O momento no banco de pedra foi interrompido pelo som firme de passos sobre o cascalho.
— Majestade.
O capitão Garrick surgiu à entrada do jardim, postura rígida, mas expressão contida. Ele evitava olhar diretamente para a i********e silenciosa que acabara de testemunhar.
Ewan não soltou a mão de Rowena de imediato.
— Fale.
— Houve desentendimento entre dois pelotões. Precisam da sua decisão antes do treino da tarde.
O dever.
Sempre o dever.
Ewan respirou fundo, então se levantou.
Rowena soltou a mão dele devagar, mas não houve frieza no gesto.
— Vá. — disse ela, mais suave do que teria sido dias antes. — O reino ainda precisa do Lobo.
Ele a observou por um segundo.
— E você?
Ela sustentou o olhar.
— Eu preciso do meu marido.
Algo passou entre eles ali não promessa vazia, mas intenção.
Ewan assentiu.
Antes de sair, inclinou-se levemente e tocou os dedos dela, rápido, discreto, mas carregado de significado.
Então seguiu com o capitão.
Rowena permaneceu no jardim.
O vento frio já não parecia tão cortante.
Ela caminhou entre as roseiras de inverno, tocando as pétalas resistentes que sobreviviam à estação dura. Havia algo reconfortante ali flores que persistiam mesmo no frio.
Ela respirou fundo.
Ainda doía.
Mas não era mais um vazio.
Era reconstrução.
Ewan não foi direto ao campo de treinamento.
No corredor lateral do castelo, encontrou a dama de companhia da rainha, Lady Marian.
— Lady Marian.
Ela fez uma reverência imediata.
— Majestade.
Ele olhou ao redor para garantir que estavam a sós.
— Preciso que organize algo esta noite. Discreto.
A dama ergueu os olhos, curiosa, mas respeitosa.
— Como desejar, senhor.
— A estufa do castelo. Às vinte horas. — disse ele, firme. — Quero um jantar preparado lá. Apenas para dois.
Ela piscou, surpresa.
A estufa era o lugar favorito de Rowena durante a primavera. Um refúgio de vidro e verde, aquecido mesmo nos dias mais frios.
— Tudo que ela gosta. — continuou Ewan. — As frutas cristalizadas com mel. O pão de ervas que ela prefere. O vinho leve do sul. Flores vivas. Muitas. E almofadas… cobertores. Quero que seja acolhedor.
Lady Marian não conseguiu esconder um pequeno sorriso.
— Sim, majestade.
Ele deu um passo mais próximo, a voz mais baixa.
— E não deixe que ela desconfie. Leve-a até lá às vinte horas. Diga que é algo administrativo, se for preciso.
— Entendido, senhor.
Ewan hesitou por um instante.
Depois acrescentou:
— Quero que ela se sinta escolhida. Não convocada.
A dama fez uma reverência mais profunda.
— Farei tudo como deseja, majestade.
Ele assentiu.
— Obrigado.
E então, finalmente, seguiu para o campo de treinamento.
No jardim, Rowena observava o céu clarear completamente.
Ela não sabia que naquela mesma manhã, o homem que aprendera a esconder sentimentos estava planejando mostrá-los.
Não com discursos. Não com promessas.
Mas com gestos.
E naquela noite, sob o vidro da estufa iluminada por velas, algo novo começaria a florescer entre eles não o amor impetuoso de antes, nem o gelo defensivo dos últimos meses.
Mas uma escolha consciente.
De caminhar juntos.
O dia passou mais rápido do que Rowena percebeu.
Quando o sol começou a descer, tingindo o céu de tons alaranjados e frios, Lady Marian surgiu nos aposentos com uma energia incomum.
— Majestade, creio que um banho quente lhe fará bem esta noite.
Rowena ergueu uma sobrancelha.
— Está particularmente insistente hoje, Marian.
— Apenas cuidadosa. — respondeu a dama com um sorriso quase inocente demais.
A banheira foi preparada com água quente e óleos suaves de lavanda e alecrim aromas que Rowena sempre preferira nos dias em que precisava pensar.
