LVII

691 Words
A noite caiu pesada sobre o castelo. O inverno não veio gentil veio como guerra. O vento uivava contra as muralhas, infiltrava-se por frestas antigas, fazia as tochas do corredor tremularem como se quisessem fugir. Mesmo com cobertores grossos e peles, o frio parecia encontrar caminho até os ossos. Rowena dormia. Ou quase. Seu corpo começou a tremer de forma sutil, primeiro nos pés, depois nos ombros. Um frio que não despertava de imediato, mas roubava calor aos poucos. Ewan percebeu antes que ela acordasse. Ele já estava desperto sempre estava. Virou-se lentamente, com cuidado para não acordá-la, e aproximou-se mais. Passou um braço firme ao redor dela, puxando-a contra o próprio corpo, como quem protege algo precioso demais para arriscar. Rowena murmurou algo incompreensível, o rosto buscando instintivamente a fonte de calor. Ewan inclinou a cabeça, permitindo que ela se encaixasse ali, sob seu queixo, o corpo dela pequeno contra o dele. O tremor cessou. Ele ficou imóvel, respirando no mesmo ritmo que ela, sentindo o frio ceder pouco a pouco. E, ali no escuro, o Lobo pensou. Pensou em como aprendera a gostar dela sem perceber. Não foi de uma vez. Não foi como os bardos cantam. Foi no dia em que ela enfrentou o conselho para defender ele. Na noite em que cuidou dele febril sem pedir nada em troca. No modo como ela falava com os camponeses, sem medo, sem desprezo. Na forma como ria dele… e o fazia querer entender o motivo. Na forma como o desafiava no campo de batalha como se não soubesse o que ele era capaz, mas ela sabia. Ele nunca planejara aquilo. Nunca acreditara que o amor pudesse entrar pela porta da frente. Sempre achou que fosse um erro, uma fraqueza algo que se evita. Mas Rowena não pediu permissão. Ela ficou. Mesmo quando ele tentou manter ela do lado de fora. Mesmo quando doeu. Ewan apertou o abraço um pouco mais, não para possuir, mas para proteger. — Eu aprendi — pensou, em silêncio. — Contra a minha vontade… mas aprendi. Rowena respirava tranquila agora, aquecida, segura. E naquela noite de inverno brutal, o Lobo entendeu algo que nenhuma batalha lhe ensinara: O amor não o tornara fraco. Apenas o ensinara a ficar. Rowena despertou devagar, como quem volta de um lugar distante. A primeira coisa que sentiu não foi o frio foi o calor. O braço firme ao redor de sua cintura, o peito de Ewan subindo e descendo sob sua bochecha, o cheiro familiar de madeira, metal e inverno. Ela não se mexeu de imediato. Ficou ali, observando-o. A luz fraca da madrugada desenhava o rosto dele em tons suaves, tirando por um instante a dureza que o mundo conhecia tão bem. As marcas de batalha, as linhas de tensão… tudo parecia menos ameaçador quando ele dormia. Ou fingia dormir. Rowena ergueu a mão devagar e tocou o rosto de Ewan, com cuidado, como se ele pudesse quebrar. Passou o polegar pela linha da barba, pela cicatriz antiga perto do maxilar. Passamos por tanto, pensou. Silêncios. Ausências. Medo. Orgulho. Dor. E, ainda assim, ali estavam. Não presos a um acordo. Não unidos por conveniência. Mas em algo que finalmente parecia… real. Um casamento de verdade. Ela sorriu sozinha com esse pensamento, sentindo os olhos marejarem levemente. Então se inclinou, aproximando os lábios do ouvido dele, a voz quase um sopro: — Você sabe que eu sei que você está fingindo dormir… não sabe? O corpo dele reagiu antes do sorriso. Um canto da boca se curvou, traindo-o. Ewan abriu os olhos devagar, o olhar ainda pesado de sono ou da encenação mas agora quente. — Esperta — murmurou, a voz rouca. — Perigosamente esperta. Rowena riu baixo, aquela risada que ele já reconhecia como vitória. — Desde o início — respondeu. Ele puxou-a mais para perto, sem dizer nada por um momento, apenas encostando a testa na dela. Ewan nunca disse “eu te amo”. Mas naquele sorriso lento, naquele olhar que não fugia, naquela forma de mantê-la junto mesmo acordado… Rowena entendeu. E, pela primeira vez em muito tempo, sentiu que não precisava de palavras.
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