Cinco anos depois
O inverno voltara às Terras Altas, mas ninguém mais o temia como antes.
Aos vinte e quatro anos, Ewan MacAllister tornara-se algo maior do que herdeiro, maior até do que comandante. Seu nome já não precisava de títulos bastava ser pronunciado.
Durante cinco anos, nenhuma guerra perdida.
Nenhuma campanha m*l calculada.
Nenhum inimigo subestimado duas vezes.
As batalhas mudaram de forma. Algumas nem chegaram a acontecer. Muitas terminaram antes do primeiro choque de lâminas, quando os adversários percebiam quem estava do outro lado do campo.
“É Ewan.”
“Então recuem.”
Nas vilas, o povo falava dele com respeito quase religioso.
— Ele não grita, mas o chão obedece.
— Ele não promete paz… ele a impõe.
As mulheres o observavam à distância quando ele passava montado em seu cavalo branco por ruas estreitas, o manto escuro balançando ao vento, o rosto sereno e fechado.
— Príncipe de Gelo — sussurravam, com um misto de admiração e temor.
— Os olhos dele parecem ver através da alma…
Nenhuma se aproximava demais.
Nenhuma ousava.
Não por desprezo.
Por reverência.
Para os soldados, ele era outra coisa.
No acampamento, longe de ouvidos civis, o nome mudava.
— O Lobo.
— Ele sente a batalha antes de ela nascer.
— Quando ele caminha à frente, a morte escolhe o outro lado.
Homens que lutaram sob dezenas de comandantes seguiam Ewan sem questionar. Não porque ele exigia lealdade mas porque ele jamais desperdiçava vidas.
— O Lobo nos traz de volta para casa — diziam.
E isso, para um guerreiro, era tudo.
Ewan permanecia o mesmo… e ao mesmo tempo, não.
Seu corpo carregava marcas discretas: cicatrizes nos braços, no ombro, uma linha pálida próxima às costelas. Cada uma lembrança de decisões tomadas sem hesitação.
Seu olhar, antes apenas atento, agora era impenetrável. Ele falava pouco. Sorria menos ainda. Quando sorria, era raro e breve quase esquecido logo depois.
No conselho, ninguém o interrompia mais.
No campo de batalha, ninguém o perdia de vista.
O rei Alasdair observava o filho com orgulho silencioso… e uma sombra de melancolia.
Certa noite, disse-lhe:
— Você se tornou aquilo que os homens temem perder.
Ewan respondeu sem emoção:
— Então não os deixarei perder.
O rei compreendeu ali que o trono não era mais uma promessa futura.
Era uma formalidade aguardando o momento certo.
Bardos agora cantavam sobre um homem que nunca recuava, nunca pedia, nunca implorava.
As canções não falavam de amor.
Falavam de vitórias limpas.
De invernos curtos.
De fronteiras intactas.
Ewan não as escutava.
Preferia o silêncio das torres altas, o som distante do vento, o peso constante da responsabilidade.
Porque ele sabia:
Ser temido mantém a paz.
Ser admirado mantém o povo unido.
Mas ser o Lobo… o Lobo caminha sozinho.
E, aos vinte e quatro anos, Ewan MacAllister era tudo isso.
Príncipe de Gelo para quem o observava de longe.
Lobo para quem marchava ao seu lado.
E o mundo aprendia, pouco a pouco, a não desafiá-lo.
O anúncio chegou ao castelo ao amanhecer, trazido por três mensageiros diferentes sinal claro de que não era um pedido, mas um ultimato.
O rei Alasdair estava doente.
Não morto.
Não incapaz.
Mas fraco o suficiente para que os reinos vizinhos farejassem a oportunidade.
E, como abutres bem-vestidos, chegaram também as cartas.
Selos quebrados, um após o outro, sobre a grande mesa do conselho.
— Reconhecimento imediato de Ewan MacAllister como rei, — leu o chanceler, — em troca de uma trégua geral por cinco anos.
Seumas franziu o cenho.
— Eles querem a coroação agora.
Duncan completou:
— E querem você no trono… preso a ele.
Ewan permanecia em pé, mãos apoiadas na mesa, os olhos fixos nos mapas. Não demonstrou surpresa.
— Enquanto isso — continuou o chanceler — Caerwyn está mobilizando tropas no norte. Strathclyde reforça fronteiras. Se você assumir o trono, exigirão que permaneça em Stonehall. Sem campanhas. Sem liderança direta.
Silêncio.
O peso da escolha caiu sobre a sala.
Rei… ou comandante.
Coroa… ou campo de batalha.
O rei Alasdair, pálido, observava o filho. Não disse nada. Sabia que qualquer palavra seria inútil.
Ewan endireitou-se.
— Então eles querem que eu seja rei… para que eu pare de ser uma ameaça.
Ninguém respondeu.
Ele percorreu a mesa com o olhar.
— A guerra não cessará porque me sentarei em uma cadeira. — disse calmamente. — Ela cessará quando os inimigos entenderem que eu ainda marcho.
Seumas respirou fundo.
— Se você for à guerra agora, recusando a coroação, eles dirão que você despreza o trono.
— Eu desprezo o momento.
— O povo pode interpretar como abandono.
Ewan virou-se, os olhos frios, atentos.
— O povo me segue porque eu os protejo. Não porque uso uma coroa.
Duncan tentou a última cartada:
— Se algo acontecer com o rei enquanto você estiver fora—
— Nada acontecerá. — cortou Ewan. — Porque todos saberão que, se o rei cair, eu volto com guerra total.
A firmeza não era ameaça.
Era constatação.
O conselho silenciou.
Não por medo.
Por reconhecimento.
Ewan retirou da mesa a coroa de cerimônia simples, de prata escura e a colocou cuidadosamente sobre o mapa, exatamente na fronteira entre os reinos.
— A coroa ficará aqui. — disse. — Marcando o que defendemos.
Ele pegou o manto de guerra.
— Eu marcho ao norte antes que Caerwyn termine de reunir seus homens.
O rei Alasdair finalmente falou, a voz fraca, mas firme:
— Você escolheu.
Ewan ajoelhou-se diante dele. Não como súdito. Como filho.
— Escolhi o que sempre fui.
Levantou-se e saiu sem olhar para trás.
Depois
Quando as portas se fecharam, o conselho permaneceu em silêncio por longos minutos.
— Ele não fugiu do trono… — murmurou Seumas. — Ele o adiou.
Duncan assentiu, pensativo.
— E quando ele o aceitar… ninguém ousará questioná-lo.
No Pátio
Os homens já estavam prontos.
Quando Ewan surgiu, montado em seu cavalo branco, não houve gritos nem aplausos.
Apenas o som sincronizado de punhos batendo nos p****s.
O Lobo havia escolhido.
E enquanto marchava rumo à guerra, deixando a coroa para trás, uma verdade tornava-se clara para todos os reinos:
Ewan MacAllister não precisava do trono para governar.
O trono é que precisava sobreviver a ele