VI

525 Words
As palavras deixaram o salão antes dos homens. Em menos de uma semana, o que fora discutido em Dun Brae atravessou vales, rios e fronteiras, levado por mercadores, bardos e mensageiros. Cada um contava a história à sua maneira mas todos mantinham o mesmo núcleo. O príncipe que executou um traidor sem hesitar. O jovem que silenciou um conselho inteiro. O lobo que não recua. Nos Outros Reinos No Reino de Strathclyde, o rei Malcolm de Brynmoor ouviu o relato com a testa franzida. — Dezessete invernos… — murmurou. — E já governa homens mais velhos que ele. Seu conselheiro inclinou-se. — Não governa pelo sangue real. Governa pela mente. Malcolm fechou o punho. — Então não o provoquem. — Fez uma pausa. — Nem tentem comprá-lo. Homens assim não se vendem… dominam. No Clã Ross, um lorde riu nervoso ao ouvir as histórias. — Um garoto que mata aliados? — disse alto, mas a gargalhada morreu rápido. — Melhor manter nossas fronteiras bem definidas. E, no distante Reino das Ilhas, um comandante experiente comentou em voz baixa: — Se ele algum dia voltar o olhar para o mar… estaremos em apuros. Mas foi entre os MacAllister que o impacto foi mais profundo. Nos campos, os camponeses falavam em sussurros. — Dizem que ele vê a mentira antes da palavra. — Dizem que não dorme. — Dizem que a guerra obedece quando ele fala. Uma velha curandeira cruzou-se ao ouvir tais falas e respondeu apenas: — Lobos não são feitos para serem entendidos. São feitos para manter o inverno longe. Entre os soldados, a mudança foi silenciosa, porém absoluta. As ordens de Ewan passaram a ser seguidas sem questionamento. Não por medo de punição mas porque ninguém duvidava de que ele sabia algo que eles não sabiam. — Se ele mandou recuar, é porque avançar mata. — Se mandou avançar, é porque já vencemos. Ainda assim, poucos se aproximavam dele. O respeito erguera um muro. No Castelo MacAllister O rei Alasdair observava tudo com atenção sombria. Certa noite, encontrou o filho na antiga sala de mapas, sozinho, como sempre. — Seu nome chegou a reinos que nunca pisou — disse o rei. — Alguns querem alianças. Outros… dormem m*l. Ewan não sorriu. — É melhor que durmam atentos. Alasdair respirou fundo. — Você se tornou algo maior do que pretendia. — Eu me tornei o que foi necessário. O rei aproximou-se da mesa. — E quando não for mais necessário ser assim? Ewan demorou a responder. — Então talvez eu não sirva mais. A resposta gelou o ambiente. Os bardos começaram a cantar. Mas as canções não falavam de amor, nem de bravura jovial. Falavam de vitórias rápidas. De decisões cruéis. De um príncipe que caminhava à frente da própria sombra. Ewan escutou uma delas certa noite, vindo do pátio. Não desceu. Não pediu que parassem. Apenas fechou a janela. A fama era uma lâmina de dois gumes e ele sabia exatamente como segurá-la. Mas, no fundo, uma verdade começou a se firmar: Quanto mais alto o nome de Ewan MacAllister ecoava… mais sozinho ele se tornava. E o inverno ainda estava longe de terminar
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