A manhã nasceu fria, mas clara.
Quando deixaram os aposentos reais, o castelo já estava desperto. Criados cruzavam os corredores, soldados trocavam turnos, o dia seguia seu curso rígido como sempre seguira sob o reinado do Lobo.
O desjejum foi silencioso, porém diferente.
Não havia gelo.
Também não havia palavras demais.
Ewan observava Rowena com atenção aberta, sem se esconder. Ela percebeu. Fingiu não perceber.
Quando terminaram, ele foi o primeiro a se levantar.
Os conselheiros ainda estavam à mesa. Criados aguardavam ordens. O salão parecia conter a respiração.
Então Ewan fez algo que ninguém ali jamais vira.
Ele caminhou até Rowena.
Sem pressa.
Sem dureza.
Parou diante dela e, num gesto calmo, ofereceu o braço.
— Caminhe comigo — disse, a voz firme, mas sem o peso da ordem. — Pelo jardim.
O salão congelou.
Um murmúrio quase inaudível percorreu os presentes. Alguns criados baixaram os olhos, como se estivessem presenciando algo íntimo demais. Um dos conselheiros mais velhos engoliu em seco.
Rowena ficou imóvel por um instante.
Olhou para o braço estendido.
Depois para o rosto dele.
Havia ali algo novo não o rei, não o lobo, mas o homem que na noite anterior prometera não fingir.
Ela se levantou.
Sem dizer nada, aceitou o braço.
O toque foi leve, respeitoso, mas carregado de significado. Quando passaram pelas portas do salão, os passos deles ecoaram pelo corredor longo como um anúncio silencioso.
No jardim, o ar frio trouxe o cheiro de terra úmida e folhas de inverno. O sol ainda tímido tocava as pedras antigas.
Ewan manteve o ritmo ajustado ao dela.
— Eu devia ter feito isso antes — disse, baixo, quase para si mesmo.
Rowena ergueu o olhar.
— O quê?
— Mostrar — respondeu. — Não com palavras. Mas com gestos que não deixam dúvida.
Ela sentiu o coração bater mais rápido.
— Você sabe que todos viram — comentou, tentando soar casual.
— Era a intenção — disse ele, sem hesitar.
Ela parou por um instante, forçando-o a parar também.
— Por quê?
Ewan virou-se para ela, ainda com o braço oferecido.
— Porque você nunca foi algo que eu quisesse esconder — disse. — E porque estou cansado de permitir que pensem que você caminha atrás de mim… quando sempre caminhou ao meu lado.
Rowena sentiu os olhos arderem.
Ela apertou levemente o braço dele, um gesto pequeno, mas cheio de significado.
— Então vamos caminhar.. — disse.
Ele assentiu.
Eles se sentaram em um banco de pedra, meio escondido entre arbustos antigos, onde o jardim parecia esquecer que pertencia a um castelo. O vento frio passava baixo, mas o sol começava a aquecer de leve.
Por alguns instantes, nenhum dos dois falou.
Rowena foi a primeira.
— Eu preciso dizer — começou, olhando para o chão, os dedos entrelaçados no colo — porque se eu não disser agora, vou continuar engolindo isso até me quebrar de novo.
Ewan virou-se inteiro para ela. Não cruzou os braços. Não desviou o olhar.
— Diga — respondeu apenas.
Ela respirou fundo.
— Quando você voltou da guerra… e me proibiu de te ver… — a voz falhou, mas ela continuou — eu pensei que fosse punição. Pensei que você estivesse arrependido de mim. Do que construímos.
Ewan sentiu o peso daquelas palavras como um golpe seco.
— Todos os dias eu ia até a sua porta — disse ela. — Todos. Mesmo quando os guardas me expulsavam.Mesmo quando eu me sentia ridícula, implorando para ver o próprio marido.
Ela ergueu os olhos, finalmente encarando-o.
— E você deixava.
Ele fechou os olhos por um segundo, como se aquilo doesse mais do que qualquer ferida de guerra.
— Eu gritava — continuou Rowena, a voz mais firme agora. — Chorava. E quando parei… foi porque algo em mim morreu ali. Não foi orgulho. Foi cansaço.
O silêncio entre eles ficou denso.
— Eu achei que não era amada — disse ela, sem rodeios. — Achei que tudo aquilo… — fez um gesto vago com a mão — tinha sido só imaginação minha.
Ewan passou a mão pelo rosto, devagar.
— Eu não suportava que você me visse fraco — confessou, a voz baixa, quase áspera. — Eu sempre fui o escudo. O lobo. O que volta ferido, mas de pé. Quando voltei daquele jeito… eu não era nada disso.
Ela balançou a cabeça.
— Você não entende. Eu não queria o rei. Nem o lobo.
A voz dela quebrou de vez.
— Eu queria você.
Ele abriu os olhos, e havia algo ali que raramente mostrava: culpa crua.
— Cada vez que você era afastada da porta… — disse ele — eu ouvia. Eu mandava tirarem você dali… e depois ficava horas olhando para o teto, odiando a mim mesmo por não ir atrás.
— Então por que não foi? — perguntou ela, num sussurro.
Ewan engoliu em seco.
— Porque eu acreditava que amor enfraquecia. E naquele momento… eu já estava fraco demais.
Rowena riu sem humor.
— Amor não enfraquece — disse. — O que enfraquece é enfrentar tudo sozinho.
Ela se aproximou um pouco mais no banco.
— Você me deixou do lado de fora quando eu mais precisei estar dentro — completou. — E isso doeu mais do que qualquer ausência anterior.
Ewan estendeu a mão, desta vez não parando no meio do caminho. Tocou a dela, com cuidado, como se pedisse permissão mesmo depois de tudo.
— Me perdoe meu amor.. — disse, simplesmente.
Rowena respirou fundo, sentindo o peso de meses finalmente sair do peito.
— Eu já perdoei, só precisava falar..— respondeu com honestidade. — Estamos aqui não é? Isso já significa algo.
Ele assentiu.
— Significa tudo.
Eles ficaram ali, lado a lado, as mãos tocando-se, não como promessa perfeita mas como duas pessoas que finalmente pararam de se esconder uma da outra