A noite já havia tomado o castelo quando Ewan parou diante da porta dos aposentos da rainha.
Dessa vez, não levou guardas.
Não levou postura de rei.
Apenas respirou fundo… e entrou.
Rowena estava perto da janela, de costas.
As velas iluminavam suavemente o rosto dela.
Os olhos estavam vermelhos.
A pele levemente marcada.
Ela havia chorado.
Mas no instante em que ouviu a porta, endireitou os ombros.
Quando se virou, o gelo já estava de volta.
— Majestade. — a voz saiu lisa como lâmina polida.
Ewan fechou a porta atrás de si.
Deu dois passos.
Antes que ele dissesse qualquer coisa, ela inclinou levemente a cabeça.
— Veio mandar que me prendam? — perguntou, fria. — Ou decidiu que o tapa foi traição suficiente para uma execução discreta?
A provocação foi cirúrgica.
Ele não reagiu.
— Não vim como rei.
— Curioso. — ela cruzou os braços. — Porque hoje de manhã fez questão de lembrar a todos que manda em todos.
Ele respirou devagar.
— Você quer mesmo continuar assim?
Ela soltou um riso breve e amargo.
— Assim como? Forte? Ou inconveniente?
Ele deu mais um passo.
— Assim… ferida.
Os olhos dela faiscaram.
— Não ouse.
— O quê? — ele manteve o tom calmo de propósito. — Dizer o que vejo?
— O senhor não vê nada! — a voz dela subiu um tom.
Ele não recuou.
— Então diga.
Silêncio.
Tenso.
Ele sabia.
Ela estava cheia.
Cheia demais.
— Diga, Rowena. — insistiu, mais baixo. — De uma vez.
Ela riu, mas o som saiu quebrado.
— Para quê? Para o senhor decidir que é exagero? Que é drama? Que é fraqueza?
Ele não respondeu.
Apenas sustentou o olhar.
E aquilo foi a faísca.
Ela avançou dois passos, o peito subindo e descendo rápido.
— Eu tentei! — a voz dela rompeu o quarto em um grito alto — Eu tentei falar com você por meses! Tentei estar ao seu lado! Tentei entender suas decisões, seu silêncio, suas ausências!
Ele permaneceu imóvel.
— Você me afastou como se eu fosse um peso! Como se amar você fosse um risco para a sua imagem de rei invencível!
As mãos dela tremiam.
— Eu não queria um rei perfeito, Ewan! Eu queria meu marido! Eu queria o homem que me deixava entrar nas próprias sombras!
Os olhos dela estavam cheios novamente.
— Mas você decidiu que eu não era forte o bastante para ver suas fraquezas! Decidiu por mim! Me trancou do lado de fora da própria vida!
Ela empurrou o peito dele com as mãos.
Não para ferir.
Mas porque precisava descarregar.
— E o pior? — a voz quebrou. — Eu continuei amando você mesmo assim.
O quarto ficou pesado demais para respirar.
— Eu me senti inútil. Invisível. Pequena. — as lágrimas agora escorriam livremente. — E precisei virar gelo porque era a única forma de não implorar por migalhas de atenção.
O silêncio dele não era indiferença.
Era escuta.
Ela o atingiu com as últimas palavras:
— Eu bati em você hoje porque estava cansada de ser tratada como menos do que sou.
A respiração dela estava descompassada.
O quarto inteiro parecia pulsar.
Ewan finalmente se moveu.
Não para avançar.
Não para dominar.
Mas para fazer algo que nunca fez.
Ele se ajoelhou diante dela.
O som do joelho tocando o chão ecoou suave.
Rowena congelou.
— Eu estava errado. — disse ele, a voz firme, mas carregada de algo cru. — Eu achei que precisava carregar tudo sozinho para ser digno da coroa. Achei que se você visse minhas dúvidas… perderia a fé em mim.
Ele ergueu os olhos para ela.
Sem orgulho.
Sem muralhas.
— Mas a única coisa que consegui foi afastar a única pessoa que me faz querer ser melhor do que sou.
A respiração dela falhou.
— Eu te feri tentando parecer forte. — continuou ele. — E isso é a maior covardia que já cometi.
