O estandarte do Reino de Caerwyn surgiu no horizonte como uma mancha dourada contra o céu cinzento. Leões bordados em vermelho profundo tremulavam ao vento símbolo de um reino rico, antigo e perigosamente orgulhoso.
Caerwyn não pedia alianças.
Exigia.
No grande salão do Castelo MacAllister, o emissário real aguardava, acompanhado por guardas com armaduras polidas demais para tempos de guerra.
Ewan entrou sem cerimônia.
— Fale — disse, sentando-se.
O emissário pigarreou, claramente desconfortável por não receber honras.
— Trago palavras do rei Edric III de Caerwyn. — Endireitou-se. — Sua Majestade propõe uma aliança formal… selada por laços matrimoniais como garantia de poder e sangue.
Um gesto trouxe à frente um pequeno retrato pintado em madeira: uma jovem de traços delicados, cabelos claros e olhar treinado para parecer dócil.
— A princesa Elowen, filha mais nova do rei Edric. Um casamento que uniria exércitos, rotas comerciais e sangue real.
O salão murmurou.
Duncan lançou um olhar rápido para Ewan. Aquela aliança significaria segurança imediata.
Ewan observou o retrato por apenas um segundo.
— Não.
A palavra caiu seca.
O emissário piscou, confuso.
— Meu senhor… talvez deseje ouvir os termos completos.
— Já ouvi o suficiente.Caerwyn pode dobrar o número de seus homens. Garantir fronteiras estáveis. Ouro.
—Ewan inclinou a cabeça levemente.
— E exigir obediência disfarçada de parentesco.
O emissário apertou os lábios.
— O rei Edric não está acostumado a recusas.
Ewan ergueu o olhar, frio como o aço.
— Então aprenderá.
Dias depois, em Caerwyn, a resposta chegou.
O rei Edric quebrou o selo com violência.
— Ele recusou?
— Sim, meu rei. Sem negociar.
Edric riu um riso curto, ofendido.
— Um príncipe de montanhas frias acha que pode rejeitar minha filha como se fosse um acordo menor?
Ele se levantou, caminhando pelo salão.
— Não é o casamento que ele rejeitou. — Seus olhos escureceram. — Foi minha autoridade.
O conselheiro tentou intervir.
— Talvez ele tema perder autonomia—
— Ninguém teme Caerwyn e permanece de pé, — interrompeu Edric.
Ele se virou para os mapas.
— Se não aceita nossa mão… conhecerá nosso punho.
A Resposta de Ewan
A notícia da reação de Caerwyn chegou rápido.
O conselho voltou a se reunir, tenso.
— Você insultou um reino poderoso — disse Seumas, cauteloso. — Um casamento poderia evitar uma guerra.
Ewan permaneceu em pé, observando o mapa.
— Uma guerra evitada por submissão não é paz.
— E se ele atacar?
— Ele atacará de qualquer forma. — Ewan virou-se. — Reis como Edric não esquecem recusas. Apenas aguardam fraqueza.
Duncan cruzou os braços.
— Então por que dar a ele um motivo agora?
Ewan respondeu sem emoção:
— Porque eu prefiro escolher o campo de batalha.
Silêncio.
— Caerwyn luta com números — continuou. — Nós lutamos com terreno, tempo e mente.Eles marcham como império. Nós mordemos como lobos.—
Ele apontou as rotas de suprimento.
— Quando Edric vier, não virá como aliado rejeitado. Virá como homem ferido no orgulho.
Levantou o olhar.
— E homens feridos no orgulho cometem erros.
A Promessa de Vingança
Naquela noite, um mensageiro retornou de Caerwyn com uma última mensagem, curta e selada com cera vermelha.
Você recusou minha filha.
Eu recusarei sua paz.
— Edric III
Ewan leu a mensagem uma única vez. Depois a entregou à chama da lareira.
— Preparem os homens — disse calmamente. — O inverno será longo.
Do lado de fora, o vento uivava entre as montanhas, como resposta.
O lobo havia escolhido ficar sozinho.
E o reino ao lado acabara de jurar caçá-lo.
O Castelo de Caerwyn despertou em ritmo de guerra.
Os pátios, antes ocupados por mercadores e músicos, agora ecoavam com o choque de lanças e o trotar de cavalos. Bandeiras vermelhas com o leão dourado foram erguidas em todas as torres um aviso claro aos reinos vizinhos.
O rei Edric III observava tudo do alto da muralha, mãos cruzadas atrás do manto pesado.
— Ele pensa que me ofendeu e seguirá impune — disse, a voz baixa, carregada de desprezo. — Um príncipe de pedras e neblina.
O general Rowan Hale, homem experiente, aproximou-se com mapas.
— Os MacAllister lutam de forma irregular. Emboscadas. Terreno difícil.
Edric não desviou o olhar.
— Terreno pode ser conquistado. Irregularidade se quebra com números.
Ele virou-se para os mapas.
— Marcharemos pelo vale de Ardenfall. É largo. Bom para formação pesada. Tomaremos as vilas uma a uma, forçando Ewan a descer das montanhas.
Rowan hesitou.
— Ardenfall favorece avanço rápido… mas alonga nossas linhas de suprimento.
Edric sorriu, confiante.
— Tenho ouro suficiente para alimentar um exército duas vezes maior que o dele por um ano inteiro.
Apontou para o mapa do norte.
— Ewan luta como predador. Eu lutarei como império.
Mensageiros partiram em todas as direções.
Caerwyn convocou:
Quatro mil homens de infantaria pesada,
Mil cavaleiros blindados,
Companhias de arqueiros mercenários, vindos do sul,
e engenheiros de cerco, algo raro nas guerras das Terras Altas.
Forjas trabalharam dia e noite. Novas armaduras reluziam, espadas eram abençoadas por sacerdotes.
— Que vejam nosso poder antes mesmo da batalha — ordenou Edric.
Ele queria vencer antes de lutar.
Em um salão privado, Edric encontrou-se com a filha, Elowen.
Ela inclinou a cabeça, obediente.
— Ouvi dizer que ele recusou — disse ela, cautelosa.
Edric estreitou os olhos.
— Ele não recusou você. Recusou Caerwyn.
— Talvez ele tema—
— Não temo homens que se escondem atrás de pedras — interrompeu o rei. — Ele aprenderá o valor de uma coroa quando suas muralhas caírem.
Elowen observou o pai por um instante mais longo do que o permitido, mas não disse nada.
Rowan voltou a insistir.
— Devemos avançar lentamente. Garantir suprimentos. Ewan é conhecido por atacar retaguardas.
Edric ergueu a mão.
— Se avançarmos lentamente, pareceremos cautelosos. — Ele caminhou pelo salão. — Quero que ele veja meu exército chegando como uma tempestade.
— E se ele não vier enfrentá-lo?
Edric sorriu.
— Então queimaremos suas vilas até que ele seja forçado a descer.
A decisão foi tomada.
Quando o exército de Caerwyn finalmente marchou, o chão tremeu sob o peso das botas e cascos. Um rio de aço, estandartes ao vento, avançando confiante rumo às montanhas.
Edric montava à frente, armadura ornamentada, convicto de que estava prestes a esmagar um príncipe arrogante.
Ele não sabia ainda que Ewan já conhecia cada rota, cada desfiladeiro, cada ponto fraco daquela marcha.
O leão avançava rugindo.
Sem perceber que entrava no território do lobo.
Ewan MacAllister não se preparava para deter um exército.
Ele se preparava para desmontá-lo