XXIV

1096 Words
O castelo despertou antes do sol. Sinos tocaram cedo, não para anunciar festa, mas ordem. O reino sabia: o primeiro dia de um reinado conjunto não comportava atrasos. Ewan e Rowena não se vestiram juntos. Não por distância. Mas por disciplina. Quando se encontraram novamente, foi na sala do conselho. Lado a Lado Ewan entrou primeiro, passos firmes, expressão neutra. Rowena veio logo depois, manto real ajustado com precisão, a coroa repousando com naturalidade em sua cabeça não como peso, mas como extensão. Eles não trocaram palavras. Não precisaram. Tomaram seus lugares lado a lado, na mesma linha, ambos visíveis ao conselho e ao reino. Os conselheiros se levantaram. — Vossas Majestades. — disseram, em uníssono. Ewan assentiu uma única vez. Rowena observou cada rosto antes de falar: — Comecemos. Alguns conselheiros trocaram olhares. Não esperavam que ela abrisse a sessão. Ewan não interferiu. — O reino está estável. — iniciou Seumas. — Mas há tensões nas fronteiras do norte. Relatos indicam movimentação de clãs menores— — Que não são leais nem hostis. — completou Rowena. — Apenas esquecidos. O silêncio foi imediato. — Enviem emissários. — disse ela. — Não soldados. Ainda. Duncan franziu o cenho. — Isso pode ser visto como fraqueza. Rowena respondeu sem elevar a voz: — Fraqueza é obrigar aliados incertos a escolherem lados à força. Ewan apoiou o cotovelo no braço da cadeira. — Se não responderem… — disse ele — então eu irei. Não como ameaça. Como fato. O conselho assentiu. O segundo tema foi interno: uma disputa de terras entre dois clãs antigos. Tradicionalmente, resolver-se-ia com combate ritual. Rowena ouviu com atenção. — Não haverá combate. — decidiu. Os murmúrios começaram. — A terra será medida novamente. Os limites foram traçados há gerações, quando rios ainda corriam de outra forma. — Isso levará tempo. — disse Seumas. — Então gastaremos tempo agora… — respondeu ela — para não gastar sangue depois. Ewan concordou com um aceno curto. — A espada não será usada para corrigir mapas m*l desenhados. O reino anotou. Durante toda a manhã, Ewan falou menos do que o esperado. Observava. Testava. Rowena conduzia, mas nunca atropelava. Respondia rápido, mas não impulsivamente. Quando não tinha certeza, dizia: — Tragam-me dados. Decidiremos depois. Aquilo surpreendeu mais do que qualquer ordem dura. Um rei que espera é raro. Uma rainha que sabe quando esperar… mais ainda. Ao meio-dia, abriram-se as portas do pátio interno. Ewan e Rowena apareceram juntos diante do povo. Nenhum discurso longo. Rowena falou primeiro: — Governaremos com clareza. Quem tiver dever, terá cobrança. Quem tiver direito, terá proteção. Ewan concluiu: — Quem ameaçar este reino… — uma pausa — enfrentará ambos. O povo respondeu com aclamação firme. De volta aos corredores internos, longe de olhares, Ewan falou pela primeira vez desde a manhã com algo além de comando: — Não corrigiste ninguém desnecessariamente. — Não precisava. — respondeu Rowena. — Eles se corrigiram sozinhos quando perceberam que estávamos alinhados. Ele a olhou de lado. — Funcionamos. — Não por sermos iguais. — disse ela. — Mas porque não competimos. Um silêncio breve. Sólido. O primeiro dia terminou sem sangue, sem caos, sem concessões vazias. E, naquela noite, quando o castelo novamente adormeceu, ficou claro para todos que observaram com atenção: O Lobo continuava sendo o Lobo. Mas agora… governava com alguém que via o campo inteiro não apenas a batalha. Alguns dias haviam se passado desde o primeiro dia de reinado conjunto. Nada grandioso acontecera e isso, para Ewan, já era um sinal de competência. O reino seguia. As fronteiras permaneciam quietas. O conselho falava menos. E Rowena observava. Ewan começou a perceber isso não de forma abrupta, mas como se percebe a mudança do vento: aos poucos, inevitavelmente. Ela parava diante dos mapas antigos por mais tempo do que o necessário. Tocava os marcadores de batalhas não como quem decora vitórias, mas como quem tenta compreender o caminho até elas. Fazia perguntas precisas aos veteranos, não sobre glória, mas sobre decisões difíceis. — Por que recuaste ali? — perguntara certa vez, apontando para uma rota que todos sabiam ser famosa pela vitória final. Ewan respondera apenas: — Porque avançar teria sido bonito. Recuar foi eficaz. Rowena assentira. Não com surpresa. Com entendimento. Foi então que ele percebeu: não era apenas admiração. Era curiosidade profunda. E algo mais difícil de nomear. Numa tarde silenciosa, Ewan a encontrou na sala de registros militares. Rowena estava sozinha, folheando um tomo pesado, o brasão do lobo marcado na capa. — Este relato… — disse ela sem levantar os olhos — foi escrito por alguém que te odiava. Ewan aproximou-se. — E ainda assim é preciso. — Porque a verdade não depende de afeto. — completou ela. Ele observou o perfil dela por um instante. — Não costumas suavizar o que lês sobre mim. Ela fechou o livro com cuidado. — Não. — respondeu. — Histórias suavizadas criam líderes fracos. Ewan percebeu então o brilho contido no olhar dela. Não era entusiasmo vazio. Era atenção sustentada. — Não te assusta? — perguntou ele. — Saber do que fui capaz? Rowena levantou o olhar. — Assusta. — disse com honestidade. — Mas não me afasta. Houve uma pausa curta. — Por quê? — ele perguntou. Rowena pensou antes de responder algo raro para ela quando falava com ele. — Porque vejo método onde outros veem crueldade. — disse. — Vejo contenção onde contam apenas mortes. Ela inclinou levemente a cabeça. — E vejo justiça… onde chamam de frieza. O impacto foi imediato. Ewan não se moveu. Mas algo se ajustou dentro dele. Naquela noite, enquanto caminhavam lado a lado pelos corredores, Ewan percebeu algo que nunca tivera de lidar antes: Ela não o admirava como herói. Nem o temia como monstro. Ela o estudava. E havia, sim, fascínio ali. Não pelo sangue. Mas pela mente por trás dele. — Tens curiosidade demais para alguém que não planeja me desafiar. — disse ele. Rowena respondeu sem olhar para ele: — Tenho curiosidade suficiente para não te subestimar. Ele parou. Ela também. — E isso te agrada… — ela continuou, — ou te preocupa? Ewan pensou por alguns segundos. — Ambas as coisas. — respondeu por fim. Rowena assentiu, satisfeita. — Então estamos equilibrados. Eles seguiram andando. E, enquanto o castelo mergulhava no silêncio noturno, Ewan compreendeu algo novo e desconcertante: Pela primeira vez, alguém olhava para sua história de guerra… não como passado a ser temido ou glorificado mas como um enigma digno de atenção. E isso, mais do que medo ou reverência, era perigosamente próximo de interesse verdadeiro.
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