V

602 Words
O amanhecer trouxe um céu cinzento, baixo, opressor. No grande salão do castelo improvisado em Dun Brae, os membros do conselho reuniam-se em torno da mesa longa de carvalho. Homens que haviam governado clãs por décadas. Guerreiros que sobreviveram a mais batalhas do que conseguiam lembrar. Ainda assim, nenhum deles falava. Quando Ewan MacAllister entrou, o som de suas botas ecoou alto demais no salão silencioso. Ele vestia roupas simples de guerra, a espada à cintura, o rosto sereno quase impassível. Sentou-se à cabeceira. Não por arrogância. Por lógica. — Chamaram-me para discutir a execução de Enflór Munro — disse ele, direto, sem preâmbulos. — Falem. Enflór havia sido aliado. Um homem antigo. Um nome conhecido. O primeiro a criar coragem foi Lord Seumas Kerr, o mais velho entre eles, barba branca tocando o peito. — Ele lutou ao nosso lado por vinte invernos — disse lentamente. — Merecia julgamento. Não uma lâmina ao amanhecer. Ewan entrelaçou os dedos sobre a mesa. — Ele teve julgamento. — Olhou Seumas nos olhos. — No momento em que decidiu vender a posição de um flanco durante uma batalha. Murmúrios baixos se espalharam. — Mesmo assim — insistiu outro —, homens vão temer que qualquer erro seja visto como traição. Ewan inclinou levemente a cabeça. — Erro mata poucos. Traição mata muitos.Ele não errou. Ele escolheu. O silêncio caiu novamente. Duncan observava da lateral, o coração apertado. Nunca vira alguém tão jovem falar com tamanha frieza nem mesmo o rei Alasdair em seus anos mais duros. — Você não hesitou — disse Seumas. — Nem um instante. Ewan sustentou o olhar do velho. — Porque hesitação em liderança é convite ao caos. — Mas você sabia que a execução traria medo — retrucou outro conselheiro. — Entre nossos próprios homens. — Sim. A resposta simples desarmou o salão. — O medo é uma arma perigosa — continuou o conselheiro. Ewan apoiou as mãos na mesa e se levantou devagar. — Todas as armas são perigosas. — Sua voz não se elevou, mas pareceu preencher o espaço. — A diferença é quem sabe usá-las. Ele caminhou lentamente ao redor da mesa. — Vocês temem que eu governe pelo medo — disse. — Eu temo o que acontece quando a liderança finge não ver a verdade. Parou atrás de Seumas. — Se eu tivesse poupado Enflór, quantos aqui teriam se perguntado se poderiam fazer o mesmo… e escapar? Ninguém respondeu. Ewan voltou à cabeceira. — A guerra não permite luxo moral. — Ele olhou um a um. — Permite apenas escolhas corretas ou corpos empilhados. O mais jovem entre os conselheiros engoliu em seco. — E se… um dia… alguém acusar você? Ewan não piscou. — Então espero que façam comigo o mesmo que eu fiz com ele. Aquilo encerrou a discussão. Nenhum homem ali estava preparado para enfrentar alguém que aceitava o mesmo peso da lâmina que impunha aos outros. Seumas baixou a cabeça. — Não sei como discutir com você, rapaz. Ewan respondeu com frieza tranquila: — Porque não discutimos princípios. Discutimos sobrevivência. Quando o conselho foi dissolvido, os homens saíram em silêncio, passos arrastados, pensamentos pesados. Duncan aproximou-se. — Você os venceu sem lutar. Ewan olhou para a mesa vazia. — Eles vieram esperando um príncipe. — Fez uma pausa. — Encontraram um comandante. Do lado de fora, os soldados observavam Ewan passar. Ninguém falou. Alguns inclinaram a cabeça. Outros apenas se afastaram. Respeito absoluto. Distância absoluta. E, naquele dia, algo ficou claro para todos: Ewan MacAllister não precisava gritar para ser ouvido. Nem ameaçar para ser temido. Ele pensava e isso bastava
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