XXX

940 Words
A manhã nasceu tensa. Os sinos não tocaram, mas a urgência correu pelos corredores como fogo em palha seca. Mensageiros chegaram antes do desjejum, cavalos exaustos, vozes baixas demais para esconder o peso das palavras. Uma possível ameaça de guerra. O conselho foi convocado imediatamente. Ewan entrou na sala sem escolta. Usava cores escuras, simples, a espada à cintura sinal claro de que não era uma audiência comum. Tomou seu lugar à cabeceira da mesa. A cadeira de Rowena permanecia vazia. Alguns conselheiros notaram. Outros preferiram fingir que não. — Relatem. — ordenou Ewan. Lorde Caelan foi o primeiro a falar. — Nossos batedores confirmaram movimentação de tropas ao sul. — disse. — Bandeiras não identificadas, mas a formação… não é defensiva. — Quantos? — perguntou Ewan. — Ainda não sabemos ao certo. — respondeu outro conselheiro. — Mas o suficiente para preocupar as fortalezas da fronteira. Um terceiro pigarreou. — Há rumores de alianças sendo costuradas. — disse. — Antigos desafetos vossos, Majestade. Homens que nunca aceitaram vossa ascensão. Ewan apoiou os dedos na mesa. — Rumores não movem exércitos. — disse. — Homens sim. Quero nomes. Houve hesitação. — Edric não foi visto entre eles. — disse Caelan. — Mas seus antigos capitães… sim. Um murmúrio correu pela mesa. — Ele ainda vive. — disse outro. — E homens humilhados não esquecem. Ewan estreitou o olhar. — Então não é guerra declarada. — concluiu. — É provocação. — Justamente. — respondeu Caelan. — E é por isso que pedimos cautela. Ele fez uma pausa calculada. — Talvez… este seja o momento de evitar conflito aberto. Enviar emissários. Reforçar alianças. Outro conselheiro acrescentou: — Uma rainha presente nessas negociações poderia suavizar tensões. O olhar de Ewan ergueu-se lentamente. — Cuidai das vossas palavras. — disse, a voz baixa, perigosa. — Não foi ofensa. — apressou-se o homem. — Apenas… estratégia. — Estratégia é conhecer o inimigo. — respondeu Ewan. — Não oferecer-lhe tempo. Ele se levantou. — Não haverá emissários. — declarou. — Ainda. — Majestade — tentou Caelan. — A reunião é para informar, não para governar por mim. — cortou Ewan. — Reforcem as fronteiras. Dobrem a vigilância. Quero relatórios ao cair da noite. Silêncio. A cadeira vazia de Rowena parecia mais presente do que nunca. Alguns conselheiros trocaram olhares, inseguros. Sem a rainha, sentiam-se mais à vontade. Mas também… mais expostos. Ewan percebeu. — A rainha não está aqui hoje. — disse, por fim. — Mas governamos juntos. Não confundais ausência física com ausência de autoridade. Ninguém respondeu. Quando a reunião foi encerrada, os homens se levantaram em silêncio. A ameaça era real. E o reino sabia: Quando o Lobo se tornava tão quieto quanto naquela manhã, a guerra já estava sendo medida. A noite caiu pesada sobre o castelo. As tochas já estavam acesas quando Ewan retornou aos aposentos para o jantar. O peso do dia ainda se refletia em seus ombros, não no corpo mas no silêncio que carregava. Rowena já estava à mesa. Movia-se com cuidado, o ferimento ainda exigindo respeito, mas o olhar estava atento como sempre. Ao vê-lo entrar, ergueu-se apenas o suficiente para saudá-lo. — O conselho terminou tarde. — disse ela. — Terminou como começou. — respondeu ele, sentando-se. — Com medo disfarçado de prudência. Serviram a refeição. Por alguns instantes, comeram em silêncio. Rowena observava. O modo como Ewan partia a carne sem pressa. O olhar distante, calculando mapas invisíveis. O hábito de ouvir antes de falar mesmo quando ninguém falava. Ela reconhecia aquele estado. Era o mesmo olhar dos guerreiros antes da batalha. — Chegaram os relatórios. — disse ele, por fim. Rowena ergueu o olhar. — E? — Tropas ao sul continuam se movendo. — respondeu. — Não avançam… mas também não recuam. Ela apoiou a mão sobre a mesa, lentamente. — Estão esperando. — Sim. Rowena respirou fundo. O pensamento que a assombrava desde cedo ganhou forma. — Terás de ir. — disse, não como pergunta. Ewan não negou. — Se avançarem, irei. — respondeu. — Se não avançarem… talvez também. Ela fechou os olhos por um instante. Não de fraqueza. De contenção. — m*l começaste a governar sem espada em punho. — disse ela. — E o reino já te chama de volta ao campo. — Sempre chamou. — respondeu ele. Rowena observou o ferimento enfaixado em sua própria perna, depois voltou o olhar para ele. — Temo que essa guerra te roube algo que ainda não tiveste tempo de recuperar. — disse, baixa. Ewan a encarou. — Não temo a guerra. — disse. — Temo governar fingindo que ela não existe. Ela assentiu lentamente. — E temo que te percas nela. — completou. Houve um silêncio longo. Depois, Ewan estendeu a mão por sobre a mesa e pousou-a sobre a dela firme, presente. — Não partirei às cegas. — disse. — E não partirei sem considerar tudo. Ela entrelaçou os dedos aos dele, apesar da dor. — Promete-me apenas uma coisa. — disse. — O quê? — Que não irás como o Lobo que nada teme. — respondeu. — Mas como o rei que agora tem algo a proteger… além do trono. Ewan sustentou o olhar dela. Por um instante, a frieza cedeu lugar a algo mais profundo. — Eu já tenho. — disse. Rowena sentiu o peso daquelas palavras mais do que qualquer juramento formal. Quando os servos se retiraram e a noite envolveu o castelo, ela compreendeu: A guerra ainda não chegara. Mas já estava sentada à mesa com eles. E, pela primeira vez, o Lobo temia não a batalha mas o que poderia perder se tivesse de partir outra vez
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