A sala do trono estava vazia quando Ewan MacAllister deu a ordem.
— Tragam Rowena de Glenarraidh.
A voz ecoou entre as colunas de pedra como uma sentença já escrita.
Ele permaneceu de pé diante do trono, não sentado. A coroa repousava sobre a mesa lateral, símbolo, não escudo. O grande estandarte do lobo pendia atrás dele, imóvel.
Minutos depois, os passos anunciaram a chegada dela.
Rowena entrou sozinha.
Sem escolta próxima.
Sem joias excessivas.
Vestia lã escura, corte simples, postura reta.
Ewan observou tudo.
Quando as portas se fecharam, o silêncio se tornou absoluto.
— Ajoelhe-se apenas se quiser. — disse ele.
Rowena sustentou o olhar.
— Prefiro ouvir primeiro.
Um leve aceno de aprovação cruzou o rosto dele quase imperceptível.
— Muito bem.
Ewan avançou alguns passos.
— Foste trazida aqui porque fiz minha escolha.
Ela não respirou mais fundo. Não sorriu. Apenas esperou.
— Tu serás minha rainha.
A frase caiu como aço sobre pedra.
Rowena manteve a compostura, mas seus dedos se fecharam lentamente.
— Não te chamei aqui para ilusões. — continuou Ewan. — Nem para promessas vazias.
Ele parou diante dela, a uma distância justa.
— Não te escolhi por amor.
— Nem por paixão.
— Muito menos por esperança de ternura.
Rowena ergueu o queixo.
— Porque essas coisas… — ele disse — são contos. Criados para distrair tolos enquanto reinos caem.
Ela sustentou o olhar, sem ofensa.
— Te escolhi — continuou Ewan — porque, quando foste posta diante do perigo, não pediste abrigo.
— Porque caíste… e levantaste.
— Porque não tentaste me agradar.
Ele fez uma pausa curta.
— Te escolhi por inteligência, quando percebeu o que o teste realmente era.
— Por força, quando teu corpo respondeu antes do medo.
— E por cautela, quando não confundiu coragem com imprudência.
Ewan endireitou-se.
— Tudo o que uma rainha deve ser… aos meus olhos.
O silêncio se alongou.
Rowena respirou fundo.
— Então não esperas que eu te ame. — disse ela.
— Não, e nem você deve esperar isso de mim. — respondeu ele de imediato.
— Nem que eu te admire cegamente.
— Prefiro que me confronte quando necessário.
Ela assentiu lentamente.
— E o que esperas de mim… como tua rainha?
Ewan respondeu sem hesitar:
— Que fique.Que resista.Que não suavize decisões que precisam ser duras… nem endureças quando o povo precisa de chão firme.
Rowena deu um passo à frente.
— Não serei ornamento. — disse. — Nem escudo político descartável.
— Não te escolhi para isso.
Ela o encarou por longos segundos.
Então, finalmente, ajoelhou-se não por submissão, mas por escolha.
— Se esse é o teu reino… — disse — então eu aceito caminhar nele contigo. Não atrás. Nem acima.
Ewan estendeu a mão.
— Ao meu lado.
Rowena segurou.
Não havia calor.
Não havia promessa de romance.
Mas havia algo mais raro.
Aliança verdadeira.
E, naquele momento, o Lobo das Terras Altas encontrou alguém que não tentou domá-lo…
apenas marchar junto.
As portas da sala do trono se fecharam atrás de Rowena de Glenarraidh com um som grave, definitivo.
Por alguns segundos, ela permaneceu parada no corredor de pedra.
Então, o ar que estava preso em seus pulmões finalmente escapou.
Não foi um suspiro fraco, foi profundo, controlado, como o de alguém que acaba de atravessar um campo minado sem explodir.
Rowena apoiou a mão na parede fria.
Não por fraqueza.
Por consciência do peso.
Rainha, repetiu em silêncio.
Não como conto.
Não como sonho.
Como cargo.
Ela fechou os olhos por um instante e a imagem voltou inteira: o olhar de Ewan, direto, sem promessas doces; as palavras escolhidas como lâminas; a ausência completa de ilusão.
E, ainda assim…
Ela sentira algo raro.
Respeito.
— Ele não me quer dócil… — murmurou. — Quer-me inteira.
Endireitou-se.
No fundo do corredor, dois guardas a observavam com curiosidade aberta. Criados cochichavam. A notícia já se espalhava, veloz como fogo em palha seca.
Rowena percebeu os olhares.
Alguns avaliavam.
Outros desconfiavam.
Poucos sorriam.
Ela caminhou.
Cada passo ecoava com um ritmo novo, mais pesado do que antes. Não havia coroa em sua cabeça, mas já havia expectativa sobre seus ombros.
Eles vão me testar, pensou.
Todos eles.
Nobres. Conselheiros. Outros reinos.
E talvez o próprio rei.
Ela sorriu de lado, um sorriso curto, quase imperceptível.
— Que tentem.
Ao alcançar a galeria aberta, o vento das Terras Altas bateu contra seu rosto, trazendo o cheiro de grama, fumaça e ferro distante.
Rowena respirou fundo.
Não havia sido escolhida por beleza.
Nem por linhagem.
Nem por promessa de paz fácil.
Havia sido escolhida porque não recuara.
E isso significava que, dali em diante, não poderia fraquejar.
— Não vou decepcionar o Lobo… — disse para o vento. — Nem me perder tentando agradá-lo.
Ela não sabia se, um dia, haveria afeto entre eles.
Mas sabia algo mais importante:
Ewan MacAllister não caminharia sozinho.
E, enquanto descia os degraus do castelo, sob olhares atentos e sussurros crescentes, Rowena não sentiu medo do que vinha.
Sentiu-se… preparada.
Como quem não entra em um trono para ser protegida
mas para sustentá-lo.