O silêncio que se seguiu não era de guerra.
Era de verdade.
— Me perdoe. — ele disse, simplesmente. — Não como rei. Como homem..como seu marido.
Rowena o encarava como se o mundo tivesse mudado de eixo.
O Lobo não se ajoelhava.
Nunca.
As lágrimas voltaram com força.
Ela deu um passo hesitante.
Depois outro.
E então se jogou nos braços dele.
O impacto foi urgente.
Desesperado.
Ela se agarrou aos ombros dele como se finalmente pudesse soltar tudo.
E chorou.
Não silenciosamente.
Chorou os meses de solidão. De frustração. De amor contido.
Ewan a envolveu com força, o rosto enterrado nos cabelos dela.
Ele não pediu que parasse. Não tentou conter. Não tentou se recompor.
Apenas a segurou.
Como deveria ter feito desde o início.
— Eu estou aqui. — murmurou contra a testa dela. — Eu nunca mais fecho a porta para você.
Ela soluçava contra o peito dele.
— Não me exclua de novo…
— Nunca.
O gelo começou a derreter.
Não diante da corte. Não no campo de batalha.
Mas ali.
No silêncio de um quarto onde rei e rainha finalmente voltavam a ser apenas Ewan e Rowena.
Eles permaneceram no chão por muito tempo.
O mundo lá fora continuava guardas trocando turno, criados cruzando corredores, o castelo respirando como sempre.
Mas dentro daquele quarto, o tempo parecia suspenso.
Rowena chorava como se cada lágrima carregasse um mês inteiro de silêncio. Seus dedos estavam cravados no tecido da túnica dele, como se temesse que ele desaparecesse caso soltasse.
Ewan não a apressou.
Não tentou explicar mais nada.
Apenas a segurou.
Uma das mãos dele acariciava lentamente os cabelos dela, desfazendo com cuidado a tensão presa ali. A outra permanecia firme em suas costas, sustentando-a.
— Eu estou aqui… — repetia em voz baixa, não como promessa grandiosa, mas como presença real.
Os soluços foram diminuindo aos poucos.
De intensos… Para irregulares… Para suspiros cansados.
Rowena estava exausta.
Não fisicamente.
Emocionalmente.
O corpo dela começou a pesar contra o dele. A respiração ficou mais lenta, mais profunda. Os dedos que antes seguravam com força passaram a repousar apenas apoiados.
— Rowena… — murmurou ele, afastando levemente o rosto para observá-la.
Os olhos dela estavam fechados.
As marcas das lágrimas ainda brilhavam na pele, mas a expressão havia suavizado.
Ela adormeceu ali.
Nos braços dele.
Como se, finalmente, tivesse permitido ao próprio corpo acreditar que estava segura.
Ewan sentiu algo apertar no peito.
Com cuidado, levantou-se, ainda a segurando. Ela murmurou algo indistinto, mas não despertou.
Ele a levou até a cama.
Depositou-a devagar sobre os lençóis, como se carregasse algo sagrado.
Retirou com delicadeza as joias que ainda restavam a coroa leve, os brincos colocando-os na mesa próxima. Afrouxou os laços do vestido para que pudesse respirar melhor.
Ela se moveu, buscando instintivamente calor.
Ewan sentou-se ao lado dela.
Por um momento, apenas observou.
Aquela era a mulher que enfrentara soldados. Que desafiara um rei. Que suportara meses de distância sem quebrar.
E que, no fundo, só queria não ser deixada para trás.
Ele passou os dedos suavemente sob os olhos dela, secando a última trilha de lágrima.
— Eu quase perdi você… — murmurou para si mesmo.
Rowena se mexeu outra vez e, ainda dormindo, procurou a mão dele.
Ele entrelaçou os dedos imediatamente.
Ela suspirou.
E se aproximou.
Ewan não saiu dali.
Permaneceu sentado ao lado da cama, segurando a mão dela, observando cada respiração tranquila que substituía os soluços anteriores.
Aquela paz frágil valia mais que qualquer vitória em batalha.
E o Lobo, que sempre vigiava o reino, agora vigiava apenas o sono da mulher que finalmente voltara para seus braços.