XII

505 Words
O norte não anunciou a guerra. Ele fechou-se. Quando Ewan cruzou o Passo de Caer Dùn, encontrou vilas vazias, campos queimados, pontes destruídas. Nenhum estandarte inimigo. Nenhum desafio direto. Era uma armadilha de paciência. — Ele quer nos cansar — disse um capitão. Ewan observava a neve manchada de cinzas. — Não. — respondeu. — Ele quer que eu avance mesmo assim. E avançou. A Primeira Semana Nevascas engoliram colunas inteiras. Homens perderam dedos. Cavalos caíram. A comida congelou antes de acabar. Ewan marchava à frente. Não com discursos. Com presença. Dormia pouco. Comia menos. Cavalgava quando os outros m*l conseguiam ficar de pé. — O Lobo não cansa — murmuravam. Mas até lobos sangram. Na segunda semana, começaram os ataques noturnos. Nunca em massa. Nunca iguais. Flechas de longe. Facas na escuridão. Gritos para desorientar. Um acampamento inteiro foi incendiado antes do alarme. Quando os homens pediram para recuar, Ewan recusou. — Se recuarmos agora, eles nos perseguirão. — Se ficarmos, eles terão que nos enfrentar. Ele espalhou as tropas, quebrou formações, inverteu a lógica da defesa. — Caçadores não cercam o Lobo. — disse. — O Lobo entra na mata. Na terceira semana, o inimigo finalmente apareceu. No vale de Fionnlagh, sob um céu cinza e baixo. Três frentes. Terreno traiçoeiro. Superioridade numérica inimiga. Era ali que esperavam quebrá-lo. Ewan desmontou do cavalo. Os homens se entreolharam. Ele caminhou até a frente, espada desembainhada, o manto verde escuro manchado de gelo. — Não avancem por mim. — disse. — Avancem comigo. O choque foi brutal. Não houve canto de guerra. Não houve glória. A neve tornou-se lama. A lama tornou-se sangue. Ewan lutava como se o campo inteiro fosse uma extensão de seu corpo. Antecipava movimentos. Mudava de direção no meio do caos. Salvava homens sem perceber. Um golpe atravessou sua coxa. Ele não caiu. Arrancou a lâmina, continuou. Quando um estandarte inimigo caiu, ele não gritou vitória. Avançou. No auge da batalha, chegaram notícias: O flanco esquerdo estava cedendo. Cem homens isolados. Sem chance de recuo. Salvar o flanco significava perder o centro. Manter o centro significava abandoná-los. O silêncio caiu sobre ele por um segundo. Um segundo que pesou mais que qualquer lâmina. — Fechem o centro. — ordenou. O capitão engoliu seco. — E os cem? Ewan fechou os olhos por um breve instante. — Eles seguram até o fim. A ordem foi dada. A batalha foi vencida. Os cem não voltaram. O vale de Fionnlagh ficou conhecido como o Inverno Vermelho. Vitória total. Perdas jamais vistas. Ewan permaneceu ajoelhado na neve após o fim, a espada cravada no chão, o sangue escorrendo pela perna. Os homens não comemoraram. Apenas ficaram em silêncio ao redor dele. Pela primeira vez, ninguém o chamou de invencível. Naquela noite, enquanto tratavam seus ferimentos, um jovem soldado perguntou, com voz baixa: — Valeu a pena, meu senhor? Ewan demorou a responder. — Pergunte aos que voltarão para casa. E virou o rosto. Porque aquela guerra foi vencida. Mas algo dentro dele… não saiu ileso.
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