O salão do conselho estava diferente naquela manhã.
Não havia murmúrios de expectativa havia tensão.
Ewan entrou sozinho.
Vestia-se como rei e como guerreiro: simples, imponente, sem adornos desnecessários. O braço ainda enfaixado denunciava a guerra recente, mas o passo era firme, o olhar atento.
Ele tomou seu lugar à cabeceira.
O silêncio não durou.
— Vossa Majestade. — disse um dos conselheiros, a voz carregada. — Precisamos falar sobre a interferência da rainha.
Outro emendou, mais ríspido:
— Uma mulher não pode ocupar o lugar do rei em um conselho de guerra.
Ewan ergueu lentamente o olhar.
— Cuidado com as palavras que escolhe. — disse, em tom baixo.
O conselheiro mais velho, aquele que servira a seu pai por décadas, pigarreou e tomou a frente.
— Sirvo a este trono desde antes de vosso nascimento. — declarou. — E jamais vi tal afronta às tradições. Uma rainha não—
— Silêncio. — a palavra caiu como uma lâmina.
O velho congelou.
Ewan levantou-se.
Cada passo que deu ao redor da mesa foi calculado, lento, predatório.
— Falais de tradição. — disse ele. — Pois eu falarei de realidade.
Ele parou atrás do conselheiro mais antigo.
— Quando meu pai reinava, respeitei vossa voz. — continuou. — Hoje, escuto-a apenas se for útil ao reino.
Um murmúrio de choque percorreu a mesa.
— A rainha falou em meu nome porque eu estava ferido. — disse Ewan. — E falou bem.
— Mas ela—
Ewan girou de repente.
O olhar que lançou fez o homem engolir as palavras.
— A rainha não tomou meu lugar. — rosnou. — Ela sustentou o trono.
Ele apoiou as mãos na mesa.
— Enquanto discutem se uma mulher pode governar, o inimigo se reorganiza. Enquanto questionam a presença dela, o reino precisa de decisões.
O conselheiro mais velho tentou uma última vez:
— Majestade… vossa mãe jamais—
Ewan se inclinou para frente.
— Não comparem Rowena a ninguém.
A voz não se elevou.
Mas gelou o salão.
— Ela não pediu poder. — continuou. — Não buscou aplausos. — Endireitou-se. — E, ao contrário de muitos aqui, não tremeu diante da responsabilidade.
Silêncio absoluto.
— Questionar a rainha é questionar a mim. — declarou. — E eu não tolero isso.
Ele caminhou de volta à cabeceira.
— Se algum de vós acredita que pode fazer melhor, levante-se agora.
Ninguém se moveu.
— Bom. — disse ele. — Então prestem atenção.
Ewan pousou o punho fechado sobre a mesa.
— Rowena é minha rainha por escolha estratégica. — disse. — Por inteligência. — O olhar percorreu cada rosto. — E por coragem.
— Quem se opuser a ela… — fez uma pausa calculada — se opõe ao Lobo.
O conselheiro mais velho baixou os olhos.
Pela primeira vez em décadas.
Ewan sentou-se.
— Agora, falemos do que realmente importa: a guerra.
E naquele momento, todos compreenderam algo irreversível:
O Lobo não apenas reinava.
Ele protegia.
E quem ousasse desafiar a rainha,
descobriria que enfrentar Ewan MacAllister
era enfrentar algo muito pior do que tradição quebrada.
Era enfrentar um rei
que defendia sua igual
com dentes à mostra.
O quarto estava silencioso quando Ewan retornou.
A luz da tarde atravessava as cortinas pesadas, refletindo de leve nas armas alinhadas contra a parede. Rowena estava sentada próxima à janela, costurando algo simples, não por obrigação, mas por hábito antigo. Ao ouvir a porta, ergueu o olhar.
Ela o analisou de imediato.
O modo como caminhava.
A rigidez no ombro.
O peso contido na respiração.
— Já estás melhor? — perguntou, levantando-se.
Ewan fechou a porta atrás de si.
— O suficiente. — respondeu.
Rowena se aproximou, sem cerimônia, tocando com cuidado a faixa em seu braço.
— “O suficiente” não é uma resposta médica. — murmurou.
Ele inclinou a cabeça.
— Não és curandeira.
— Sou tua rainha. — respondeu ela. — E observo.
Um silêncio breve.
— O conselho? — perguntou ela.
Ewan retirou o cinto e o deixou sobre a mesa.
— Resolvido.
Ela o encarou.
— Soas… definitivo.
— Fui. — disse ele. — Não tornarão a questionar tua autoridade.
Rowena respirou fundo.
— Obrigada.
Ewan a observou por um instante.
— Não me agradeças. — disse. — Apenas fiz o necessário.
Ela hesitou.
Então falou:
— Quero voltar a treinar.
O olhar dele se ergueu de imediato.
— Não. — respondeu sem pensar.
Rowena não se afastou.
— Meu ferimento é superficial.
— Ainda estás machucada. — rebateu ele.
— E tu também estavas quando foste à guerra. — retrucou, afiada.
Silêncio.
Ewan apertou o maxilar.
— Não compares.
— Comparo sim. — disse ela. — Porque me ensinaste a não recuar.
Ela cruzou as mãos à frente do corpo.
— Se eu parar agora, estarei provando que estavam certos.
Ele respirou fundo.
— Quem?
— Os que acreditam que uma mulher só pode empunhar uma coroa… mas não uma lâmina.
Ewan se aproximou.
— O treino não é símbolo. — disse ele. — É risco real.
— Eu sei. — respondeu ela. — E ainda assim escolho continuar.
Ele a encarou, buscando algo que a fizesse hesitar.
Não encontrou.
— Não facilitarei. — advertiu.
— Nunca pediste que eu fosse fraca. — respondeu ela.
Um canto da boca dele se moveu quase imperceptivelmente.
— Amanhã. — disse. — Mas com limites.
Rowena sorriu contido, mas genuíno.
— Amanhã, então.
Ela virou-se para pegar algo sobre a mesa.
— Ewan?
— Hm?
— Obrigada… por hoje. — disse ela, sem olhá-lo diretamente.
Ele observou suas costas por um instante.
— Descansa esta noite. — respondeu. — Amanhã, o aço volta a cantar.
Rowena assentiu.
Enquanto ela se afastava, Ewan percebeu algo que não esperava admitir nem para si mesmo:
A rainha não treinava para provar algo aos outros.
Ela treinava
porque a lâmina já fazia parte de quem ela era.
E o Lobo…
não podia negar esse chamado