XXXIV

887 Words
As portas se fecharam com um som seco. Por longos segundos, ninguém falou. O salão do conselho, acostumado a debates acalorados e vozes sobrepostas, permanecia imóvel como um campo de batalha após o choque inicial. O conselheiro mais velho foi o primeiro a respirar fundo. — Pelos deuses… — murmurou. — Ela falou como um general. — Não. — corrigiu outro, ainda pálido. — Falou como Ewan. Um terceiro passou a mão pelo rosto. — A frieza… a precisão… — disse. — Nenhuma palavra desperdiçada. Nenhuma brecha. — E perceberam? — comentou um dos mais jovens. — Ela não pediu autoridade. Ela simplesmente a exerceu. Silêncio novamente. O mais velho apoiou as mãos na mesa. — Quando sugerimos que o rei precisava estar presente… ela não se ofendeu. Não se explicou. Apenas afirmou o fato. — Isso é o mais perigoso. — respondeu outro. — Ela não buscou aprovação. Um deles riu nervosamente. — Sempre pensamos que o Lobo fosse indomável… mas ela o contém. — Não. — disse o conselheiro grisalho, lentamente. — Ela não o contém. Ela o compreende. Os olhares se cruzaram. — E isso a torna… — começou um, mas parou. — Tão temível quanto ele. — completou o mais velho. Houve um murmúrio de concordância contida. — O povo já a respeita. — disse outro. — Depois de hoje… o conselho também terá de aprender. — Ou se adaptar. — acrescentou alguém. O mais antigo suspirou. — Acreditávamos que precisávamos de uma rainha para suavizar o rei. Ele bateu levemente na mesa. — Trouxemos alguém que afia a lâmina. Ninguém discordou. — Que os deuses nos ajudem… — murmurou um deles. — Não. — respondeu outro, com um meio sorriso tenso. — Que os deuses ajudem quem se opuser a eles. O conselho retomou seus lugares. Mas algo havia mudado. Eles não discutiam mais como controlar o rei. Agora, pensavam em como sobreviver ao reinado de dois estrategistas. E, pela primeira vez desde a coroação, o poder do trono não parecia concentrado em um único Lobo. Havia uma Rainha ao lado dele. E isso… era ainda mais perigoso. Rowena abriu a porta dos aposentos reais com passos calmos. O quarto estava em penumbra, iluminado apenas pela luz que entrava pela janela alta. Ewan estava sentado na cama, o tronco recostado, as faixas ainda visíveis sob a camisa. Os olhos claros se ergueram no instante em que ela entrou. Ele a analisou de cima a baixo. Arrumada demais. Postura firme demais. — Onde estiveste? — perguntou, a voz baixa, mas alerta. Rowena retirou a coroa e a pousou com cuidado sobre a mesa. — No salão do conselho. O silêncio caiu pesado. Ewan franziu o cenho. — O quê? Ela começou a soltar os fechos do vestido, sem pressa. — Fui em teu lugar. Ele se moveu, esquecendo por um instante da dor. — Não tinhas o direito— Rowena virou-se de súbito. — Tinha. — disse, firme. — Sou tua rainha. — Não és o Lobo. — rebateu ele. — Aqueles homens testam fraquezas. Farejam qualquer hesitação. Ela deu um passo à frente. — E encontraram alguma? Ewan abriu a boca… e fechou. — Disseste o quê? — perguntou ele, tenso. — Exatamente o que precisava ser dito. — respondeu. — Dei ordens. Apresentei o plano. Encerrei a discussão. — Sem me consultar? — Com base em tudo que já me ensinaste. — rebateu ela. — E no que observei de ti. Ele passou a mão pelo cabelo, irritado. — Não precisavas se expor. Rowena estreitou o olhar. — Não me exponho por medo. — disse. — Faço o que é necessário. — És imprudente. Ela riu, breve, sem humor. — E tu és teimoso ao ponto da autodestruição. O ar entre eles ficou tenso. — Não te peço que sejas o que não és. — continuou ela. — Mas não me peças para ser menor do que posso. Ewan se levantou da cama, ignorando a dor, ficando diante dela. — Não sabes o que aqueles homens são capazes de fazer quando sentem o poder escapar. Rowena ergueu o queixo. — Sei. — respondeu. — E mesmo assim fui. Ele a encarou longamente. Buscando medo. Hesitação. Submissão. Não encontrou nada. Apenas firmeza. Convicção. Coragem. Ewan percebeu então com um impacto silencioso algo que nunca experimentara antes. Rowena não o temia. Não como rei. Não como guerreiro. Não como o Lobo das batalhas. Muito menos como marido. Ela o enfrentava. — Todos os outros… — murmurou ele, mais para si do que para ela — recuam em algum momento. Rowena suavizou a voz, mas não o olhar. — Eu não recuo de ti, Ewan. — disse. — Recuo com ti, se for preciso. Ou avanço. Ele fechou os olhos por um instante. Quando abriu, havia algo diferente ali. Não calor. Mas respeito. — És perigosa. — disse ele. Ela inclinou a cabeça. — Aprendi com o melhor. Um silêncio estranho, denso, se instalou. Não havia vencedores naquela discussão. Mas Ewan soube, com absoluta clareza: Entre todos os homens e mulheres que conhecera, entre generais, reis e inimigos, Rowena era a única pessoa que nunca baixara os olhos diante dele. E isso… não o enfraquecia. O tornava mais consciente. Mais atento. Mais vivo. O Lobo não havia encontrado uma ameaça. Havia encontrado uma igual
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