LXXXI

826 Words
A noite caiu pesada sobre o castelo. O quarto de Ewan estava mergulhado em sombras, iluminado apenas pelo fogo baixo da lareira. O cheiro de ervas e sangue seco ainda impregnava o ar. Ele estava acordado. Sempre. Os olhos claros fixos no teto de pedra, a mente muito mais desperta do que o corpo ferido permitiria. Rowena não lhe saía da cabeça. A voz dela ainda ecoava não como rainha, mas como mulher. Como alguém que o escolhera quando ele próprio não acreditava ser digno de escolha. E então, como uma lâmina finalmente encontrando a brecha da armadura, a verdade se impôs. Ele a amava. Não como um juramento político. Não como dever. Mas como algo que o tornava vulnerável demais. O lobo sabia reconhecer o perigo. E Rowena… era o único perigo que ele não conseguia afastar com uma espada. Ewan fechou os olhos, o maxilar travado. Se ela o visse assim… Deitado. Quebrado. Dependente de curandeiros. Respirando com dificuldade como um velho antes do tempo. Não. Ele enfrentara exércitos inteiros sem hesitar, mas aquela ideia o paralisava. — Você não pode me ver fraco… — murmurou no vazio. Porque, para Ewan, fraqueza nunca fora apenas dor física. Era perder o controle. Era permitir que alguém enxergasse o homem por trás do lobo. E se Rowena visse isso… Ele não temia o desprezo. Temia algo muito pior. Que ela se preocupasse. Que sofresse. Que carregasse o peso de sua possível perda. Ele preferia ser odiado. Preferia ser chamado de frio, c***l, distante. Qualquer coisa… menos ser a causa da dor nos olhos dela. Ewan virou o rosto para a porta fechada. Sabia exatamente onde ela estaria naquela hora. Talvez sentada à beira da cama. Talvez andando de um lado para o outro, inquieta. Talvez tentando ser forte como sempre fora. Ela aprendera a lutar. A governar. A enfrentar homens que a subestimavam. Tudo isso… por ele. O peito de Ewan apertou, e não era só pela costela quebrada. — Eu amo você — pensou, as palavras pesadas demais para dizer em voz alta. Amar, para ele, nunca fora promessa de conforto. Era risco. Era entrega. Era baixar a guarda. E ele ainda não conseguia. Não agora. Não enquanto estivesse deitado, sangrando por dentro, incapaz de proteger sequer a si mesmo. O lobo preferia sangrar em silêncio a permitir que a única pessoa que amava o visse cair. A noite seguinte chegou mais fria do que as anteriores. O vento uivava do lado de fora do castelo, atravessando frestas antigas, fazendo as chamas da lareira tremerem como se também sentissem o inverno se aprofundar. A lua estava alta, pálida, quase c***l. Ewan estava acordado. De novo. O corpo doía menos do que nos primeiros dias, mas a mente… a mente era um campo de batalha que não cessava. Ele pensou em Rowena. Pensou nela tremendo sob os cobertores grossos. Pensou em como, mesmo no castelo, o frio parecia sempre encontrá-la primeiro. Pensou em como ela fingia não sentir, do mesmo modo que ele fingia não doer. A mão dele se fechou lentamente sobre o lençol. — Você odeia o frio… — murmurou, quase como se ela pudesse ouvi-lo. Recordou-se do inverno passado, dela se aproximando no sono, buscando calor sem perceber. Do peso leve da cabeça em seu peito. Do modo como o mundo ficara estranhamente silencioso naquele instante, como se nada mais importasse além de protegê-la. Agora, ela estava do outro lado de paredes grossas. Afastada por ordem dele. O lobo sempre soubera suportar o frio. No campo de batalha, ele era um aliado. Afiava os sentidos. Mantinha a mente clara. Mas aquela noite… o frio não vinha de fora. Vinha da ausência. Ewan virou o rosto, encarando a porta fechada mais uma vez. — Eu deveria deixá-la entrar — pensou, os dentes cerrados. — Deveria deixar você ver que ainda estou vivo. Mas a imagem vinha logo depois, implacável. Rowena ajoelhada ao lado da cama. Os olhos atentos demais. A mão tocando suas bandagens. A expressão de medo contido não por ela… mas por ele. O peito de Ewan apertou. Não. Ele não suportaria isso. Preferia que ela gritasse com ele. Preferia que o odiasse por afastá-la. Preferia carregar sozinho aquela dor. Porque o amor que sentia por Rowena não era suave. Era feroz. Instintivo. Protetor demais para ser gentil. O vento soprou mais forte, fazendo a janela vibrar. Ewan fechou os olhos. — Aguente só mais um pouco — disse em pensamento, como se falasse diretamente com ela. — Quando eu puder ficar de pé… quando eu puder ser o lobo de novo… A frase morreu antes de terminar. Porque, no fundo, ele sabia. Rowena não queria o lobo. Ela queria o homem. E essa era a batalha mais difícil que Ewan MacAllister já enfrentara. Naquela noite gelada, o grande lobo da Escócia medieval permaneceu imóvel em sua cama, lutando não contra exércitos… mas contra o medo de deixar alguém amá-lo por inteiro
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