As portas se fecharam com um som seco.
Por longos segundos, ninguém falou.
O salão do conselho, acostumado a debates acalorados e vozes sobrepostas, permanecia imóvel como um campo de batalha após o choque inicial.
O conselheiro mais velho foi o primeiro a respirar fundo.
— Pelos deuses… — murmurou. — Ela falou como um general.
— Não. — corrigiu outro, ainda pálido. — Falou como Ewan.
Um terceiro passou a mão pelo rosto.
— A frieza… a precisão… — disse. — Nenhuma palavra desperdiçada. Nenhuma brecha.
— E perceberam? — comentou um dos mais jovens. — Ela não pediu autoridade. Ela simplesmente a exerceu.
Silêncio novamente.
O mais velho apoiou as mãos na mesa.
— Quando sugerimos que o rei precisava estar presente… ela não se ofendeu. Não se explicou. Apenas afirmou o fato.
— Isso é o mais perigoso. — respondeu outro. — Ela não buscou aprovação.
Um deles riu nervosamente.
— Sempre pensamos que o Lobo fosse indomável… mas ela o contém.
— Não. — disse o conselheiro grisalho, lentamente. — Ela não o contém. Ela o compreende.
Os olhares se cruzaram.
— E isso a torna… — começou um, mas parou.
— Tão temível quanto ele. — completou o mais velho.
Houve um murmúrio de concordância contida.
— O povo já a respeita. — disse outro. — Depois de hoje… o conselho também terá de aprender.
— Ou se adaptar. — acrescentou alguém.
O mais antigo suspirou.
— Acreditávamos que precisávamos de uma rainha para suavizar o rei.
Ele bateu levemente na mesa.
— Trouxemos alguém que afia a lâmina.
Ninguém discordou.
— Que os deuses nos ajudem… — murmurou um deles.
— Não. — respondeu outro, com um meio sorriso tenso. — Que os deuses ajudem quem se opuser a eles.
O conselho retomou seus lugares.
Mas algo havia mudado.
Eles não discutiam mais como controlar o rei.
Agora, pensavam em como sobreviver ao reinado de dois estrategistas.
E, pela primeira vez desde a coroação, o poder do trono não parecia concentrado em um único Lobo.
Havia uma Rainha ao lado dele.
E isso…
era ainda mais perigoso.
Rowena abriu a porta dos aposentos reais com passos calmos.
O quarto estava em penumbra, iluminado apenas pela luz que entrava pela janela alta. Ewan estava sentado na cama, o tronco recostado, as faixas ainda visíveis sob a camisa. Os olhos claros se ergueram no instante em que ela entrou.
Ele a analisou de cima a baixo.
Arrumada demais.
Postura firme demais.
— Onde estiveste? — perguntou, a voz baixa, mas alerta.
Rowena retirou a coroa e a pousou com cuidado sobre a mesa.
— No salão do conselho.
O silêncio caiu pesado.
Ewan franziu o cenho.
— O quê?
Ela começou a soltar os fechos do vestido, sem pressa.
— Fui em teu lugar.
Ele se moveu, esquecendo por um instante da dor.
— Não tinhas o direito—
Rowena virou-se de súbito.
— Tinha. — disse, firme. — Sou tua rainha.
— Não és o Lobo. — rebateu ele. — Aqueles homens testam fraquezas. Farejam qualquer hesitação.
Ela deu um passo à frente.
— E encontraram alguma?
Ewan abriu a boca… e fechou.
— Disseste o quê? — perguntou ele, tenso.
— Exatamente o que precisava ser dito. — respondeu. — Dei ordens. Apresentei o plano. Encerrei a discussão.
— Sem me consultar?
— Com base em tudo que já me ensinaste. — rebateu ela. — E no que observei de ti.
Ele passou a mão pelo cabelo, irritado.
— Não precisavas se expor.
Rowena estreitou o olhar.
— Não me exponho por medo. — disse. — Faço o que é necessário.
— És imprudente.
Ela riu, breve, sem humor.
— E tu és teimoso ao ponto da autodestruição.
O ar entre eles ficou tenso.
— Não te peço que sejas o que não és. — continuou ela. — Mas não me peças para ser menor do que posso.
Ewan se levantou da cama, ignorando a dor, ficando diante dela.
— Não sabes o que aqueles homens são capazes de fazer quando sentem o poder escapar.
Rowena ergueu o queixo.
— Sei. — respondeu. — E mesmo assim fui.
Ele a encarou longamente.
Buscando medo.
Hesitação.
Submissão.
Não encontrou nada.
Apenas firmeza.
Convicção.
Coragem.
Ewan percebeu então com um impacto silencioso algo que nunca experimentara antes.
Rowena não o temia.
Não como rei.
Não como guerreiro.
Não como o Lobo das batalhas.
Muito menos como marido.
Ela o enfrentava.
— Todos os outros… — murmurou ele, mais para si do que para ela — recuam em algum momento.
Rowena suavizou a voz, mas não o olhar.
— Eu não recuo de ti, Ewan. — disse. — Recuo com ti, se for preciso. Ou avanço.
Ele fechou os olhos por um instante.
Quando abriu, havia algo diferente ali.
Não calor.
Mas respeito.
— És perigosa. — disse ele.
Ela inclinou a cabeça.
— Aprendi com o melhor.
Um silêncio estranho, denso, se instalou.
Não havia vencedores naquela discussão.
Mas Ewan soube, com absoluta clareza:
Entre todos os homens e mulheres que conhecera,
entre generais, reis e inimigos,
Rowena era a única pessoa que nunca baixara os olhos diante dele.
E isso…
não o enfraquecia.
O tornava mais consciente.
Mais atento.
Mais vivo.
O Lobo não havia encontrado uma ameaça.
Havia encontrado uma igual