O amanhecer trouxe um céu cinzento, baixo, opressor.
No grande salão do castelo improvisado em Dun Brae, os membros do conselho reuniam-se em torno da mesa longa de carvalho. Homens que haviam governado clãs por décadas. Guerreiros que sobreviveram a mais batalhas do que conseguiam lembrar.
Ainda assim, nenhum deles falava.
Quando Ewan MacAllister entrou, o som de suas botas ecoou alto demais no salão silencioso. Ele vestia roupas simples de guerra, a espada à cintura, o rosto sereno quase impassível.
Sentou-se à cabeceira.
Não por arrogância.
Por lógica.
— Chamaram-me para discutir a execução de Enflór Munro — disse ele, direto, sem preâmbulos. — Falem.
Enflór havia sido aliado. Um homem antigo. Um nome conhecido.
O primeiro a criar coragem foi Lord Seumas Kerr, o mais velho entre eles, barba branca tocando o peito.
— Ele lutou ao nosso lado por vinte invernos — disse lentamente. — Merecia julgamento. Não uma lâmina ao amanhecer.
Ewan entrelaçou os dedos sobre a mesa.
— Ele teve julgamento. — Olhou Seumas nos olhos. — No momento em que decidiu vender a posição de um flanco durante uma batalha.
Murmúrios baixos se espalharam.
— Mesmo assim — insistiu outro —, homens vão temer que qualquer erro seja visto como traição.
Ewan inclinou levemente a cabeça.
— Erro mata poucos. Traição mata muitos.Ele não errou. Ele escolheu.
O silêncio caiu novamente.
Duncan observava da lateral, o coração apertado. Nunca vira alguém tão jovem falar com tamanha frieza nem mesmo o rei Alasdair em seus anos mais duros.
— Você não hesitou — disse Seumas. — Nem um instante.
Ewan sustentou o olhar do velho.
— Porque hesitação em liderança é convite ao caos.
— Mas você sabia que a execução traria medo — retrucou outro conselheiro. — Entre nossos próprios homens.
— Sim.
A resposta simples desarmou o salão.
— O medo é uma arma perigosa — continuou o conselheiro.
Ewan apoiou as mãos na mesa e se levantou devagar.
— Todas as armas são perigosas. — Sua voz não se elevou, mas pareceu preencher o espaço. — A diferença é quem sabe usá-las.
Ele caminhou lentamente ao redor da mesa.
— Vocês temem que eu governe pelo medo — disse. — Eu temo o que acontece quando a liderança finge não ver a verdade.
Parou atrás de Seumas.
— Se eu tivesse poupado Enflór, quantos aqui teriam se perguntado se poderiam fazer o mesmo… e escapar?
Ninguém respondeu.
Ewan voltou à cabeceira.
— A guerra não permite luxo moral. — Ele olhou um a um. — Permite apenas escolhas corretas ou corpos empilhados.
O mais jovem entre os conselheiros engoliu em seco.
— E se… um dia… alguém acusar você?
Ewan não piscou.
— Então espero que façam comigo o mesmo que eu fiz com ele.
Aquilo encerrou a discussão.
Nenhum homem ali estava preparado para enfrentar alguém que aceitava o mesmo peso da lâmina que impunha aos outros.
Seumas baixou a cabeça.
— Não sei como discutir com você, rapaz.
Ewan respondeu com frieza tranquila:
— Porque não discutimos princípios. Discutimos sobrevivência.
Quando o conselho foi dissolvido, os homens saíram em silêncio, passos arrastados, pensamentos pesados.
Duncan aproximou-se.
— Você os venceu sem lutar.
Ewan olhou para a mesa vazia.
— Eles vieram esperando um príncipe. — Fez uma pausa. — Encontraram um comandante.
Do lado de fora, os soldados observavam Ewan passar. Ninguém falou. Alguns inclinaram a cabeça. Outros apenas se afastaram.
Respeito absoluto.
Distância absoluta.
E, naquele dia, algo ficou claro para todos:
Ewan MacAllister não precisava gritar para ser ouvido.
Nem ameaçar para ser temido.
Ele pensava e isso bastava