O castelo despertava lentamente naquela manhã cinzenta, o inverno já começando a ceder, mas ainda deixando o ar cortante. Ewan caminhava pelos corredores de pedra com dois guardas atrás de si, o passo firme, o corpo já recuperado o bastante para sustentar novamente a postura do rei alto, imponente, inacessível.
O lobo de gelo.
Virou um dos corredores laterais…
e então a viu.
Rowena vinha em sua direção.
Por um instante apenas um o mundo pareceu suspenso.
Ela parou.
Os olhos dela encontraram os dele.
Não havia raiva.
Não havia súplica.
Não havia dor visível.
Havia surpresa.
E algo ainda mais difícil de suportar: controle.
Rowena ficou imóvel por alguns segundos, como se o corpo tivesse esquecido o que fazer. O coração, porém, não. Ele bateu forte demais, rápido demais mas isso ninguém viu.
Ewan sentiu o golpe.
Porque naquele breve instante ele percebeu:
ela não esperava mais encontrá-lo.
Rowena respirou fundo.
Endireitou os ombros.
Recompôs o rosto.
E, sem dizer uma única palavra, fez uma reverência perfeita digna, distante, formal.
Como se estivesse diante de um rei.
Não de um marido.
Não do homem que um dia aquecera no frio.
— Vossa Majestade — disse apenas com o gesto, não com a voz.
E então passou por ele.
Os passos dela ecoaram pelo corredor, firmes, seguros, sem hesitação.
Ewan ficou parado.
Os guardas também.
Nenhum dos dois ousou se mover ou falar.
O ar parecia pesado demais para os pulmões.
Ela não perguntou como ele estava.
Não o acusou.
Não o chamou.
Ela simplesmente… seguiu em frente.
E aquilo foi pior do que qualquer grito que ele já ouvira dela.
— Majestade? — um dos guardas murmurou, hesitante.
Ewan não respondeu.
Ele ainda estava olhando para o ponto onde Rowena estivera segundos antes.
O lobo, que enfrentara exércitos sem vacilar, sentiu algo estranho apertar o peito.
Não era dor física.
Não era fraqueza.
Era a certeza tardia de que o gelo que ele erguera entre eles
finalmente havia congelado também o coração dela.
E, pela primeira vez na vida
Ewan MacAllister desejou que alguém tivesse gritado com ele.
Porque o silêncio de Rowena…
soou como despedida.
Ewan permaneceu imóvel por longos segundos depois que Rowena passou.
Por fora, nada havia mudado.
A postura firme.
O rosto indecifrável.
O rei intacto.
Por dentro, o impacto foi devastador.
Ela não o olhara como antes.
Não havia curiosidade, nem calor, nem aquela atenção silenciosa que sempre existira entre eles.
Ela o vira… e o colocara no lugar que ele mesmo escolhera ocupar.
Rei.
Apenas rei.
O lobo sentiu algo se partir.
— Foi isso, então — pensou, a mandíbula travada. — Você aprendeu a viver sem mim.
Ewan percebeu, com uma clareza c***l, que o maior erro que cometera não fora afastá-la quando estava ferido…
Fora continuar afastando-a quando já podia caminhar até ela.
O medo de ser visto fraco o levara a algo pior:
ser visto como alguém que não se importa.
— Eu perdi você — reconheceu em silêncio, algo que jamais admitiria em voz alta. — Não para outro homem… mas para a indiferença.
Ewan voltou a andar, o passo pesado agora, embora ninguém ao redor ousasse notar.
O lobo seguia em frente.
Mas algo dentro dele uivava.
Rowena só respirou quando dobrou o corredor.
O controle que mantivera diante dele desmoronou por dentro, embora o corpo permanecesse ereto, digno, impecável.
O coração batia rápido demais.
As mãos tremiam levemente, escondidas nas mangas do vestido.
Ela encostou os dedos na parede fria por um instante, fechando os olhos.
— Não — disse para si mesma, em silêncio. — Não agora. Não aqui.
Ela não permitiria que ele visse.
Aquele homem que ela esperara por meses, que amara em silêncio, que defendera contra conselhos e reinos… escolhera o gelo.
E ela aprendera.
Aprendera que amor não sustentado se torna ferida aberta.
Aprendera que esperar por alguém que se afasta é uma forma lenta de se perder.
— Eu tentei — pensou, o peito apertado. — Tentei mais do que devia.
Não o odiava.
Isso doía ainda mais.
Porque parte dela ainda queria correr atrás, perguntar por quê, tocar seu rosto, confirmar que ele estava vivo.
Mas outra parte a parte que aprendera a lutar, a governar, a sobreviver foi mais forte.
— Se eu continuar… vou quebrar.
Rowena seguiu andando.
Passo após passo, afastando-se dele não por orgulho…
Mas por autopreservação.
E naquele castelo de pedra, dois soberanos caminhavam em direções opostas,
ambos feridos,
ambos orgulhosos,
ambos acreditando cada um à sua maneira
que talvez fosse tarde demais