IX

651 Words
O vale já não era aberto. Era um amontoado de corpos, escudos partidos e lama mistura a sangue. O choque inicial havia passado, e agora a batalha se transformara no que Ewan conhecia melhor: confusão controlada. Ele estava no meio dela. O cavalo Mòr avançava e recuava conforme Ewan ordenava com o peso do corpo e o toque dos joelhos. À esquerda, viu a infantaria de Caerwyn tentar fechar uma cunha. Antes que se consolidasse, Ewan ergueu a espada e gritou: — Segunda linha, três passos à frente! Flanco esquerdo, abram! As ordens foram executadas quase instantaneamente. Os homens não perguntavam mais por quê. Apenas quando. A cunha se desfez. Homens de Caerwyn tropeçaram uns nos outros. Ewan desceu sobre eles. Um golpe vertical, outro horizontal. O som do aço encontrando osso. Um inimigo tentou agarrá-lo pelo braço Ewan quebrou o nariz do homem com o pomo da espada e o empurrou para o chão, onde outro MacAllister finalizou o trabalho. Uma flecha atingiu o pescoço de Mòr. O cavalo relinchou alto, empinando. O mundo pareceu girar por um instante. Ewan rolou no chão, levantando-se num movimento fluido, a espada já erguida. — Formação ao meu redor! — gritou. Os homens fecharam o círculo. Ewan não montou outro cavalo. Ficou a pé. Visível. Vulnerável. Irredutível. Do outro lado, Edric viu a queda do cavalo. — Agora! — gritou. — Cavalaria, esmaguem o centro! O chão tremeu com o avanço dos cavaleiros pesados. Lanças baixas, velocidade brutal. Duncan correu até Ewan. — Precisamos recuar! Ewan sacudiu a cabeça. — Não. — Seus olhos estavam frios, focados. — Agora eles se comprometem. Ele ergueu o braço. Um segundo chifre soou curto, grave. Do nada, o solo à frente da carga começou a ceder. Estacas ocultas rasgaram o ímpeto da cavalaria. Cavalos caíram. Homens foram lançados. Arqueiros surgiram nas elevações laterais, disparando em ângulos impossíveis. — Avancem pelos lados! — ordenou Ewan. Caerwyn começou a sangrar de verdade. No caos, Ewan avistou o estandarte do leão se movendo para trás. — Edric está recuando — murmurou. Não por medo. Por raiva. Ewan avançou, abrindo caminho, cada golpe preciso, econômico. Quando viu Edric à frente, cercado por guardas, sentiu algo raro: foco absoluto. — Comigo! — gritou, e poucos o seguiram. Não por covardia, mas porque apenas poucos conseguiam acompanhar seu ritmo. Edric percebeu tarde demais. — Você devia ter aceitado o casamento! — gritou, erguendo a espada. Ewan não respondeu. O choque entre eles foi violento. Edric golpeava com força bruta, pesada. Ewan desviava, calculava, cortava onde doía. Um golpe rasgou o ombro de Ewan. O sangue escorreu quente. Ele não recuou. Girou, desarmou um guarda, cravou a lâmina no flanco de outro. Voltou-se para Edric. — Esta guerra não é sobre sua filha — disse, entre respirações controladas. — É sobre o seu medo de não ser obedecido. Edric rugiu e avançou. Ewan deixou-o vir. No último instante, mudou o peso do corpo e fincou a espada na coxa do rei, derrubando-o do cavalo. O leão caiu. O estandarte de Caerwyn vacilou. — O REI CAIU! — alguém gritou. O pânico espalhou-se como fogo em palha seca. Ewan colocou o pé sobre o peito de Edric, a lâmina encostada em sua garganta. O campo parecia prender a respiração. Ewan olhou ao redor. Seus homens. Os inimigos. O vale destruído. Ele não matou Edric. Recuou a lâmina. — Viva — disse baixo. — E lembre-se do custo do orgulho. Levantou-se e ergueu a espada ensanguentada. — RECUEM! — gritou para Caerwyn. Eles recuaram. O leão fugiu. Quando o silêncio finalmente caiu, Ewan estava de pé entre os mortos, o sangue escorrendo pelo braço ferido, o rosto impassível. Duncan aproximou-se, atônito. — Você venceu. Ewan olhou para o vale devastado. — Não. — Sua voz era fria. — Eu encerrei. E, naquele dia, a fama de Ewan MacAllister deixou de ser apenas lenda. Tornou-se aviso
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