LXXX

939 Words
Rowena foi naquele dia sem anunciar nada a ninguém. Não discutiu. Não exigiu. Não implorou. Apenas caminhou até a porta dos aposentos do rei… e ficou ali. De pé. As mãos cruzadas à frente do corpo, a postura ereta, o olhar fixo na madeira pesada da porta que a separava de Ewan. Os guardas trocaram olhares incertos. — Vossa Majestade… — um deles murmurou. — A senhora não pode ficar aqui. Rowena não respondeu. As horas passaram. Criados passaram em silêncio. Curandeiros entraram e saíram. O castelo seguiu seu ritmo. E ela continuou ali. Lá dentro, Ewan sentiu. Sentiu antes mesmo de lhe dizerem. A respiração mudou. O ar ficou denso. O lobo despertou. — Ela está aí, não está? — perguntou, a voz baixa, dura. O curandeiro hesitou. — Sim, majestade. Desde o amanhecer. Ewan fechou os olhos. Por um instante apenas um a vontade de levantar, ignorar a dor, abrir a porta e puxá-la para dentro quase venceu. Quase. — Tirem-na dali — ordenou, seco. — Agora. Os guardas se aproximaram de Rowena. — Minha rainha… — começou um deles, desconfortável. — O rei ordenou que a senhora se retirasse. Ela ergueu o olhar lentamente. — Ele mandou que vocês me tirassem — respondeu com calma gélida. — Ou pediu que eu fosse embora? Silêncio. — Ele foi claro — disse o outro, engolindo em seco. — Devemos levá-la de volta aos seus aposentos. Rowena respirou fundo. — Então façam. Não resistiu. Não lutou. Não ergueu a voz. Mas, ao se virar, colocou a mão na porta. A madeira estava fria. — Diga a ele — falou baixo, sabendo que Ewan ouviria mesmo através da dor — que não sou feita de vidro. Que não fui forjada para virar o rosto quando o homem que escolhi sangra. Os guardas a conduziram corredor adentro. Dentro do quarto, Ewan explodiu. — MALDIÇÃO! — tentou se mover, a dor arrancando um grunhido bruto de sua garganta. O curandeiro correu para segurá-lo. — Majestade, as costelas— — Solte. A voz não era de rei. Era de lobo ferido. Ewan ficou sentado, o peito subindo com dificuldade, os olhos fixos na porta que já estava fechada. Ele vencera reinos. Derrubara exércitos. Quebrara homens mais velhos e mais fortes. Mas ali… ali ele perdera algo sem sequer lutar. Rowena voltou aos seus aposentos em silêncio. Assim que a porta se fechou, a força a abandonou. Ela se sentou à beira da cama, os dedos tremendo levemente pela primeira vez desde que se tornara rainha. — Você não pode me afastar para sempre, Ewan — sussurrou para o vazio. — Eu não sou uma espectadora da sua guerra… eu sou sua escolha. E, naquela noite, pela primeira vez desde que ele partira para a batalha, Rowena chorou. Ewan, do outro lado do castelo, não dormiu. Porque o lobo descobrira algo pior que a dor dos ferimentos: a distância que ele mesmo criara entre si e a única pessoa que não o temia. Os dias seguintes foram ainda piores. Rowena voltou. Uma vez. Duas. Três. Sempre com o mesmo desfecho. No segundo dia após ter sido retirada à força, ela tentou entrar ao amanhecer. Os corredores ainda estavam frios, o castelo meio adormecido. Ela caminhou rápido, decidida, ignorando os olhares dos criados. Quando tentou abrir a porta, as lanças se cruzaram diante dela. — Saiam — ordenou, a voz firme. — Não podemos, minha rainha — respondeu um dos guardas, visivelmente desconfortável. — Ordens diretas do rei. — Então chamem o rei — rebateu. — Eu falo com ele. Silêncio. Ela tentou avançar. Os guardas a seguraram pelos braços com cuidado, respeito… mas força suficiente para detê-la. — Tirem as mãos de mim — disse, o tom subindo perigosamente. Lá dentro, Ewan ouviu. O som abafado. A mudança no ar. A presença dela tão próxima que seu instinto de guerreiro se acendeu como se o inimigo estivesse à porta. Ele cerrou os dentes. Não se mexeu. No terceiro dia, Rowena não pediu. Empurrou. — Vocês não vão me impedir para sempre! — gritou, a voz ecoando pelo corredor de pedra. Os guardas a seguraram novamente, agora com mais firmeza. — Soltem-me! — ela lutou, o orgulho ferido. — Eu sou a rainha deste reino! — E ele é o rei — respondeu um deles, quase suplicando que ela entendesse. — E está ferido. Foi quando ela perdeu o controle. — EU NÃO ME CASEI COM UM TRONO! — gritou, as palavras cortando o ar. — EU ME CASEI COM UM HOMEM! Dentro do quarto, o mundo de Ewan ruiu. O grito atravessou a porta como uma lâmina. Ele tentou se levantar falhou. Tentou respirar fundo doeu. A mão tremia contra o lençol. — Abram… — murmurou, a voz rouca. O curandeiro se virou alarmado. — Majestade, não— — ABRAM ESSA MALDITA PORTA! Mas já era tarde. Rowena foi retirada mais uma vez. Dessa vez, gritando. Não de raiva. De dor. — Ewan! — sua voz ecoou pelo corredor. — Você não tem o direito de me excluir! — Eu lutei ao seu lado! Governei ao seu lado! Eu sangrei por esse reino também! Os guardas a levaram, e o som de seus passos se perdeu escada abaixo. Ewan ficou imóvel. Os olhos fixos na porta. O peito queimando e não era só pelos ferimentos. O lobo finalmente entendeu. Aquela não era uma forma de proteção. Era punição. Não só oara ela. Para si mesmo. Ewan MacAllister desejou não ser rei, não ser lobo, não ser símbolo algum… Apenas um homem forte o bastante para abrir uma porta e dizer: Eu ainda estou aqui
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