LXXVI

1142 Words
A cena começou a se repetir pelas ruas de pedra da cidade como algo impossível de ignorar. No início, eram apenas duas. Depois quatro. Logo, pequenos grupos. Mulheres treinavam nos espaços abertos entre casas, nos pátios das tavernas ainda fechadas, perto dos muros antigos. Usavam espadas de madeira, bastões improvisados, escudos gastos. Nada refinado mas havia disciplina. Havia foco. Os camponeses paravam para observar. Um ferreiro interrompeu o martelar, limpando o suor da testa, os olhos presos nos movimentos firmes de sua filha. Uma senhora mais velha fez o sinal da cruz, murmurando algo entre medo e orgulho. Crianças sentavam no chão, imitando os golpes no ar. — Nunca pensei que veria isso — sussurrou um homem. — Nem eu — respondeu outro. — Mas… olha pra elas. Uma jovem errou um passo, quase caiu. A outra estendeu a mão e a puxou de volta, corrigindo a postura com paciência. Não havia zombaria. Havia aprendizado. Do outro lado da rua, dois soldados observavam. Não intervieram. Não riram. Apenas ficaram ali, braços cruzados, atentos. — O mundo virou mesmo — murmurou um deles. — Não — respondeu o outro. — O mundo acordou. Eles sabiam da ordem do rei. Sabiam do decreto. Mas, mais do que isso, viam o efeito real: ruas mais seguras, olhares mais atentos, passos mais confiantes. Uma mulher treinava perto da fonte, girando o bastão com precisão surpreendente. Um homem tentou fazer piada… e parou quando percebeu que ninguém riu. Em uma esquina, três mulheres mais velhas observavam em silêncio. — Quando eu era jovem — disse uma delas —, perdi minha irmã voltando sozinha do rio. A outra apertou o xale nos ombros. — Se isso existisse naquela época… A frase ficou inacabada. Mas todas entenderam. No alto da torre leste, Ewan observava a cidade. Não com sorriso aberto. Com satisfação silenciosa. Rowena estava ao seu lado. — Eles estão fazendo isso sozinhas agora — disse ela, quase em um sussurro. — Isso é o que importa — respondeu Ewan. — Quando não precisam mais de ordem direta… significa que entenderam o propósito. Um grupo de soldados passou pela rua. Não interromperam o treino. Apenas fizeram um gesto breve de respeito. Rowena engoliu em seco. — Eles não as veem mais como exceção. Ewan assentiu. — Veem como parte do reino. Ele permaneceu em silêncio por alguns instantes, analisando como se estivesse diante de uma batalha que não exigia espada. — Nenhum reino vizinho está preparado para isso — disse ele por fim. — Eles contam exércitos. Nós formamos pessoas. Rowena sorriu. — E pessoas lutam diferente. Ewan virou-se para ela. — Lutam até o fim. Lá embaixo, uma gargalhada ecoou quando uma jovem finalmente acertou um golpe perfeito. As outras comemoraram. Não era apenas treino. Era liberdade em forma de movimento. E o lobo, do alto das muralhas, sabia: Aquilo não poderia mais ser parado. Alguns dias depois, o campo de treino estava tomado por uma expectativa diferente. Não havia risos soltos. Não havia apostas em voz alta. Havia atenção. O capitão Fergus caminhou até Ewan e Rowena, o rosto sério, mas os olhos vivos. — Majestade… Vossa Majestade — disse, inclinando a cabeça para ambos. — Peço permissão para um embate. Ewan ergueu uma sobrancelha. — Explique. — Homens contra mulheres. — Fergus foi direto. — Não para humilhar ninguém. Mas para medir o que foi criado aqui. Um silêncio pesado caiu. Alguns soldados trocaram olhares confiantes. Algumas mulheres fecharam os punhos, concentradas. Rowena olhou para Ewan. — Elas estão prontas — disse, com convicção. Ewan observou o campo por alguns segundos longos demais para serem descuidados. — Sem lâminas reais — decidiu. — Sem mortes. — Pausa. — Mas sem facilidades. Fergus sorriu, satisfeito. — Como em guerra de verdade. Os grupos se posicionaram. Os homens eram maiores. Ombros largos. Força evidente. Entraram no campo com passos firmes, certos da vitória. As mulheres se espalharam de forma diferente. Não formaram linha. Formaram movimento. O sinal foi dado. O choque inicial foi brutal. Os soldados avançaram com força, tentando derrubar, empurrar, dominar rápido. Alguns golpes foram pesados demais, confiantes demais. As mulheres não resistiram de frente. Elas desviaram. Giraram. Cederam espaço apenas para retomá-lo logo depois. Uma soldada foi jogada ao chão… e rolou, levantando antes que o adversário pudesse aproveitar. Outra fingiu fraqueza, atraiu o golpe, e deixou o soldado errar completamente. — Elas estão cansando eles — murmurou Rowena. Ewan não respondeu. Seus olhos estavam atentos às respirações. O tempo passou. O suor escorria pelos rostos dos homens. Golpes começaram a perder precisão. Passos ficaram mais pesados. Eles ainda eram fortes. Mas agora estavam cansados. As mulheres, mais leves, respiravam melhor. Economizavam movimentos. Atacavam apenas quando o erro aparecia. Um soldado caiu de joelhos, exausto. Outro deixou a guarda baixa por um segundo… e foi desarmado. — Recuem! — gritou alguém. Mas já era tarde. O último soldado ainda de pé tentou avançar com força total e errou. Caiu de costas no chão de terra. Silêncio. Então, uma a uma, as mulheres se afastaram. Formaram uma linha. Sem gritos. Sem comemoração exagerada. Com respeito. Todas ajoelharam ao mesmo tempo. E, em um gesto firme e sincronizado, cravaram as espadas no chão diante de Ewan. O som do metal na terra ecoou como um juramento. — Pelo reino — disse uma delas. — Pela Coroa — disse outra. — Pela vida que defendemos — completou uma terceira. Rowena sentiu os olhos arderem. Ewan permaneceu imóvel por alguns segundos. Então desceu ao campo. Ele parou diante delas. — Levantem-se — ordenou. As mulheres obedeceram. Ewan ergueu a voz, para que todos ouvissem: — Hoje, vocês não venceram por força. — Olhou também para os soldados. — Venceram por disciplina, atenção e paciência. Ele bateu a mão fechada contra o peito. — É assim que guerras são ganhas. Virou-se para os homens. — Aprendam com elas. Ou perderão para inimigos que pensam melhor. Depois, voltou o olhar às mulheres. — Vocês não se ajoelham por submissão — disse. — Se ajoelham por escolha. Rowena deu um passo à frente, a voz firme apesar da emoção. — E o reino honra essa escolha. O campo explodiu em aplausos. Soldados batiam lanças no chão. Camponeses gritavam. Mulheres se abraçavam, riam, choravam. Ewan voltou para o alto da muralha ao lado de Rowena. — Agora eles sabem — disse ele, baixo. — O quê? — perguntou ela. — Que o reino MacAllister não luta apenas com músculos… — respondeu, observando o campo. — Mas com mente, união e lealdade. Rowena olhou para ele, orgulhosa. — Você mudou tudo. Ewan a encarou por um instante longo. — Não. — Um quase sorriso surgiu. — Você mudou. Eu apenas garanti que ninguém te impedisse. Lá embaixo, o campo de treino não era mais apenas um lugar de guerra. Era um símbolo
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