A luz pálida da manhã escorria pelas frestas da janela quando Rowena despertou.
Por um instante, não compreendeu.
O calor não vinha das cobertas.
O silêncio não era solitário.
Ela respirou fundo e sentiu.
Ewan.
Muito próximo.
O braço dele estava ao lado do dela, o calor firme, real. O peito subia e descia num ritmo lento, controlado.
Rowena congelou.
O coração acelerou de leve, não por medo, mas pela súbita consciência da i********e que não fora planejada.
Com cuidado extremo, ergueu o olhar para o rosto dele.
Ewan dormia.
Ou assim parecia.
Os traços estavam relaxados, a expressão neutra, quase serena. Cabelos claros longos espalhados pelo travesseiro, a respiração constante demais para alguém que realmente dormia… mas ela não sabia disso.
Rowena observou-o por alguns segundos.
Mais do que deveria.
Havia algo diferente ao vê-lo assim sem armadura, sem postura de rei, sem o peso do mundo nos ombros. Apenas um homem marcado por batalhas, descansando.
Ela engoliu em seco.
— Lobo… — pensou, sem dizer.
Com um movimento lento, começou a se afastar. Primeiro o ombro, depois o quadril, tentando não perturbar o sono dele. O lençol deslizou com cuidado estudado.
Ewan percebeu cada movimento.
O lobo acordara no exato instante em que a respiração dela mudara.
Mas permaneceu imóvel.
Observando por trás das pálpebras fechadas.
Sentiu o calor dela se afastar e, por um breve segundo, a ausência foi… incômoda.
Rowena apoiou a mão no colchão para se erguer, hesitou.
Voltou a olhá-lo uma última vez.
Havia algo no modo como ele dormia ou fingia dormir que a fez sorrir de leve. Um sorriso pequeno, íntimo, que não mostrava a ninguém.
Então afastou-se por completo.
Ewan abriu os olhos apenas quando ela já estava de pé.
Ficou ali, encarando o teto de pedra, sentindo ainda o calor que ela deixara para trás.
Nenhum dos dois disse nada.
Mas ambos sabiam.
Naquela manhã, algo havia mudado.
Não de forma abrupta.
Não com palavras.
Mas como as coisas mais perigosas e belas costumam mudar:
Devagar.
Ela fechou a porta com cuidado demais.
Apoiou-se por um instante na madeira fria, como se precisasse confirmar que estava acordada. O coração ainda batia mais rápido do que deveria para uma simples manhã.
Não fora o toque.
Fora a ausência dele quando se afastou.
Rowena levou a mão ao peito, respirando fundo.
Foi apenas um acidente, disse a si mesma.
O frio da noite. Um pesadelo.
Mas o corpo não mentia.
Havia calma onde antes existia vigília. Um conforto estranho por ter dormido tão profundamente algo raro desde a infância.
Ela pensou no rosto de Ewan, sereno no sono.
Ele confia em mim, percebeu.
E isso a assustou mais do que qualquer guerra.
Porque confiança não vinha com regras claras. Não havia estratégia. Não havia defesa perfeita.
— Não posso me perder nisso — murmurou para si mesma.
Ainda assim, enquanto se vestia, percebeu que ajustava as roupas com mais cuidado do que o habitual.
Não por vaidade.
Por consciência.
Ewan.
Ficou deitado por mais tempo do que costumava.
O teto de pedra nunca parecera tão… silencioso.
Ewan passou a mão pelo rosto, respirando fundo, sentindo ainda o calor que Rowena deixara nos lençóis.
Não a afastei.
A constatação veio sem julgamento, apenas como fato.
Em batalha, qualquer aproximação inesperada era risco. Ele sempre reagira afastando, endurecendo, cortando.
Mas naquela noite, não.
Porque não fora invasão.
Fora refúgio.
Ewan fechou os olhos por um instante, irritado consigo mesmo.
Isso pode enfraquecer.
Mas outra parte dele a parte que aprendera a confiar nela em conselhos, mapas e silêncios respondeu:
Ou pode fortalecer.
Ele se levantou finalmente, vestindo-se com a mesma precisão de sempre. O rei estava intacto. O lobo, atento.
Mas algo nele havia mudado.
Não perdera o controle.
Pela primeira vez, escolhera não usá-lo.
Ewan parou diante da janela, observando o pátio abaixo.
Se eu cair… pensou, sério.
Será porque permiti.
E, surpreendentemente,
essa ideia não lhe pareceu um erro
apenas um risco que, talvez, valesse a pena