O jantar naquela noite foi um espetáculo de perfeição.
A mesa longa estava iluminada por candelabros dourados. Nobres murmuravam conversas baixas, atentos a cada gesto do rei e da rainha.
Ewan entrou primeiro.
Postura reta. Rosto fechado. Orgulho intacto.
Ele não a procuraria com o olhar.
Não daria o primeiro passo.
Então as portas se abriram.
Rowena surgiu como se tivesse sido esculpida para aquele salão.
Vestia seda profunda em tom vinho escuro, bordada com fios dourados. As joias brilhavam em contraste com a pele clara, a coroa delicada repousando perfeitamente alinhada. Cada detalhe era impecável.
Ela estava deslumbrante.
Intocável.
O salão inteiro se levantou.
Ewan sentiu o impacto mesmo sem permitir que o rosto denunciasse.
Ela caminhou até seu lugar.
Não ao lado dele por impulso.
Mas porque era onde a rainha deveria estar.
Sentou-se com elegância. Não olhou para ele.
O jantar começou.
Perguntas sobre colheitas. Relatórios militares. Pedidos de alianças.
Ewan respondia com firmeza. Rowena complementava com inteligência cirúrgica.
E não trocaram uma única palavra pessoal.
Nenhum comentário. Nenhum olhar demorado. Nenhum gesto íntimo.
Para os presentes, eram soberanos exemplares.
Para eles, eram dois estranhos dividindo uma mesa.
Em determinado momento, um conde elogiou a atuação conjunta deles na audiência do dia anterior.
— O reino prospera quando seus governantes caminham em perfeita harmonia.
Rowena sorriu.
— O reino sempre estará acima de qualquer coisa.
Ewan sentiu o golpe por baixo da frase educada.
Ela não estava falando com o conde.
Estava falando com ele.
O jantar terminou.
Rowena pousou o guardanapo com precisão, levantou-se com a postura impecável e fez uma leve inclinação de cabeça para os presentes.
— Com licença.
Não para ele.
Para o salão.
E saiu.
Ewan permaneceu sentado por três segundos.
Apenas três.
Então se levantou abruptamente.
— Continuem sem mim. — ordenou, já atravessando o salão.
Os corredores estavam silenciosos quando ele a alcançou.
— Rowena.
Ela não parou.
Ele segurou o braço dela.
O toque foi firme. Não violento. Mas carregado.
Ela parou lentamente.
Olhou para a mão dele em seu braço. Depois para o rosto dele.
— Solte-me, majestade.
O tom era baixo. Frio. Autoritário.
Ewan soltou.
— O que pensa que está fazendo? — perguntou, a voz já carregada de irritação.
— Caminhando até meus aposentos.
— Não se faça de desentendida.
Ela inclinou levemente o queixo.
— Então seja claro.
Ele respirou fundo, tentando manter o controle.
— Está me desafiando diante da corte.
— Estou cumprindo meu papel com excelência. — respondeu ela, seca. — Se isso o incomoda, talvez o problema não esteja em mim.
O orgulho dele estalou.
— Não me trate como um inimigo.
Os olhos dela brilharam.
— Eu o trato exatamente como o senhor escolheu ser tratado.
Aquilo o fez avançar um passo.
— Eu fiz o que era necessário!
— Para quem? — retrucou ela imediatamente. — Para o reino? Ou para o seu ego?
Silêncio.
As palavras ecoaram duras demais naquele corredor de pedra.
Ewan sentiu o sangue ferver.
— Cuidado com o que diz.
Rowena riu.
Mas não havia humor algum.
— Ou o quê? Vai me afastar novamente? Fechar mais portas? Mandar que eu permaneça em silêncio enquanto decide tudo sozinho?
Ele perdeu a paciência.
— Chega, Rowena! Não transforme isso em um espetáculo dramático!
Os olhos dela endureceram como lâminas.
— Dramático? — repetiu, incrédula. — O senhor me excluiu da própria vida e chama minha reação de drama?
Ele passou a mão pelos cabelos, frustrado.
— Eu estava protegendo você!
— Não. — a voz dela ficou ainda mais fria. — O senhor estava protegendo a própria imagem.
Aquilo atingiu fundo.
Ewan deu um passo tão próximo que quase tocavam.
— Você acha que pode me enfrentar assim?
Ela não recuou.
Nem um centímetro.
— Eu não acho. Eu posso.
O silêncio que se seguiu era elétrico.
Ela ergueu o queixo.
— O senhor queria uma rainha forte. Não queria?
— Não desse jeito.
— Então deveria ter pensado nisso antes de me ensinar a ser de gelo como você.
Aquilo o atingiu como um soco invisível.
Mas o orgulho dele não cedeu.
— Está sendo arrogante.
— Estou sendo igual a você.
A resposta foi imediata.
Sem hesitação. Sem tremor.
Ewan percebeu.
Ela não estava chorando. Não estava implorando. Não estava pedindo explicações.
Ela estava de pé. Firme. Intocável.
E isso o enfurecia mais do que qualquer lágrima.
— Se continuar assim, vai destruir o que ainda resta entre nós.
Os olhos dela vacilaram por uma fração mínima de segundo.
Mas ela se recompôs.
— Não há nada entre nós, majestade.
Então se afastou.
Dessa vez, ele não a segurou.
Rowena caminhou até seus aposentos sem olhar para trás.
Ewan ficou no corredor, respirando com dificuldade.
Ele queria gritar. Quebrar algo. Ordenar que ela voltasse.
Mas sabia.
Qualquer ordem agora só cavaria o abismo ainda mais fundo.
Pela primeira vez desde que vestira a coroa, Ewan sentiu algo mais perigoso que a raiva.
Impotência.
E, atrás da porta fechada, Rowena finalmente permitiu que as mãos tremessem.
Mas apenas por um instante.
Depois respirou fundo.
E vestiu o gelo novamente