As palavras deixaram o salão antes dos homens.
Em menos de uma semana, o que fora discutido em Dun Brae atravessou vales, rios e fronteiras, levado por mercadores, bardos e mensageiros. Cada um contava a história à sua maneira mas todos mantinham o mesmo núcleo.
O príncipe que executou um traidor sem hesitar.
O jovem que silenciou um conselho inteiro.
O lobo que não recua.
Nos Outros Reinos
No Reino de Strathclyde, o rei Malcolm de Brynmoor ouviu o relato com a testa franzida.
— Dezessete invernos… — murmurou. — E já governa homens mais velhos que ele.
Seu conselheiro inclinou-se.
— Não governa pelo sangue real. Governa pela mente.
Malcolm fechou o punho.
— Então não o provoquem. — Fez uma pausa. — Nem tentem comprá-lo. Homens assim não se vendem… dominam.
No Clã Ross, um lorde riu nervoso ao ouvir as histórias.
— Um garoto que mata aliados? — disse alto, mas a gargalhada morreu rápido. — Melhor manter nossas fronteiras bem definidas.
E, no distante Reino das Ilhas, um comandante experiente comentou em voz baixa:
— Se ele algum dia voltar o olhar para o mar… estaremos em apuros.
Mas foi entre os MacAllister que o impacto foi mais profundo.
Nos campos, os camponeses falavam em sussurros.
— Dizem que ele vê a mentira antes da palavra.
— Dizem que não dorme.
— Dizem que a guerra obedece quando ele fala.
Uma velha curandeira cruzou-se ao ouvir tais falas e respondeu apenas:
— Lobos não são feitos para serem entendidos. São feitos para manter o inverno longe.
Entre os soldados, a mudança foi silenciosa, porém absoluta.
As ordens de Ewan passaram a ser seguidas sem questionamento. Não por medo de punição mas porque ninguém duvidava de que ele sabia algo que eles não sabiam.
— Se ele mandou recuar, é porque avançar mata.
— Se mandou avançar, é porque já vencemos.
Ainda assim, poucos se aproximavam dele.
O respeito erguera um muro.
No Castelo MacAllister
O rei Alasdair observava tudo com atenção sombria.
Certa noite, encontrou o filho na antiga sala de mapas, sozinho, como sempre.
— Seu nome chegou a reinos que nunca pisou — disse o rei. — Alguns querem alianças. Outros… dormem m*l.
Ewan não sorriu.
— É melhor que durmam atentos.
Alasdair respirou fundo.
— Você se tornou algo maior do que pretendia.
— Eu me tornei o que foi necessário.
O rei aproximou-se da mesa.
— E quando não for mais necessário ser assim?
Ewan demorou a responder.
— Então talvez eu não sirva mais.
A resposta gelou o ambiente.
Os bardos começaram a cantar.
Mas as canções não falavam de amor, nem de bravura jovial. Falavam de vitórias rápidas. De decisões cruéis. De um príncipe que caminhava à frente da própria sombra.
Ewan escutou uma delas certa noite, vindo do pátio.
Não desceu.
Não pediu que parassem.
Apenas fechou a janela.
A fama era uma lâmina de dois gumes e ele sabia exatamente como segurá-la.
Mas, no fundo, uma verdade começou a se firmar:
Quanto mais alto o nome de Ewan MacAllister ecoava…
mais sozinho ele se tornava.
E o inverno ainda estava longe de terminar