perguntas, que conduzia conversas, que nunca se expunha sem retorno.
No círculo de treino, porém, não havia moedas nem promessas. Apenas impacto.
— Ele não quer alguém que o administre… — disse baixinho — quer alguém que suporte a própria brutalidade dele.
Maeve endireitou os ombros.
Ela não estava derrotada. Apenas recalculando.
— Um rei como esse não se dobra… — murmurou. — Mas pode ser direcionado.
E aquele pensamento a manteve firme.
Se ele não a escolhesse, ainda assim aprendera algo valioso:
O Lobo não respeita jogos longos demais.
Rowena de Glenarraidh
Rowena riu assim que a porta se fechou atrás dela.
Um riso curto, rouco.
— Louco. — disse, jogando-se em uma cadeira.
Seu braço doía. O corpo inteiro reclamava.
Mas ela estava viva de um jeito diferente.
Ele luta como governa.
Sem floreios. Sem desculpas. Sem pedir permissão.
Rowena apoiou os cotovelos nos joelhos.
— Não me poupou. — murmurou. — Nem tentou.
Aquilo significava respeito.
Ela tocou o lugar onde caíra, lembrando do olhar dele atento, sem crueldade, sem indulgência.
— Se eu for rainha… — disse em voz baixa — não serei sombra.
Ela não planejava mudar Ewan.
Planejava andar ao lado.
E, se não fosse escolhida, ainda assim sairia dali sabendo que enfrentara o Lobo… e permanecera de pé.
Enquanto isso, Ewan estava sozinho na antiga sala de armas.
Limpava a lâmina de treino em silêncio.
Cada reação fora observada. Cada olhar anotado na mente.
Isolde — firme.
Maeve — afiada.
Rowena — indomável.
Ele apoiou a espada na parede.
— Não preciso de uma rainha perfeita… — murmurou. — Preciso de alguém que não me tema quando eu me torno o que sou.
Do lado de fora, o castelo seguia vivo.
Dentro dele, uma decisão começava a se formar.
E, pela primeira vez desde que aceitara a coroa, essa escolha não envolvia exércitos.
Mas ainda assim…
era uma batalha.
O conselho reuniu-se ao cair da tarde.
Os homens mais velhos do reino ocupavam seus lugares com expressões tensas. O murmúrio cessou quando Ewan MacAllister entrou e tomou o trono sem cerimônia.
Não havia espada em sua mão.
Mas ninguém esqueceu que ela existia.
— Majestade — começou Seumas, com a voz contida — o teste aplicado às candidatas foi… impróprio.
— Desnecessário. — acrescentou Duncan. — Mulheres não são treinadas para—
— Para sobreviver? — interrompeu Ewan, sem elevar o tom.
O conselho se agitou.
— Isso expôs o reino ao ridículo — insistiu outro conselheiro. — Se os outros reinos souberem—
— Eles já sabem. — disse Ewan. — E agora sabem mais uma coisa.
Silêncio.
— Sabem que não escolho rainhas para parecer gentil.
Ele apoiou o antebraço no braço do trono.
— Continuem.
Seumas respirou fundo.
— O povo pode interpretar como brutalidade. Como desprezo.
Ewan inclinou a cabeça, pensativo.
— O povo viu o baile. — respondeu. — Viu quem falou com eles. Quem dançou. Quem se misturou sem medo.
— Ainda assim, um teste de combate—
— Não foi um teste de força. — cortou Ewan. — Foi um teste de caráter e inteligência.
O conselho se calou.
Houve um momento longo.
Todos sabiam que aquela reunião não era para debate real.
Era para o anúncio.
— Majestade… — disse Duncan com cuidado — o reino aguarda sua decisão.
Ewan levantou-se.
Caminhou lentamente até a mesa do conselho. Colocou a mão sobre ela.
— Eu não preciso de uma rainha que acalme nobres em banquetes.
— Preciso de alguém que permaneça quando decisões impopulares forem tomadas.Alguém que não se curve ao medo… nem ao conforto.—Ele ergueu o olhar.
— Minha escolha está feita.
O silêncio tornou-se absoluto.
— Rowena de Glenarraidh.
Alguns conselheiros arregalaram os olhos. Outros fecharam o semblante.
— Ela não é princesa, é apenas uma nobre.— disse alguém, incrédulo.
— Nem eu me tornei rei por cerimônia.
— Ela não traz alianças externas.
— Traz estabilidade interna. — respondeu Ewan. — E respeito entre os que seguram este reino quando tudo ameaça ruir.
Seumas hesitou.
— O povo… aceitará?
Ewan respondeu sem hesitar:
— O povo já a aceitou.A decisão está tomada. — disse Ewan. — Preparem o anúncio. Não haverá novo conselho sobre isso.
Ele virou-se para sair.
— Majestade… — chamou Duncan, ainda tentando.
Ewan parou na porta.
— Não escolhi Rowena apesar de quem ela é. — disse, sem olhar para trás. — Escolhi por causa disso.
Saiu.
O conselho permaneceu em silêncio.
Porque, mais uma vez, o Lobo decidira sozinho.
E, como sempre, ninguém encontrou argumentos suficientes para contestar alguém que enxergava o reino não como um trono…
mas como um campo que precisava ser mantido de pé, custasse o que custasse