A noite havia caído sobre as Terras Altas com um silêncio pesado, quase reverente. O castelo dormia, mas Ewan MacAllister não.
Ele estava sozinho na antiga torre de vigia, onde o vento atravessava as pedras como um sussurro antigo. À sua frente, o mapa das fronteiras estava aberto sobre uma mesa simples, preso por punhais nos cantos. As velas queimavam baixo, como se também temessem consumir-se rápido demais.
Ewan não tocava no mapa.
Olhava para além dele.
Lá embaixo, pequenas fogueiras marcavam os postos avançados. Cada chama era um grupo de homens que confiava nele. Cada uma era também uma vida que poderia se perder por causa de uma decisão sua.
Minha fama chegou antes de mim, pensou.
Lembrou-se de quando ainda era apenas o filho do rei, treinando no pátio, sujo de lama, ignorado pelos conselhos. Agora, seu nome fazia reis recuarem… ou avançarem por orgulho ferido.
Ele fechou os olhos por um instante.
— Recusei um casamento… e comprei uma guerra — murmurou para o vento.
Mas a verdade era mais dura.
Não fora apenas a recusa.
Fora o que ele se tornara.
Um príncipe que não negociava com medo.
Um comandante que não mascarava decisões difíceis.
Um homem que não se dobrava e, por isso, quebrava outros.
Ewan apoiou as mãos na pedra fria da muralha. Sentia o peso de cada história contada sobre ele, distorcida ou não.
Frio.
Implacável.
Genial demais para confiar.
Talvez estivessem certos.
Ele não sentia alegria na ideia da guerra que viria. Não sentia ódio por Edric. Sentia apenas a clareza incômoda de quem já via o desfecho se formando, como nuvens antes da tempestade.
— Se eu tivesse aceitado… — começou, mas não terminou a frase.
Aceitar significaria abrir mão da autonomia do próprio reino. Significaria lutar guerras que não eram suas. Significaria ensinar aos homens que Ewan MacAllister podia ser pressionado.
Ele não podia.
O preço agora era sangue.
Ewan passou a mão pelo rosto, cansado. Em sua mente, a guerra já se desenhava: rotas de suprimento cortadas, colunas quebradas, o exército de Caerwyn avançando confiante demais.
Ele venceria.
Essa certeza não trazia conforto.
Trazia isolamento.
— Todo nome forte vira alvo — sussurrou.
Pensou no pai. No conselho silenciado. Nos homens que o seguiam à distância. Pensou até na princesa que nunca conheceu, transformada em motivo de vingança.
Um leve sorriso amargo surgiu.
— Nenhum de vocês escolheu isso… — disse, para ninguém em especial. — Eu escolhi.
O vento respondeu com um uivo longo, atravessando as torres como um lamento antigo.
Ewan se endireitou.
O lobo não lamenta o inverno.
Ele se prepara.
Recolheu o mapa, apagou as velas e desceu a escada em silêncio. Amanhã, começaria a mover as peças. Não como príncipe ofendido. Não como noivo que recusou.
Mas como comandante que aceita o fardo do próprio nome.
E, enquanto dormia pouco naquela noite, uma verdade se consolidou dentro dele, dura como pedra:
Se a paz exige que eu deixe de ser quem sou,
então que a guerra venha, de novo.
O amanhecer rompeu o céu com um vermelho doentio, como se a própria terra soubesse que beberia sangue nos próximos dias.
O Vale de Ardenfall se estendia largo e aberto exatamente como Edric desejara. Um campo perfeito para exércitos grandes, para linhas ordenadas, para a ilusão de controle.
No alto das colinas ao norte, Ewan MacAllister observava.
O exército de Caerwyn já estava em formação. Um mar de escudos reluzentes, lanças alinhadas, cavalaria pesada impaciente. O leão dourado tremulava orgulhoso no centro.
Ewan montava seu cavalo branco Mòr, a armadura simples, funcional, marcada por batalhas anteriores. Nenhuma ornamentação. Nenhum símbolo além do lobo em seu manto escuro.
