A retirada de Caerwyn foi rápida, quase desordenada. O exército que marchara como império voltava como um corpo ferido, levando consigo um rei vivo e algo muito mais pesado: humilhação.
E isso mudou tudo.
Em Caerwyn
Edric III retornou mancando, a coxa envolta em faixas ensanguentadas. O povo ajoelhou-se à sua passagem, mas o silêncio era espesso demais para ser reverência.
No salão do trono, o rei sentou-se com dificuldade.
— Ele… poupou você? — perguntou o chanceler, a voz quase incrédula.
Edric fechou os olhos por um instante.
— Sim.
— Então por que não terminou a guerra?
Edric abriu os olhos, duros.
— Porque se me matasse, faria de mim um mártir. — Ele respirou fundo. — Vivo… sou um lembrete.
A palavra correu como veneno:
Ewan MacAllister derrotou Caerwyn e
escolheu não matar.
Para alguns nobres, aquilo foi visto como fraqueza. Para outros, como cálculo frio demais para ser ignorado.
— Ele decidiu quando a guerra acabou — murmurou um lorde. — Não nós.
A autoridade de Edric não caiu de uma vez. Mas rachou.
Entre os Reinos Vizinhos
Mensageiros cruzaram fronteiras com a notícia.
No Reino de Strathclyde, o rei Malcolm ergueu as sobrancelhas.
— Ele poderia ter executado Edric… e não o fez?
— Sim, meu rei.
Malcolm sorriu lentamente.
— Então ele não luta por vingança. — Fez uma pausa. — Ele luta por controle.
Em outro reino, um conselho declarou:
— Um homem que poupa o inimigo depois de vencê-lo… não é fraco. É perigoso.
Alianças foram revistas. Fronteiras reforçadas. Propostas cuidadosamente redigidas sem exigências.
Ninguém queria ser o próximo a aprender essa lição.
Entre os MacAllister
No retorno ao castelo, Ewan foi recebido sem festa.
Os homens o saudaram com punhos no peito. Silenciosos. Sérios.
No conselho, a discussão reacendeu.
— Você venceu — disse Seumas. — E ainda assim deixou o inimigo viver. Por quê?
Ewan permaneceu de pé.
— Porque um rei morto vira bandeira. — respondeu. — Um rei vivo vira obstáculo para seus próprios homens.
— Edric pode se reagrupar.
— Não sem enfrentar dúvidas internas.
Duncan cruzou os braços.
— Você transformou a derrota dele em problema político.
Ewan assentiu.
— A guerra mais duradoura é a que continua sem exércitos.
O salão ficou em silêncio.
Mais tarde, sozinho, Ewan encarou a própria ferida sendo tratada. Não demonstrou dor.
Mas sua mente não estava no vale.
Estava no momento em que escolhera não matar.
Eles pensarão que fui misericordioso.
Ele sabia que não fora.
Fora estratégico.
E isso aprofundou ainda mais a distância entre ele e os outros. Homens entendem espada e escudo. Nem todos entendem uma decisão que vence depois da batalha.
Sem enviar carta alguma, Ewan enviou uma mensagem clara:
Eu decido quando a guerra começa.
E quando termina.
E os reinos entenderam.
Alguns passaram a temê-lo mais.
Outros, a respeitá-lo como nunca.
Mas nenhum voltou a tratá-lo como apenas um príncipe.
Ele havia se tornado um poder político vivo.
E o inverno ainda não terminara.