O salão do desjejum estava silencioso, iluminado pela luz fria da manhã que atravessava as cortinas pesadas.O som discreto de talheres e o murmúrio distante dos criados eram quase irrelevantes.
Rowena sentou-se à mesa com postura perfeita demais.
Perfeita ao ponto de denunciar o desconforto.
Ewan percebeu imediatamente.
Ela evitava encará-lo por tempo excessivo. Levava a xícara aos lábios com cuidado calculado. Os dedos ajustavam o tecido da manga repetidas vezes um gesto pequeno, quase imperceptível.
Ele a observava por cima da borda da taça.
O lobo aprende a ler sinais.
Ewan já conhecia os dela.
O modo como inclinava levemente a cabeça quando refletia demais.
O pequeno suspiro antes de responder algo que não queria explicar.
O jeito como prendia a respiração por um segundo quando estava consciente demais de si.
Ela estava sem graça.
Não por medo.
Por lembrança.
Ewan notou também o contrário: ela o observava mais do que de costume. Não diretamente, mas em reflexos no brilho da faca, no metal da jarra, no canto do olho.
Como se estivesse aprendendo algo novo.
Ou alguém.
— Dormiste bem? — perguntou ele, por fim, em tom neutro.
Rowena quase engasgou com o chá.
— S-sim. Quero dizer… melhor do que o habitual— Rowena apertou os olhos sem graça.— Quer dizer, sim..meu rei.
Ele assentiu, como se aquilo fosse apenas um dado estratégico.
— Bom.
Silêncio novamente.
Rowena ajeitou-se na cadeira.
— E tu?
— Dormi o suficiente.
Resposta típica de Ewan.
Ela sorriu de leve, quase aliviada.
Ele percebeu.
E decidiu não dizer nada.
Não mencionou a proximidade.
Não comentou o calor compartilhado.
Não apontou o motivo do embaraço dela.
Porque o lobo sabia:
algumas coisas se desfazem quando nomeadas cedo demais.
Ewan passou a observar outros detalhes.
O modo como Rowena segurava a faca, firme, correta.
Como avaliava os alimentos antes de comer, hábito de quem sempre pensou em segurança.
Como seus olhos se voltavam instintivamente para ele quando um criado se aproximava demais.
Proteção mútua, ainda silenciosa.
— Tens reunião com o conselho hoje — disse ela, buscando terreno seguro.
— Tenho.
— Eles ainda estão irritados comigo?
— Estão sempre irritados. Hoje apenas mais barulhentos.
Ela suspirou.
— Lamento.
Ewan ergueu o olhar, direto.
— Não lamente. Fizeste o que eu faria.
Ela o encarou por um segundo mais longo.
— Isso… significa muito.
Ele inclinou levemente a cabeça, aceitando o reconhecimento sem dramatizar.
O desjejum terminou sem incidentes.
Quando se levantaram, houve um breve instante de hesitação quem sairia primeiro, quem abriria espaço.
Acabaram caminhando lado a lado.
Nenhum toque.
Nenhuma palavra a mais.
Mas o entendimento estava ali.
Ewan sabia: Rowena lembrava da noite.
Rowena sabia: Ewan também.
E o fato de ambos escolherem o silêncio não era fuga.
Era cuidado.
Ewan se despediu com um leve aceno de cabeça e seguiu para a reunião com o conselho.
Rowena caminhava pelos corredores internos quando ouviu vozes abafadas vindas da cozinha. Diminuiu o passo sem perceber, não por curiosidade vulgar, mas por instinto político.
— …dizem que o rei passa como sombra — comentou uma criada.
— Não sorri, não fala… só observa — respondeu outra.
— Os camponeses têm medo. Respeitam, claro. Mas dizem que ele é frio demais.
— Lobo de guerra — murmurou alguém. — Não rei de gente.
Rowena sentiu um aperto breve no peito.
Não de indignação.
De compreensão.
Ela sabia quem Ewan era na guerra. Sabia também quem ele era nos silêncios, nas madrugadas, nos gestos contidos que ninguém via.
Eles só conhecem o lobo, pensou.
E isso, cedo ou tarde, se tornaria um problema.
À tarde, quando o sol já descia lento e dourado sobre as muralhas, Rowena encontrou Ewan na sala de mapas. Ele analisava relatórios, a postura rígida de sempre.
— Preciso falar contigo — disse ela.
Ele ergueu o olhar imediatamente.
— Aconteceu algo?
— Ainda não. — respondeu. — Mas pode acontecer se não agirmos.
Ewan fechou o rolo de pergaminho.
— Fala.
Rowena respirou fundo.
— Os camponeses têm medo de ti.
Ele não pareceu surpreso.
— Medo mantém a ordem.
— Medo mantém silêncio — corrigiu ela. — Não lealdade.
Ewan a observou com atenção.
— Ouviste isso onde?
— Não importa. Importa que é real.
Ela deu alguns passos pelo salão, organizando as palavras.
— Eles veem o rei como o lobo das batalhas. Não veem o homem que poupou Edric. Nem o que protegeu o reino por anos sem perder uma guerra. Muito menos o que cuida dos próprios feridos.
— Não preciso que me amem — disse Ewan, firme.
Rowena parou diante dele.
— Mas precisas que confiem.
Silêncio.
Ela continuou, mais suave.
— Quero fazer um passeio a pé pelo vilarejo. Sem armadura pesada. Sem escolta excessiva. Apenas nós.
Ewan franziu o cenho imediatamente.
— É arriscado.
— É necessário.
— Qualquer um pode se aproximar demais.
— Justamente. — respondeu ela. — Um rei que não pode ser visto de perto se torna lenda. E lendas assustam.
Ewan se levantou, cruzando os braços.
— Quer que eu mostre além do lobo?
— Precisam ver. — corrigiu ela. — E tu precisas permitir.
Ele ficou em silêncio por um longo momento.
— Caminhar entre eles… — murmurou. — Sem espada na mão.
— A espada estará ali — disse Rowena, tocando o peito dele. — Só não visível, por favor.
O gesto a surpreendeu tanto quanto a ele.
Ela retirou a mão imediatamente.
— Desculpa.
Ewan não comentou o toque.
— Quando? — perguntou.
Rowena piscou.
— Aceitas?
— Aceito avaliar o risco. — respondeu ele. — E confio no teu instinto político.
Ela sorriu, genuína.
— Amanhã ao entardecer, então.
Ewan assentiu.
— Mas se algo sair do controle—
— Confia em mim — disse ela, firme. — Assim como confio em ti...cegamente.
Os olhos dele escureceram por um instante.
— Muito bem, rainha. — disse por fim. — Mostremos a eles o que existe além do lobo.
Rowena inclinou a cabeça em reverência leve.
E enquanto o sol se punha além das muralhas,
o rei e a rainha traçavam uma estratégia que não envolvia aço
mas presença