LXXVIII

932 Words
O mapa se estendia sobre a grande mesa de carvalho como uma ferida aberta. Ewan estava ali desde antes do amanhecer. Velas marcavam rios, montanhas e vilas com sombras trêmulas. Pequenas pedras negras indicavam fortalezas inimigas; peças de madeira clara, os postos do reino MacAllister. O lobo havia despertado por completo. — Dunrath confia demais no terreno plano — murmurou Ewan, movendo uma peça com dois dedos. — Marcham em linha, confiantes na força bruta. Fergus, ao seu lado, assentiu. — Cavalaria pesada. Homens grandes. Pouca paciência. — Exatamente. Ewan deslocou outra peça. — Nós não os enfrentaremos assim. Ele começou a falar, e a sala se calou. — Não marcharemos como um exército único. — Sua voz era baixa, firme. — Dividiremos as forças em três frentes móveis. Ele apontou o norte do mapa. — Aqui, as mulheres mais ágeis. Ataques rápidos, desgaste, retirada imediata. Nada de confronto direto. Rowena observava em silêncio, entendendo cada linha antes mesmo de ser dita. — Ao sul — continuou Ewan —, os homens mais jovens e os camponeses treinados. Conhecem os campos, as trilhas, os atalhos. Serão nossos olhos e nossas armadilhas. Fergus franziu o cenho, já prevendo. — Emboscadas noturnas. — Exato. Por fim, Ewan tocou o centro do mapa. — Eu ficarei aqui. — O dedo marcou a passagem estreita entre montanhas. — Onde a força deles se tornará inutilidade. Um dos comandantes hesitou. — Senhor… isso exige confiança absoluta. Soldados que pensem por conta própria. Ewan levantou os olhos. — Eu não treinei soldados. Treinei pessoas que sabem por que lutam. Rowena deu um passo à frente. — Dunrath acredita que um reino se vence cortando a cabeça do rei — disse ela. — Não entenderam ainda que este reino não se ajoelha. Horas depois, já a sós, Rowena aproximou-se da mesa. — Você está cansado — disse, tocando-lhe o ombro. — Estou desperto — corrigiu ele. Ela sorriu de lado. — É diferente. Ewan pousou a mão sobre a dela. — Se eu falhar… — Não falhará — Ela o interrompeu, firme. — Mas se algo der errado, este plano ainda vive. Ele não depende só de você. Ele a olhou por um longo momento. — Foi isso que você fez, não foi? — O quê? — Me obrigou a construir um reino que sobreviveria até à minha ausência. Rowena sustentou o olhar. — Não por ausência. — disse suave. — Por legado. Naquela noite, os estandartes foram preparados. Não apenas o lobo. Mas símbolos novos mãos dadas, espadas cruzadas, mães e filhas lado a lado. Ewan caminhou entre os soldados, homens e mulheres, crianças mais velhas observando com olhos atentos. — Não prometo glória — disse ele. — Prometo que lutaremos como sempre vivemos: juntos. Nenhum grito. Apenas punhos cerrados contra o peito. A matilha estava pronta. Dunrath marcharia não contra um rei… …mas contra um reino inteiro que sabia lutar. Rowena o observava à distância. Não o Ewan que dividia o desjejum com ela em silêncio confortável. Nem o homem que escutava os camponeses com atenção paciente. Nem aquele que, à noite, aceitava seu corpo buscando calor como se ali fosse o único lugar seguro. Diante da guerra… outro Ewan surgia. Ele caminhava pelo pátio com passos medidos, quase felinos. A postura mais rígida, o olhar fixo em pontos que ninguém mais parecia enxergar. Soldados se endireitavam ao vê-lo passar; conversas morriam antes mesmo de começarem. O lobo estava à superfície. Rowena sentiu um aperto no peito. Não era medo dele. Era o peso de compreender o preço. Ela o viu corrigir a posição de um escudo sem dizer uma palavra. Apenas um toque firme. Viu-o observar as mulheres treinando não com orgulho visível, mas com cálculo, avaliando quem sobreviveria. A ternura se retraía. A humanidade se organizava em compartimentos. Tudo nele se tornava funcional. É assim que ele sobreviveu, pensou Rowena. É assim que não morreu quando outros morreram. Mas ainda assim… doía. Quando Ewan entrou na sala de armas, ela o seguiu. O som metálico ecoava enquanto ele verificava lâminas, uma a uma. — Você muda — disse, enfim. Ewan não levantou os olhos. — Eu me preparo. — Não — ela corrigiu, a voz calma, mas firme. — Você se fecha. O silêncio se estendeu. — Se eu não fizer isso… — ele começou, mas parou. Rowena aproximou-se mais. — Você acha que eu não vejo? — perguntou baixo. — Você apaga partes suas como se fossem fraquezas. Ewan finalmente a encarou. Havia gelo ali. Mas também cansaço. — Guerra não permite espaço para sentir. Rowena respirou fundo. — Permite, sim. — Ela tocou o peito dele, exatamente sobre o coração. — Só não permite que você se perca. Por um instante, o lobo rosnou por dentro. Depois… cedeu um passo. — Se eu cair — disse ele, com voz contida —, não posso cair por hesitação. — E se você vencer sem saber mais quem é? — ela rebateu. O olhar de Ewan vacilou. Apenas um segundo. Mas Rowena viu. Ela encostou a testa na dele. — Eu não quero que você deixe de ser o lobo. — murmurou. — Quero que ele volte para mim quando tudo acabar. A mão dele subiu, segurando-a com força suficiente para provar que ainda estava ali. — Eu volto — prometeu. — Sempre volto. Rowena fechou os olhos, sabendo que aquela promessa carregava sangue, estratégia… e amor não dito. E, pela primeira vez, ela entendeu: A guerra não tirava Ewan dela. Mas o transformava em algo que só ela parecia lembrar como trazer de volta
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