LXXXIX

1150 Words
O campo de treinamento estava mais cheio do que o habitual naquela manhã. A notícia de que a rainha voltara aos treinos já havia se espalhado. Rowena entrou sob o céu cinza-claro do amanhecer, o vento agitando levemente a trança firme nas costas. Não havia hesitação em seus passos. Os soldados abriram espaço. Ela não pediu o melhor espadachim. Chamou três. — Ataquem juntos. Houve um instante de surpresa. Então atacaram. Rowena girava com precisão quase matemática. Bloqueava dois golpes, deslizava sob o terceiro, usava o peso do próprio adversário contra ele. Sua respiração era controlada. O olhar, concentrado. Ela estava mais rápida. Mais estratégica. Mais implacável. Quando desarmou o último homem, a lâmina dele caiu na terra com um som seco. Silêncio. Ela não comemorou. Apenas devolveu as espadas, corrigiu a postura de um dos soldados com um toque técnico e se afastou para beber água. Ewan observava tudo. Sem expressão. Mas por dentro, algo se retorcia. Ela estava quase perfeita. Quase como ele. E aquilo não era elogio. Era um espelho. Ele caminhou até o centro do campo. Os soldados imediatamente se endireitaram. — Basta. — disse, a voz ecoando firme. Rowena virou-se lentamente. Os olhos dela encontraram os dele. Sem desafio aberto. Sem submissão. Apenas frieza. — Lute comigo. — pediu ele. Não foi uma ordem. Ainda. Ela limpou a lâmina com calma exagerada. — Não. Um murmúrio percorreu os homens ao redor. Ewan não moveu um músculo. — Repita. — Não lutarei com o senhor. A forma como disse senhor foi deliberada. Ele sentiu o golpe. — Está recusando um pedido do seu rei? — Estou recusando um duelo que não considero necessário. A mandíbula dele se contraiu. — Isso é uma afronta. Ela inclinou levemente a cabeça. — É uma escolha. Ele deu um passo à frente. — Eu não estou pedindo como marido. Os soldados ficaram rígidos. — Estou ordenando como rei.— rosnou. O silêncio ficou pesado. Rowena ergueu o queixo. — Não sou um dos seus soldados. — Todos neste campo respondem a mim! — Não em tudo. Os olhos dele escureceram. — Você é obrigada a aceitar, sou seu rei. Você é obrigada a fazer o que eu ordenar Rowena. Aquilo. Aquilo foi longe demais. Algo rompeu. Meses de portas fechadas. Meses de silêncio. Meses sendo deixada de lado como se fosse frágil demais para suportar o peso da coroa. Ela deu um passo à frente. E antes que qualquer pensamento a impedisse O som ecoou pelo campo. Seco. Nítido. A mão dela contra o rosto do rei. Um tapa. Os soldados congelaram. O mundo pareceu parar. Ewan não se moveu. A cabeça virou levemente com o impacto. Um filete de respiração pesada escapou por entre os dentes. Ele poderia ter reagido. Poderia ter gritado. Poderia ter mandado prendê-la. Poderia ter revidado. Mas não o fez. Porque no instante em que voltou o rosto para ela… Ele viu. Não era ódio. Não era desprezo. Era dor. Profunda. Acumulada. Guardada sob camadas de gelo que ele mesmo ajudara a construir. A mão dela ainda tremia levemente no ar. — Não ouse me tratar como posse. — a voz saiu baixa, mas firme. — Eu sou sua rainha. Não sua subordinada. O campo inteiro prendia a respiração. Ewan tocou o próprio rosto devagar. O local ardia. Mas não era a pele que doía. Ele a encarou. E viu pela primeira vez em dias, não havia orgulho na expressão dele. Apenas compreensão tardia. — Eu… — começou, mas a voz falhou. Rowena deu um passo para trás, recuperando o controle. O gelo voltou. — Se quiser lutar, majestade, escolha alguém que ainda o tema. Ela entregou a espada a um escudeiro. E saiu do campo sob o olhar petrificado dos soldados. Ewan permaneceu ali. Imóvel. O Lobo, que jamais permitira desrespeito, não ordenou punição. Não ergueu a voz. Porque finalmente entendeu: O tapa não fora contra o rei. Fora contra o homem que a empurrou para longe. Ele fechou os olhos por um instante. Debaixo de todo aquele gelo, ela não estava arrogante. Estava ferida. Ewan percebeu que não estava lutando contra a rebeldia de Rowena. Estava lutando contra as consequências do próprio orgulho. O campo permaneceu em silêncio por longos segundos depois que Rowena desapareceu pelo arco de pedra. Ninguém ousava respirar alto demais. Os soldados ainda estavam na posição em que haviam congelado alguns com a espada erguida, outros ajoelhados, todos com os olhos fixos no rei. Um tapa. Dado pela rainha. No rosto do Lobo. O capitão mais antigo, foi o primeiro a recuperar a compostura. Bateu o punho fechado contra o peito em saudação formal. — Majestade. Era um pedido silencioso de instrução. Uma ordem. Uma punição. Qualquer coisa. Os mais jovens pareciam pálidos. Uma das soldadas Ellyn, recém-promovida apertava tanto o cabo da espada que os nós dos dedos ficaram brancos. Ewan permaneceu imóvel. O vento atravessava o campo, levantando poeira leve. Ele sabia o que esperavam. Que ele rugisse. Que reafirmasse autoridade. Que mostrasse que o rei não podia ser tocado. Se reagisse com fúria, ninguém o questionaria. Mas ele não sentia fúria. Sentia algo muito mais difícil de enfrentar. Ele ergueu o olhar lentamente. — Voltem ao treino. — disse, firme. Alguns piscaram, confusos. O capitão hesitou. — Majestade… a rainha… Ewan o encarou. Não havia ameaça no olhar. Havia decisão. — A rainha tem permissão para tudo que faz neste campo. Ele caminhou até o centro do campo. Pegou uma espada. Girou-a na mão uma vez. — Capitão. — chamou. Garrick avançou. — Lute comigo. E o duelo começou. Não era contra Garrick. Era contra si mesmo. Os golpes eram duros. Precisos. Mais agressivos do que antes. Os soldados observavam com atenção redobrada. Não havia descontrole. Mas havia intensidade. Cada impacto de metal contra metal ecoava como uma afirmação: O rei ainda era o rei. Quando finalmente desarmou Garrick, a lâmina do capitão caiu na terra. Ewan apontou a espada para ele por um segundo… então a abaixou. — Melhorou. — disse apenas. Depois virou-se para todos. — O campo de treino não é lugar para política. Nem para fofocas. — a voz firme percorreu as fileiras. — O que acontece aqui fortalece o reino. Nada mais. Os olhares se cruzaram entre os soldados. Eles entenderam. Não haveria punição. Não haveria escândalo. Não haveria comentário oficial. Mas algo havia mudado. A rainha não era apenas a consorte elegante do salão. Ela era guerreira. E ousara enfrentar o próprio rei. Alguns sentiram inquietação. Outros, admiração silenciosa. E todos compreenderam uma verdade nova: Se até o Lobo podia ser atingido… Então o gelo do castelo não era inquebrável. Enquanto o treino recomeçava, Ewan manteve a postura firme. Mas, por dentro, as palavras dela ainda ecoavam. “Não sou sua subordinada.” Ele percebeu que talvez o reino estivesse aprendendo algo naquele campo. Não sobre poder. Mas sobre igualdade
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