LIX

898 Words
Alguns dias depois, o inverno deu uma breve trégua. O céu permanecia cinzento, mas o vento estava mais brando quando a comitiva real deixou o castelo MacAllister. Bandeiras tremulavam nos estandartes, e a carruagem n.egra, adornada apenas com o brasão do lobo, seguia firme pelas estradas de pedra. Dentro dela, Ewan e Rowena sentavam-se frente a frente. Não havia a distância formal de antes. Rowena ajeitava as luvas enquanto observava o marido por sobre os cílios. Ewan vestia roupas formais de corte impecável, mas simples espada presa ao lado, como sempre. Ainda assim, havia algo diferente nele. Menos tenso. Mais presente. — Eles nos observarão com atenção — disse Ewan, rompendo o silêncio. — Mais do que aos noivos. Rowena sorriu levemente. — Um casamento real sempre é um espetáculo — respondeu. — Ainda mais quando envolve um rei que muitos consideram… imprevisível. — Têm medo — corrigiu ele. — Tinham — disse ela. — Agora estão curiosos. Ewan inclinou levemente a cabeça, aceitando. — O rei Alaric é prudente — continuou. — Mas sua corte não é. Procurarão sinais de fraqueza. Rowena apoiou a mão sobre a dele, gesto simples, mas deliberado. — Então não lhes daremos fraqueza — disse. — Daremos União. Ele olhou para a mão dela sobre a sua. Não a afastou. — Se alguém ousar desrespeitá-la… — começou. — Eu saberei lidar — interrompeu Rowena, o olhar firme. — Mas agradeço saber que você estará atento. A carruagem diminuiu a velocidade. Do lado de fora, torres altas surgiam no horizonte o reino vizinho, próspero, orgulhoso de suas muralhas claras e bandeiras coloridas. O som de sinos ecoava, anunciando o casamento real. Quando desceram da carruagem, o murmúrio foi imediato. Cortesãos inclinavam a cabeça. Nobres cochichavam. Olhares curiosos seguiam cada passo do casal. Rowena vestia um traje elegante em tons profundos de verde e prata, que realçava sua postura firme. Não havia excesso. Apenas presença. Ewan ofereceu o braço a ela. Um gesto pequeno. Mas visto por todos. — Eles veem — murmurou Rowena, enquanto caminhavam. — Que vejam — respondeu Ewan. — O reino precisa entender que você não caminha atrás de mim. Entraram no grande salão do casamento sob música e luz. O ouro das paredes refletia o brilho das tochas, e a nobreza local se reunia em celebração. Os noivos ainda não haviam chegado. — Lembre-se — disse Ewan, em tom baixo —, aqui somos convidados. Mas nunca frágeis. Rowena sorriu. — Nunca. O salão já estava tomado por música e risos quando a celebração realmente começou. Taças de vinho circulavam, servos atravessavam o espaço com bandejas prateadas, e os convidados se espalhavam em pequenos grupos todos, invariavelmente, atentos ao casal real que viera de terras vizinhas. Ewan permanecia atento, como em um campo de batalha. Era instinto. Observava ombros que se inclinavam demais, sorrisos longos demais, homens que se aproximavam com perguntas que não pediam respostas, mas mediam forças. Reis menores, generais aposentados, conselheiros disfarçados de nobres curiosos. Foi então que ele começou a perceber. Sempre que alguém tentava reduzir a distância além do necessário, Rowena se movia. Não de forma abrupta. Nem agressiva. Ela simplesmente se colocava. Um meio passo à frente. Um giro suave do corpo. Uma mão delicadamente apoiada no braço de Ewan, enquanto seu olhar firme se fixava no interlocutor. — Majestade — disse um lorde alto, aproximando-se demais ao falar de fronteiras e alianças. Rowena sorriu antes mesmo de Ewan responder. — Meu esposo prefere discutir política em ambiente adequado — disse, com voz calma e educada. — Hoje celebramos uma união, não estratégias. O lorde piscou, pego de surpresa, e recuou um passo. Ewan observou em silêncio. Outro se aproximou mais tarde, um homem de sorriso fino e olhos calculistas. — Dizem que o Lobo de Guerra não teme nada — comentou, chegando perto demais, como quem testa limites. Rowena rapidamente se colocou a frente de Ewan, o protegendo com o próprio corpo. — Dizem muitas coisas — respondeu. — Mas poucos sobrevivem para confirmá-las. O sorriso do homem desapareceu, substituído por um aceno respeitoso antes de se afastar. Ewan sentiu algo diferente. Não era apenas gratidão. Era reconhecimento. Ela não o protegia como alguém frágil. O protegia como uma rainha protege seu reino. — Está fazendo isso de propósito — murmurou ele, quando ficaram sozinhos por um instante. Rowena ergueu uma sobrancelha, fingindo inocência. — Fazendo o quê? — Impedindo que cheguem perto demais. Ela deu um pequeno gole no vinho. — Você atrai curiosos como um campo de batalha atrai corvos — respondeu. — Alguém precisa manter distância. Ewan soltou um quase sorriso algo raro, breve, mas real. — Não pediu permissão — observou. — Sou sua rainha — disse ela simplesmente. — Não peço para defender o que é meu. — Estas me dizendo que sou seu ? Como um objeto?— Ewan brincou. Rowena sorriu. — E não é, meu rei ? A música mudou, tornando-se mais lenta, mais solene. Os noivos surgiram no alto do salão, recebendo aplausos, mas Ewan ainda observava Rowena de soslaio. Ela estava atenta, estratégica, lendo o ambiente com a mesma precisão que um general leria o terreno. E, naquele instante, Ewan compreendeu algo que o surpreendeu mais do que qualquer batalha: Rowena não era apenas sua companheira. Era seu escudo social, sua voz diplomática, sua presença estabilizadora e acima de tudo, sua mulher
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