O mapa se estendia sobre a grande mesa de carvalho como uma ferida aberta.
Ewan estava ali desde antes do amanhecer.
Velas marcavam rios, montanhas e vilas com sombras trêmulas. Pequenas pedras negras indicavam fortalezas inimigas; peças de madeira clara, os postos do reino MacAllister.
O lobo havia despertado por completo.
— Dunrath confia demais no terreno plano — murmurou Ewan, movendo uma peça com dois dedos. — Marcham em linha, confiantes na força bruta.
Fergus, ao seu lado, assentiu.
— Cavalaria pesada. Homens grandes. Pouca paciência.
— Exatamente.
Ewan deslocou outra peça.
— Nós não os enfrentaremos assim.
Ele começou a falar, e a sala se calou.
— Não marcharemos como um exército único. — Sua voz era baixa, firme. — Dividiremos as forças em três frentes móveis.
Ele apontou o norte do mapa.
— Aqui, as mulheres mais ágeis. Ataques rápidos, desgaste, retirada imediata. Nada de confronto direto.
Rowena observava em silêncio, entendendo cada linha antes mesmo de ser dita.
— Ao sul — continuou Ewan —, os homens mais jovens e os camponeses treinados. Conhecem os campos, as trilhas, os atalhos. Serão nossos olhos e nossas armadilhas.
Fergus franziu o cenho, já prevendo.
— Emboscadas noturnas.
— Exato.
Por fim, Ewan tocou o centro do mapa.
— Eu ficarei aqui. — O dedo marcou a passagem estreita entre montanhas. — Onde a força deles se tornará inutilidade.
Um dos comandantes hesitou.
— Senhor… isso exige confiança absoluta. Soldados que pensem por conta própria.
Ewan levantou os olhos.
— Eu não treinei soldados. Treinei pessoas que sabem por que lutam.
Rowena deu um passo à frente.
— Dunrath acredita que um reino se vence cortando a cabeça do rei — disse ela. — Não entenderam ainda que este reino não se ajoelha.
Horas depois, já a sós, Rowena aproximou-se da mesa.
— Você está cansado — disse, tocando-lhe o ombro.
— Estou desperto — corrigiu ele.
Ela sorriu de lado.
— É diferente.
Ewan pousou a mão sobre a dela.
— Se eu falhar…
— Não falhará — Ela o interrompeu, firme. — Mas se algo der errado, este plano ainda vive. Ele não depende só de você.
Ele a olhou por um longo momento.
— Foi isso que você fez, não foi?
— O quê?
— Me obrigou a construir um reino que sobreviveria até à minha ausência.
Rowena sustentou o olhar.
— Não por ausência. — disse suave. — Por legado.
Naquela noite, os estandartes foram preparados.
Não apenas o lobo.
Mas símbolos novos mãos dadas, espadas cruzadas, mães e filhas lado a lado.
Ewan caminhou entre os soldados, homens e mulheres, crianças mais velhas observando com olhos atentos.
— Não prometo glória — disse ele. — Prometo que lutaremos como sempre vivemos: juntos.
Nenhum grito.
Apenas punhos cerrados contra o peito.
A matilha estava pronta.
Dunrath marcharia não contra um rei…
…mas contra um reino inteiro que sabia lutar.
Rowena o observava à distância.
Não o Ewan que dividia o desjejum com ela em silêncio confortável.
Nem o homem que escutava os camponeses com atenção paciente.
Nem aquele que, à noite, aceitava seu corpo buscando calor como se ali fosse o único lugar seguro.
Diante da guerra… outro Ewan surgia.
Ele caminhava pelo pátio com passos medidos, quase felinos. A postura mais rígida, o olhar fixo em pontos que ninguém mais parecia enxergar. Soldados se endireitavam ao vê-lo passar; conversas morriam antes mesmo de começarem.
O lobo estava à superfície.
Rowena sentiu um aperto no peito.
Não era medo dele.
Era o peso de compreender o preço.
Ela o viu corrigir a posição de um escudo sem dizer uma palavra. Apenas um toque firme.
Viu-o observar as mulheres treinando não com orgulho visível, mas com cálculo, avaliando quem sobreviveria.
A ternura se retraía.
A humanidade se organizava em compartimentos.
Tudo nele se tornava funcional.
É assim que ele sobreviveu, pensou Rowena.
É assim que não morreu quando outros morreram.
Mas ainda assim… doía.
Quando Ewan entrou na sala de armas, ela o seguiu.
O som metálico ecoava enquanto ele verificava lâminas, uma a uma.
— Você muda — disse, enfim.
Ewan não levantou os olhos.
— Eu me preparo.
— Não — ela corrigiu, a voz calma, mas firme. — Você se fecha.
O silêncio se estendeu.
— Se eu não fizer isso… — ele começou, mas parou.
Rowena aproximou-se mais.
— Você acha que eu não vejo? — perguntou baixo. — Você apaga partes suas como se fossem fraquezas.
Ewan finalmente a encarou.
Havia gelo ali. Mas também cansaço.
— Guerra não permite espaço para sentir.
Rowena respirou fundo.
— Permite, sim. — Ela tocou o peito dele, exatamente sobre o coração. — Só não permite que você se perca.
Por um instante, o lobo rosnou por dentro.
Depois… cedeu um passo.
— Se eu cair — disse ele, com voz contida —, não posso cair por hesitação.
— E se você vencer sem saber mais quem é? — ela rebateu.
O olhar de Ewan vacilou.
Apenas um segundo.
Mas Rowena viu.
Ela encostou a testa na dele.
— Eu não quero que você deixe de ser o lobo. — murmurou. — Quero que ele volte para mim quando tudo acabar.
A mão dele subiu, segurando-a com força suficiente para provar que ainda estava ali.
— Eu volto — prometeu.
— Sempre volto.
Rowena fechou os olhos, sabendo que aquela promessa carregava sangue, estratégia… e amor não dito.
E, pela primeira vez, ela entendeu:
A guerra não tirava Ewan dela.
Mas o transformava em algo que só ela parecia lembrar como trazer de volta