Enquanto a ajudava, Marian mantinha a conversa leve, falando sobre flores que resistiam ao inverno e sobre como a estufa estava especialmente bonita naquela estação.
Rowena não percebeu a sutileza da repetição.
Após o banho, Marian escolheu um vestido que Rowena raramente usava: azul profundo, com bordados prateados delicados que lembravam constelações. Não era exagerado como os trajes de corte. Era íntimo. Elegante. Suave.
— Não está informal demais? — perguntou Rowena, observando o reflexo.
— Pelo contrário, majestade. Está… perfeita.
Os cabelos foram soltos em ondas leves, presas apenas por um pequeno ornamento discreto. Nenhuma coroa. Apenas um colar fino, delicado.
Quando terminaram, Marian pareceu subitamente lembrar-se de algo.
— Ah, majestade… antes de seguir para o jantar, o rei solicitou que verificasse algo na estufa. Uma questão sobre as novas ervas que chegaram do sul. Ele mencionou que sua opinião seria valiosa.
Rowena estreitou os olhos levemente.
— Desde quando Ewan consulta ervas antes do jantar?
Marian manteve a expressão serena.
— Desde que aprendeu que sua opinião evita decisões precipitadas.
Rowena suspirou.
— Muito bem.
Caminharam pelos corredores iluminados por tochas até o caminho lateral que levava à estufa.
À medida que se aproximavam, Rowena percebeu algo diferente.
Luz demais.
Calor demais.
Quando a porta de vidro foi aberta, o ar morno a envolveu imediatamente, trazendo o perfume de flores vivas e frutas maduras.
Ela deu um passo.
E parou.
A estufa estava transformada.
Velas espalhadas entre as plantas lançavam uma luz dourada suave. Flores que ela amava lírios brancos, pequenas rosas de inverno, ramos de lavanda adornavam o espaço com delicadeza.
No centro, uma mesa baixa cercada por almofadas espessas e cobertores macios. Sobre ela, pratos que ela reconheceu imediatamente: o pão de ervas, as frutas com mel, o vinho do sul.
Tudo escolhido.
Tudo pensado.
Para ela.
Rowena levou a mão ao peito, o coração batendo mais rápido.
— Marian… — murmurou, quase sem voz.
Mas a dama já havia recuado discretamente, fechando a porta atrás de si.
O silêncio da estufa era diferente do silêncio do castelo.
Era íntimo.
Vivo.
Rowena deu mais alguns passos lentos, tocando uma das flores como se precisasse confirmar que era real.
— Gostou?
A voz veio baixa.
Atrás dela.
Rowena virou-se bruscamente.
Ewan estava ali.
Sem armadura. Sem capa pesada. Apenas em trajes simples, escuros, que o faziam parecer menos rei e mais homem.
Ele se aproximou devagar.
— Não é um decreto. — disse. — Nem uma obrigação.
Parou a poucos passos dela.
— É um pedido.
Os olhos dela brilhavam, refletindo as velas.
— Você não é o tipo de homem que faz essas coisas..
— Eu mandei preparar. — corrigiu ele suavemente. — Mas escolhi cada detalhe.
Ela respirou fundo, tentando controlar a emoção que subia novamente.
— Por quê?
Ele deu mais um passo.
— Porque passei meses afastando você. — respondeu. — E quero passar o resto do tempo mostrando que escolho o contrário.
O calor da estufa não vinha apenas das velas.
Rowena sentiu os olhos arderem de novo, mas dessa vez não era dor.
— Eu não esperava… — começou, mas a voz falhou.
Ewan ergueu a mão devagar, não tocando, apenas oferecendo proximidade.
— Eu sei que não posso apagar o que fiz. — disse ele. — Mas posso construir algo novo. Com você. Se permitir.
Ela olhou ao redor mais uma vez.
Aquele lugar era o refúgio dela.
E ele tinha transformado em um gesto.
Sem plateia. Sem testemunhas.
Apenas eles.
Rowena deu um passo à frente.
Ficaram muito próximos.
— Você está aprendendo. — disse ela, quase um sussurro.
Ele permitiu um leve sorriso.
— Com a melhor professora que já tive.
Ela riu baixinho, finalmente