A manhã nasceu tensa.
Os sinos não tocaram, mas a urgência correu pelos corredores como fogo em palha seca. Mensageiros chegaram antes do desjejum, cavalos exaustos, vozes baixas demais para esconder o peso das palavras.
Uma possível ameaça de guerra.
O conselho foi convocado imediatamente.
Ewan entrou na sala sem escolta. Usava cores escuras, simples, a espada à cintura sinal claro de que não era uma audiência comum. Tomou seu lugar à cabeceira da mesa.
A cadeira de Rowena permanecia vazia.
Alguns conselheiros notaram.
Outros preferiram fingir que não.
— Relatem. — ordenou Ewan.
Lorde Caelan foi o primeiro a falar.
— Nossos batedores confirmaram movimentação de tropas ao sul. — disse. — Bandeiras não identificadas, mas a formação… não é defensiva.
— Quantos? — perguntou Ewan.
— Ainda não sabemos ao certo. — respondeu outro conselheiro. — Mas o suficiente para preocupar as fortalezas da fronteira.
Um terceiro pigarreou.
— Há rumores de alianças sendo costuradas. — disse. — Antigos desafetos vossos, Majestade. Homens que nunca aceitaram vossa ascensão.
Ewan apoiou os dedos na mesa.
— Rumores não movem exércitos. — disse. — Homens sim. Quero nomes.
Houve hesitação.
— Edric não foi visto entre eles. — disse Caelan. — Mas seus antigos capitães… sim.
Um murmúrio correu pela mesa.
— Ele ainda vive. — disse outro. — E homens humilhados não esquecem.
Ewan estreitou o olhar.
— Então não é guerra declarada. — concluiu. — É provocação.
— Justamente. — respondeu Caelan. — E é por isso que pedimos cautela.
Ele fez uma pausa calculada.
— Talvez… este seja o momento de evitar conflito aberto. Enviar emissários. Reforçar alianças.
Outro conselheiro acrescentou:
— Uma rainha presente nessas negociações poderia suavizar tensões.
O olhar de Ewan ergueu-se lentamente.
— Cuidai das vossas palavras. — disse, a voz baixa, perigosa.
— Não foi ofensa. — apressou-se o homem. — Apenas… estratégia.
— Estratégia é conhecer o inimigo. — respondeu Ewan. — Não oferecer-lhe tempo.
Ele se levantou.
— Não haverá emissários. — declarou. — Ainda.
— Majestade — tentou Caelan.
— A reunião é para informar, não para governar por mim. — cortou Ewan. — Reforcem as fronteiras. Dobrem a vigilância. Quero relatórios ao cair da noite.
Silêncio.
A cadeira vazia de Rowena parecia mais presente do que nunca.
Alguns conselheiros trocaram olhares, inseguros.
Sem a rainha, sentiam-se mais à vontade.
Mas também… mais expostos.
Ewan percebeu.
— A rainha não está aqui hoje. — disse, por fim. — Mas governamos juntos. Não confundais ausência física com ausência de autoridade.
Ninguém respondeu.
Quando a reunião foi encerrada, os homens se levantaram em silêncio.
A ameaça era real.
E o reino sabia:
Quando o Lobo se tornava tão quieto quanto naquela manhã,
a guerra já estava sendo medida.
A noite caiu pesada sobre o castelo.
As tochas já estavam acesas quando Ewan retornou aos aposentos para o jantar. O peso do dia ainda se refletia em seus ombros, não no corpo mas no silêncio que carregava.
Rowena já estava à mesa.
Movia-se com cuidado, o ferimento ainda exigindo respeito, mas o olhar estava atento como sempre. Ao vê-lo entrar, ergueu-se apenas o suficiente para saudá-lo.
— O conselho terminou tarde. — disse ela.
— Terminou como começou. — respondeu ele, sentando-se. — Com medo disfarçado de prudência.
Serviram a refeição.
Por alguns instantes, comeram em silêncio.
Rowena observava.
O modo como Ewan partia a carne sem pressa.
O olhar distante, calculando mapas invisíveis.
O hábito de ouvir antes de falar mesmo quando ninguém falava.
Ela reconhecia aquele estado.
Era o mesmo olhar dos guerreiros antes da batalha.
— Chegaram os relatórios. — disse ele, por fim.
Rowena ergueu o olhar.
— E?
— Tropas ao sul continuam se movendo. — respondeu. — Não avançam… mas também não recuam.
Ela apoiou a mão sobre a mesa, lentamente.
— Estão esperando.
— Sim.
Rowena respirou fundo.
O pensamento que a assombrava desde cedo ganhou forma.
— Terás de ir. — disse, não como pergunta.
Ewan não negou.
— Se avançarem, irei. — respondeu. — Se não avançarem… talvez também.
Ela fechou os olhos por um instante.
Não de fraqueza.
De contenção.
— m*l começaste a governar sem espada em punho. — disse ela. — E o reino já te chama de volta ao campo.
— Sempre chamou. — respondeu ele.
Rowena observou o ferimento enfaixado em sua própria perna, depois voltou o olhar para ele.
— Temo que essa guerra te roube algo que ainda não tiveste tempo de recuperar. — disse, baixa.
Ewan a encarou.
— Não temo a guerra. — disse. — Temo governar fingindo que ela não existe.
Ela assentiu lentamente.
— E temo que te percas nela. — completou.
Houve um silêncio longo.
Depois, Ewan estendeu a mão por sobre a mesa e pousou-a sobre a dela firme, presente.
— Não partirei às cegas. — disse. — E não partirei sem considerar tudo.
Ela entrelaçou os dedos aos dele, apesar da dor.
— Promete-me apenas uma coisa. — disse.
— O quê?
— Que não irás como o Lobo que nada teme. — respondeu. — Mas como o rei que agora tem algo a proteger… além do trono.
Ewan sustentou o olhar dela.
Por um instante, a frieza cedeu lugar a algo mais profundo.
— Eu já tenho. — disse.
Rowena sentiu o peso daquelas palavras mais do que qualquer juramento formal.
Quando os servos se retiraram e a noite envolveu o castelo, ela compreendeu:
A guerra ainda não chegara.
Mas já estava sentada à mesa com eles.
E, pela primeira vez,
o Lobo temia não a batalha
mas o que poderia perder se tivesse de partir outra vez