XXXI

959 Words
O silêncio após as palavras de Ewan não durou muito. Rowena respirou fundo, reunindo cautela e coragem na mesma medida. — Não precisas ir. — disse, com firmeza contida. — Tens generais experientes. Homens que já lutaram sob teu comando e venceram. Um rei não precisa estar sempre na linha de frente. Ewan afastou lentamente a mão da dela. O gesto foi pequeno. Mas o afastamento foi claro. — Não fales do que não conheces. — disse ele, seco. Rowena franziu levemente o cenho. — Conheço o suficiente para saber que tua ausência não significa covardia. — respondeu. — Significa preservar o reino… e a ti. Ewan levantou-se da cadeira. O movimento foi abrupto. — Preservar-me? — repetiu, a voz mais dura. — Foi assim que cheguei até aqui? Preservando-me? Rowena levantou-se também, ainda que com cuidado por causa do ferimento. — Não estou questionando tua coragem. — disse. — Estou pedindo que escolhas— — Não me peças para escolher entre quem sou e o que esperas que eu seja. — cortou ele. A frieza se instalou. O olhar claro de Ewan tornou-se distante, fechado, como muralha em inverno. — A guerra não se delega quando se é o alvo. — continuou ele. — Eles se movem por mim. Pelo nome MacAllister. Pela minha recusa, pelas batalhas que venci. — E exatamente por isso deverias permanecer. — insistiu Rowena. — Um rei morto— — Chega. — disse ele, ríspido. A palavra caiu como lâmina. Rowena sentiu o impacto mais do que gostaria. — Tu falas como quem teme perder um homem. — disse Ewan. — Eu falo como quem sabe que perder um rei custa mais caro. Ela o encarou, surpresa e ferida. Ali estava. O Príncipe de Gelo. O homem que, diante da guerra, tornava tudo ao redor secundário inclusive a própria paz. — Então é isso? — disse ela, a voz agora mais baixa. — A guerra passa por cima de tudo? Até do que estás construindo aqui? Ewan não suavizou. — A guerra é o que me construiu. — respondeu. — Não me peças para fingir o contrário. O silêncio que se seguiu foi pesado. Rowena sentiu algo se ajustar dentro dela, não quebra, mas entendimento. Ela respirou fundo. — Agora entendo. — disse. — Entendo por que te chamam de lobo. Ewan não reagiu. — Não porque não sentes. — continuou ela. — Mas porque congelas tudo ao redor quando a guerra chama. Pessoas. Vínculos. Até a ti mesmo. Ela se virou para sair. Antes de alcançar a porta, disse, sem olhar para trás: — Não tentarei te impedir novamente. — disse. — Mas não confundas minha preocupação com fraqueza. A porta se fechou com suavidade controlada. Ewan ficou sozinho. O castelo parecia mais frio. Ele sabia que fora duro. Sabia que passara por cima de algo precioso. Mas a guerra já estava em sua mente ,mapas, rotas, perdas calculadas. Ainda assim, quando o silêncio voltou, algo o incomodou mais do que qualquer ameaça externa. Porque o gelo protege. Mas também isola. E naquela noite, o Lobo percebeu que, mais uma vez, escolhera a guerra… Mesmo que isso lhe custasse a própria paz. Os dias que se seguiram não trouxeram alívio. Trouxeram confirmação. Batedores retornaram feridos. As fronteiras arderam em pequenas escaramuças. Vilas foram evacuadas, celeiros queimados como aviso não um ataque total, mas um recado claro: o inimigo avançava. Ewan não esperou o conselho pedir. Convocou-o. — Não é mais ameaça. — disse, diante dos mapas abertos. — É marcha. — Ainda podemos ganhar tempo. — insistiu Caelan. — Fortificar, negociar— — Tempo é o que eles querem. — respondeu Ewan. — Para nos medir. Para nos cansar. Para escolher onde sangraremos. Ele endireitou-se. — Atacaremos primeiro. O silêncio foi imediato. — Majestade… — começou um dos homens. — Eu irei. — declarou Ewan. Ninguém ousou contestar. Na manhã da partida, o castelo despertou em preparação silenciosa. Armaduras ajustadas. Cavalos selados. Bandeiras dobradas. Rowena observava da janela. Não houve palavras entre eles. Quando Ewan cruzou o pátio montado em seu cavalo branco, não olhou para cima. Não porque não soubesse que ela estava ali. Mas porque sabia. E não podia hesitar. Rowena apoiou a mão no parapeito de pedra, sentindo o frio atravessar-lhe a pele. Ele partia outra vez. Como sempre. Como se fosse inevitável. O exército avançou como uma única vontade. Ewan à frente, espada embainhada, olhar fixo no horizonte. Os homens o seguiam não por ordem, mas por fé. — O Lobo vai conosco. — murmuravam. E onde o Lobo ia, o medo mudava de lado. O ataque veio ao amanhecer, como Ewan previra. O inimigo não esperava ser caçado. A formação deles se quebrou quando os MacAllister avançaram pelos flancos, guiados por sinais combinados. Ewan leu o campo como um texto antigo cada colina, cada sombra, cada hesitação. Ele não lutava apenas com a espada. Lutava com o terreno. Com o tempo. Com o terror. Quando a linha inimiga tentou reagrupar, já era tarde. O Lobo estava entre eles. A lâmina de Ewan desceu precisa, sem fúria, sem pressa. A guerra não era ódio. Era trabalho. Quando o sol subiu, o campo estava tomado. O inimigo recuou, desorganizado, deixando mortos e feridos. Ewan permaneceu montado, observando. — Não os persigam. — ordenou. — Ainda não. Ele sabia. A guerra estava longe de acabar. Mas o recado fora entregue. O Lobo voltara ao campo. E, enquanto o sangue esfriava na terra, o nome Ewan MacAllister ecoava outra vez não apenas como rei, mas como destino inevitável. No castelo, a quilômetros dali, Rowena sentia. A guerra havia levado o marido. Mais uma vez. E agora, tudo o que lhe restava era governar na ausência do Lobo e sobreviver à espera
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