A primeira crise do reinado de Ewan MacAllister não veio com estandartes inimigos.
Veio com fome.
O degelo tardio destruíra colheitas no leste. Vilas inteiras migravam para as cidades muradas. Comerciantes inflavam preços. Pequenos lordes começaram a disputar grãos como se fossem territórios.
Nada disso era guerra.
Era caos interno.
Ewan convocou o conselho ao amanhecer.
Mapas agora dividiam espaço com relatórios de fome, rotas comerciais e rumores de revolta.
— Se isso continuar — disse Duncan — teremos levantes antes do próximo inverno.
— Tropas não resolvem fome — acrescentou Seumas. — E se resolverem, será da pior forma.
Ewan escutava sem interromper.
— Os reinos vizinhos observam — continuou o chanceler. — Um rei recém-coroado… sem rainha… sem herdeiro… transmite instabilidade.
Ewan ergueu o olhar.
— Cheguem ao ponto.
Houve um breve constrangimento.
Seumas respirou fundo.
— O povo precisa ver mais do que um guerreiro no trono. Precisa ver… humanidade.
— Humanidade não enche celeiros.
— Mas acalma multidões.
Duncan cruzou os braços.
— Um rei comprometido é visto como alguém que tem algo a perder além da própria glória.
Ewan ficou em silêncio por alguns segundos.
— Estão sugerindo que eu resolva fome… com casamento.
— Não apenas isso — disse o chanceler. — Uma rainha une casas. Abre rotas. Aplaca rumores. Mostra que o rei pensa no futuro.
Ewan inclinou-se sobre a mesa.
— Estão dizendo que eu preciso parecer bom.
— Precisamos que o povo acredite que há algo bom em você — respondeu Seumas com honestidade dura.
O silêncio caiu como lâmina.
Ewan endireitou-se.
— Eu garanti fronteiras.Eu reduzi guerras, eu trouxe estabilidade externa.
Ele olhou um por um.
— Agora vocês me pedem um símbolo.
— Pedimos um contrapeso — corrigiu Duncan. — Para o medo.
Ewan assentiu lentamente.
— O medo mantém a ordem.
— Mas não mantém lealdade — rebateu o chanceler.
Ewan virou-se para a janela, observando o pátio.
— Querem uma rainha para que o povo acredite que eu posso amar. — disse, sem emoção. — Como se isso garantisse misericórdia.
Ele voltou-se para o conselho.
— Não escolherei esposa para ser amado.Escolherei, se escolher, para garantir o reino.
Seumas engoliu seco.
— Então… você aceita considerar?
Ewan pensou.
Não por dúvida.
Por estratégia.
— Tragam-me nomes. — disse enfim. — Casas fortes. Reinos úteis. Mulheres educadas para governar, não para enfeitar tronos.
O conselho respirou aliviado.
— Mas saibam disto — completou ele, a voz baixa e firme. — Nenhuma delas mudará quem eu sou.Quem se sentar ao meu lado deve suportar o que eu faço e principalmente o que sou.
O alívio virou silêncio respeitoso.
Mais tarde, Ewan permaneceu sozinho na sala do trono.
A cadeira de pedra parecia maior agora.
— Um homem comprometido é visto como bom… — murmurou.
Ele tocou o braço do trono.
— Bom não venceu minhas guerras.
Mas sabia: símbolos movem povos tanto quanto exércitos.
E se uma rainha fosse necessária para conter o caos…
ele a teria.
Não por esperança.
Por necessidade.
E, enquanto os primeiros nomes começavam a circular entre os conselheiros, uma nova batalha se aproximava.
Não nos campos.
Mas dentro das muralhas…
e talvez, pela primeira vez, dentro dele.