O anúncio não foi feito em segredo.
Ewan MacAllister ordenou que fosse feito em voz alta, em papel e em presença.
Mensageiros partiram para cada vila, cada clã, cada fortaleza menor. As cartas levavam o selo do lobo e poucas palavras, diretas como o próprio rei:
O rei convoca seu povo.
Compareçam ao baile real.
Conheçam a mulher que caminhará ao meu lado.
Não havia pedido.
Havia convocação.
E o reino respondeu.
O grande salão do castelo nunca estivera tão cheio.
Tecidos pendiam das vigas, tochas iluminavam as paredes de pedra, e o som de vozes misturava-se à música dos alaúdes. Nobres e camponeses dividiam o mesmo espaço ,algo raro, mas intencional.
Ewan estava no trono.
Imóvel. Observador.
Esperou.
No exato momento em que a música mudou de tom, as portas se abriram.
O salão silenciou.
Rowena
Ela entrou no meio da festa, como ordenara o protocolo… e como Ewan desejara.
Rowena vestia trajes reais, tecidos caros que refletiam a luz com sobriedade: verde profundo e prata, sem excessos, sem delicadeza frágil. O corte era firme, estruturado, digno de alguém que pisaria em campos de decisão.
Nenhuma joia chamava mais atenção que sua postura.
Ela caminhou com calma.
Cada passo medido.
Ao alcançar o centro do salão, fez uma reverência perfeita profunda o bastante para respeitar o trono, não para se diminuir diante dele.
Ewan levantou-se.
Não disse nada.
O simples gesto bastou.
O reino entendeu.
Rowena ergueu o olhar e percorreu o salão com atenção cautelosa. Observava como quem avalia terreno: quem sorri por lealdade, quem por interesse, quem observa em silêncio.
Ela não desviou.
Quando o rei desceu do trono, o salão prendeu a respiração.
Ewan ofereceu a mão.
Rowena aceitou sem hesitar.
A dança oficial começou lenta, solene.
Ela não se deixou conduzir como ornamento. Acompanhava o ritmo com firmeza, os movimentos seguros, o olhar sereno. Não havia submissão em seus gestos, nem desafio.
Havia equilíbrio.
O Lobo e sua escolhida.
Quando a música cessou, não houve aplausos imediatos.
Houve silêncio respeitoso.
Então, Rowena fez algo que muitos não esperavam.
Soltou a mão de Ewan e virou-se para o salão.
Uma nova reverência.
Não ao trono.
Ao povo.
— Ajoelho-me diante deste reino não por dever… — disse, com voz clara — mas por respeito.
Ela caminhou.
Cumprimentou nobres com cortesia medida. Curvou-se diante de líderes de clã. E, por fim, fez algo que correu o salão como um sussurro elétrico:
Inclinou-se diante dos camponeses mais próximos.
— Enquanto eu for rainha — disse — nenhum respeito será de mão única.
O salão explodiu.
Não em gritos descontrolados, mas em aprovação firme, profunda.
Ewan observava.
Não com surpresa.
Com confirmação.
Quando Rowena voltou ao seu lado, ele falou baixo, apenas para ela:
— Não te pedi isso.
— Eu sei. — respondeu. — Fiz porque era necessário.
Um canto quase imperceptível surgiu nos lábios dele.
O reino via ali não um conto romântico…
mas algo talvez mais perigoso:
Uma rainha que não pedia lugar.
Um rei que não precisava concedê-lo.
E, naquela noite, sob música, luz e olhares atentos, ficou claro para todos os reinos que observavam à distância:
O Lobo não reinava mais sozinho.
Por um instante, ninguém soube exatamente como reagir.
Então o salão reagiu inteiro.
Os primeiros a se mover foram os camponeses.
Homens e mulheres que raramente cruzavam o olhar direto de um rei agora murmuravam entre si, os rostos acesos de algo raro: reconhecimento.
— Ela se curvou… — sussurrou uma mulher idosa, apertando o xale.
— Não vi falsidade — respondeu outra. — Vi... respeito.
Um jovem aprendiz, olhos brilhando, disse baixo:
— Ela não falou como rainha… falou como alguém que vai ficar.
Os murmúrios cresceram, viraram assentimentos, depois palmas firmes, honestas, sem exagero.
O povo aceitava.
Perto das colunas, homens marcados por cicatrizes observavam em silêncio.
Veteranos.
Capitães.
Aqueles que haviam seguido Ewan em batalhas onde ninguém mais ousaria.
Um deles cruzou os braços.
— Ela não recuou. — disse.
— Nem tremia. — respondeu outro.
— Nem tentou agradar.
Um terceiro assentiu lentamente.
— Ela entende o Lobo.
Para eles, isso bastava.
Não aplaudiram alto.
Inclinaram a cabeça.
Ewan viu.
E gravou.
Entre os nobres, a reação foi… dividida.
Alguns sorriram, rápidos em calcular vantagens.
— Inteligente. — murmurou uma dama, observando o salão. — O povo gosta dela.
Outros cerraram os lábios.
— Uma mulher sem sangue real… — disse um lorde, incomodado. — Curvando-se a camponeses?
— Justamente por isso. — respondeu outro, mais atento. — Ela não veio para jogar o nosso jogo.
Ali nasceu algo perigoso:
Cautela.
E medo.
Representantes de clãs das Terras Altas trocavam olhares longos.
Um velho chefe bateu o cajado no chão uma única vez.
— Ela não se colocou acima da terra. — disse. — Colocou-se dentro dela.
Outro murmurou:
— O Lobo escolheu bem.
A aprovação dos clãs não vinha com aplausos.
Vinha com silêncio respeitoso.
Quando a música recomeçou, não era a mesma.
Algo havia mudado.
As pessoas dançavam, mas observavam. Falavam, mas mediam palavras. Não era mais apenas um baile era um marco.
Histórias começaram a nascer ali, sendo sussurradas antes mesmo de ganharem forma:
A rainha que se curvou ao povo.
A mulher que não sorriu para agradar.
A escolhida do Lobo.
Ewan permaneceu ao lado de Rowena.
Não a tocou novamente.
Não precisou.
Ela já estava onde devia estar.
E, enquanto o salão vibrava com aprovação, cálculo e expectativa, uma certeza se espalhava como fogo lento:
O reinado de Ewan MacAllister havia entrado em uma nova era.
Não mais suavizada.
Mas mais perigosa.
Porque agora, o Lobo tinha ao seu lado alguém que compreendia o peso do silêncio…
e sabia exatamente quando quebrá-lo.