Duncan aproximou-se.
— Eles superam nossos números em quase o dobro.
Ewan assentiu.
— Por isso estão confiantes.
Ele puxou as rédeas e avançou, descendo a colina lentamente, visível demais. Os homens atrás dele murmuraram, tensos.
— Príncipe… — começou alguém.
Ewan ergueu a mão.
— Se eu pedir que sigam, devo ser o primeiro a ir.
Sem olhar para trás, avançou até a linha de frente.
Entre os Dois Exércitos
Do lado de Caerwyn, Edric estreitou os olhos.
— Ele veio à frente? — perguntou, incrédulo.
Rowan respondeu com cautela:
— Ele quer ser visto.
Edric riu.
— Ou quer morrer como mártir.
— Ou quer que o vejamos sem medo — murmurou Rowan.
Ewan parou a poucos metros da linha inimiga. O vento puxava seu manto, o cavalo inquieto sob ele. Ele não sacou a espada. Apenas ficou ali.
Silêncio.
Então ergueu a voz, clara, firme, carregando pelo vale.
— Rei Edric de Caerwyn!Você marchou até minhas terras por orgulho ferido. Eu marcho para defendê-las por escolha consciente.
Edric avançou com seu cavalo, armadura brilhando.
— Você recusou meu reino e minha paz — gritou de volta. — Hoje pagará por isso!
Ewan inclinou levemente a cabeça.
— Eu recusei ser possuído. — Seus olhos eram gelo. — A guerra foi sua resposta. A vitória será a minha.
O murmúrio percorreu ambos os exércitos.
Ewan virou o cavalo e retornou lentamente à sua linha, sem pressa, sem olhar para trás.
Não fugia das consequências.
As enfrentava.
Quando alcançou seus homens, Ewan sacou a espada e a ergueu.
— Eles vêm com números. — Sua voz não tremeu. — Nós viemos com terreno, tempo e propósito.
Ele olhou para cada fileira.
— Não prometo glória. Prometo que cada passo deles custará caro.
Baixou a lâmina.
— Por nossas terras. Por nossa escolha.
Os homens responderam com um rugido profundo.
— POR MACALLISTER!
O chifre soou.
Caerwyn avançou primeiro, como Ewan previra. Infantaria pesada marchando em bloco, a cavalaria posicionando-se para flanquear.
Ewan galopou à frente da própria linha.
Flechas começaram a cair.
Ele não recuou.
Um projétil passou raspando por seu elmo. Outro cravou-se no escudo de um homem ao lado.
Ewan continuou.
— Avancem! Agora!
A linha MacAllister moveu-se com precisão assustadora, abrindo espaços, atraindo o inimigo exatamente para onde Ewan queria.
Quando o choque aconteceu, foi brutal.
Ewan atingiu o primeiro inimigo com um golpe limpo, derrubando-o do cavalo. O segundo veio gritando; Ewan desviou e cortou a parte interna da coxa, fazendo-o cair.
Ele estava no centro.
Onde todos podiam vê-lo.
Onde nenhum boato sobreviveria.
O príncipe não se escondia atrás de estratégias apenas.
Ele sangrava com seus homens.
No meio do caos, Edric observava, incrédulo.
— Ele lidera na frente… — murmurou.
Rowan respondeu, sombrio:
— Porque ele não foge das escolhas que fez.
Ewan avançava como ponto fixo em meio à batalha, a espada suja de sangue, o olhar atento, comandando enquanto lutava, gritando ordens entre golpes, ajustando a batalha em tempo real.
Ele não buscava Edric ainda.
Não era hora.
Primeiro, o leão precisava sangrar.
E naquele vale aberto, sob um céu vermelho, todos entenderam algo que nenhuma aliança jamais garantiria:
Ewan MacAllister não temia guerra alguma.
Porque ele jamais fugira do preço de ser quem era.
E o confronto estava apenas começando..