XIII

1093 Words
Meses se passaram desde o Inverno Vermelho, mas o castelo dos MacAllister permanecia envolto em um silêncio estranho não o silêncio da paz, e sim o da espera. O rei Alasdair MacAllister estava à beira do leito. O inverno o consumira mais do que qualquer inimigo externo. Seu corpo, antes forte, agora m*l sustentava o peso da própria respiração. Curandeiros iam e vinham, sussurrando palavras que evitavam ser definitivas. Ewan sabia o que aquilo significava. Não por medo. Por cálculo. O reino não podia esperar. A chama da lareira tremulava quando Ewan entrou. Não usava armadura. Apenas o manto escuro, simples, sem insígnias. Alasdair abriu os olhos com esforço. — Você voltou inteiro — murmurou. — Suficiente. O rei sorriu de leve, cansado. — Ainda fala como comandante. Ewan permaneceu de pé. — O reino ainda precisa de um. O silêncio se estendeu. Alasdair respirou fundo, reunindo forças. — Eu falhei em uma coisa… — disse. — Tentei prepará-lo para ser rei quando você nasceu… mas o mundo o moldou como arma. Ewan não respondeu. — E agora — continuou o rei — essa arma é necessária aqui. — Ele fechou a mão trêmula. — Você não pode adiar mais. Ewan caminhou até a cama. — A guerra cessou. — Temporariamente. — As fronteiras estão estáveis. — Por causa de você. — Alasdair encarou o filho. — E é por isso que você deve sentar-se no trono. Não como promessa… mas como fato. Ewan inclinou levemente a cabeça. — Se eu aceitar, não governarei como você. O rei assentiu. — Eu sei. — Não serei amado. — Não precisa ser. — Usarei o medo quando for necessário. — Já usa. Ewan ergueu o olhar. — O reino sobreviverá. — disse. — Mesmo que eu precise sacrificar a imagem de rei justo. Alasdair fechou os olhos por um momento. — Então aceite seu lugar. — disse, quase num sussurro. — Não como meu filho… mas como aquilo que você se tornou. Houve uma pausa. Não de dúvida. De encerramento. — Aceito. — respondeu Ewan. — Porque o reino não pode ficar vulnerável. Nem por luto. Nem por tradição. O rei soltou um suspiro longo, aliviado… e triste. — Você fala comigo como fala com seus generais. — Porque agora é isso que você é para mim. — respondeu Ewan, sem crueldade. Apenas verdade. — Um rei que precisa garantir a sucessão. Os olhos de Alasdair se encheram de algo que não era mágoa. Era compreensão. — Então vá. — disse. — E sente-se no trono que eu mantive até você estar pronto. Ewan inclinou-se profundamente. Não em reverência emocional. Mas em reconhecimento. A cerimônia foi simples. Sem festa. Sem canções longas. Quando a coroa tocou sua cabeça, Ewan não fechou os olhos. Não sorriu. Não ergueu os braços. Apenas olhou adiante. Frio. Presente. Inabalável. O povo ajoelhou-se. Os nobres também. Não por devoção. Por certeza. Naquela noite, Ewan retornou sozinho à torre onde costumava pensar antes das batalhas. Agora, o mapa não estava mais na mesa. Estava o reino inteiro sob sua responsabilidade. Ele passou os dedos pela coroa, pousada ao lado da espada. — Rei ou Lobo… — murmurou. — Pouco importa. O vento soprou forte do norte. Ewan ergueu o olhar. — Enquanto o reino viver, eu farei o que for preciso. E o trono, silencioso, aceitou seu rei. A notícia não foi anunciada com trombetas além das Terras Altas. Ela escapou. Como fumaça sob portas fechadas. Como um sussurro que vira certeza. Ewan MacAllister foi coroado rei. E, em poucos dias, nenhum reino da região fingia ignorância. Caerwyn No salão de Caerwyn, o rei Edric III ouviu a notícia em silêncio. Mais velho. Mais cauteloso. Ainda carregando a lembrança da lâmina que não caiu. — Então ele aceitou… — murmurou. O chanceler arriscou: — Isso pode significar estabilidade. Um rei tende a— Edric ergueu a mão. — Não. — disse. — Um rei comum se senta. Ewan MacAllister observa. Ele levantou-se com esforço. — Enquanto ele era príncipe, lutava por território. Agora, lutará por legado. Edric caminhou até a janela. — E isso é mais perigoso. Ordens foram dadas naquela mesma noite: fronteiras reforçadas, alianças reavaliadas, generais substituídos. Caerwyn não celebraria aquela coroação. Preparar-se-ia. Strathclyde O rei Malcolm recebeu a notícia com um sorriso lento. — Era inevitável. — Devemos enviar felicitações? — perguntou um conselheiro. Malcolm pensou por um instante. — Sim. — respondeu. — Curtas. Respeitosas. Sem pedidos. Ele apoiou os dedos na mesa. — Um homem que vence guerras e aceita o trono por obrigação… não governa por vaidade. — Isso é bom ou r**m? — Depende do lado da fronteira. Strathclyde optou pela cautela inteligente. Presentes. Mensageiros experientes. Nenhuma provocação. Os Reinos Menores Ali, o impacto foi imediato. Alguns senhores juraram lealdade antecipada, temendo que o novo rei decidisse “organizar” a região. Outros reforçaram muralhas antigas, retiraram impostos de vilas fronteiriças, reuniram milícias. — Se ele nunca perdeu uma guerra… — dizia-se — talvez agora não precise mais travá-las. Mas ninguém acreditava de verdade nisso. As Cortes Distantes Mais ao sul, em reinos que nunca haviam enfrentado Ewan diretamente, a reação foi quase acadêmica. — Um guerreiro no trono costuma buscar paz… — Ou expandir fronteiras para justificar o próprio poder. Diplomatas foram enviados. Espiões também. Todos queriam entender que tipo de rei o Lobo seria. Entre o povo, a reação foi diferente. Não houve medo imediato. Houve cautela. — Agora ninguém ousa nos atacar... — Se atacarem… ele estará lá. As crianças passaram a brincar de “Rei Lobo”, erguendo galhos como espadas. Os bardos ajustaram canções antigas, trocando príncipe por rei. As moças ainda o chamavam de Príncipe de Gelo por hábito, por encanto, por algo que nem sabiam explicar. Mas agora, acrescentavam: — Nosso rei. Sem tratado algum, formou-se um consenso silencioso entre os reinos: Enquanto Ewan MacAllister governar, a guerra será rápida, calculada… ou evitada a qualquer custo. Ele não precisava enviar mensagens. Sua coroação foi o aviso. Ewan leu todos os relatórios. Guardou-os. Não respondeu a metade das cartas. À noite, permaneceu na mesma torre de sempre, olhando as terras sob seu domínio. Coroado, sim. Mas ainda o mesmo homem. — Eles me observam. — murmurou. O vento soprou. Ewan virou-se para a mesa onde estavam a coroa e a espada. — Que observem. Porque agora, o mundo não encarava mais um herdeiro ou um comandante. Encarava um rei que conhecia a guerra melhor do que qualquer um… e que só a usaria quando ninguém pudesse impedi-lo.
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