XXXV

989 Words
O salão do conselho estava diferente naquela manhã. Não havia murmúrios de expectativa havia tensão. Ewan entrou sozinho. Vestia-se como rei e como guerreiro: simples, imponente, sem adornos desnecessários. O braço ainda enfaixado denunciava a guerra recente, mas o passo era firme, o olhar atento. Ele tomou seu lugar à cabeceira. O silêncio não durou. — Vossa Majestade. — disse um dos conselheiros, a voz carregada. — Precisamos falar sobre a interferência da rainha. Outro emendou, mais ríspido: — Uma mulher não pode ocupar o lugar do rei em um conselho de guerra. Ewan ergueu lentamente o olhar. — Cuidado com as palavras que escolhe. — disse, em tom baixo. O conselheiro mais velho, aquele que servira a seu pai por décadas, pigarreou e tomou a frente. — Sirvo a este trono desde antes de vosso nascimento. — declarou. — E jamais vi tal afronta às tradições. Uma rainha não— — Silêncio. — a palavra caiu como uma lâmina. O velho congelou. Ewan levantou-se. Cada passo que deu ao redor da mesa foi calculado, lento, predatório. — Falais de tradição. — disse ele. — Pois eu falarei de realidade. Ele parou atrás do conselheiro mais antigo. — Quando meu pai reinava, respeitei vossa voz. — continuou. — Hoje, escuto-a apenas se for útil ao reino. Um murmúrio de choque percorreu a mesa. — A rainha falou em meu nome porque eu estava ferido. — disse Ewan. — E falou bem. — Mas ela— Ewan girou de repente. O olhar que lançou fez o homem engolir as palavras. — A rainha não tomou meu lugar. — rosnou. — Ela sustentou o trono. Ele apoiou as mãos na mesa. — Enquanto discutem se uma mulher pode governar, o inimigo se reorganiza. Enquanto questionam a presença dela, o reino precisa de decisões. O conselheiro mais velho tentou uma última vez: — Majestade… vossa mãe jamais— Ewan se inclinou para frente. — Não comparem Rowena a ninguém. A voz não se elevou. Mas gelou o salão. — Ela não pediu poder. — continuou. — Não buscou aplausos. — Endireitou-se. — E, ao contrário de muitos aqui, não tremeu diante da responsabilidade. Silêncio absoluto. — Questionar a rainha é questionar a mim. — declarou. — E eu não tolero isso. Ele caminhou de volta à cabeceira. — Se algum de vós acredita que pode fazer melhor, levante-se agora. Ninguém se moveu. — Bom. — disse ele. — Então prestem atenção. Ewan pousou o punho fechado sobre a mesa. — Rowena é minha rainha por escolha estratégica. — disse. — Por inteligência. — O olhar percorreu cada rosto. — E por coragem. — Quem se opuser a ela… — fez uma pausa calculada — se opõe ao Lobo. O conselheiro mais velho baixou os olhos. Pela primeira vez em décadas. Ewan sentou-se. — Agora, falemos do que realmente importa: a guerra. E naquele momento, todos compreenderam algo irreversível: O Lobo não apenas reinava. Ele protegia. E quem ousasse desafiar a rainha, descobriria que enfrentar Ewan MacAllister era enfrentar algo muito pior do que tradição quebrada. Era enfrentar um rei que defendia sua igual com dentes à mostra. O quarto estava silencioso quando Ewan retornou. A luz da tarde atravessava as cortinas pesadas, refletindo de leve nas armas alinhadas contra a parede. Rowena estava sentada próxima à janela, costurando algo simples, não por obrigação, mas por hábito antigo. Ao ouvir a porta, ergueu o olhar. Ela o analisou de imediato. O modo como caminhava. A rigidez no ombro. O peso contido na respiração. — Já estás melhor? — perguntou, levantando-se. Ewan fechou a porta atrás de si. — O suficiente. — respondeu. Rowena se aproximou, sem cerimônia, tocando com cuidado a faixa em seu braço. — “O suficiente” não é uma resposta médica. — murmurou. Ele inclinou a cabeça. — Não és curandeira. — Sou tua rainha. — respondeu ela. — E observo. Um silêncio breve. — O conselho? — perguntou ela. Ewan retirou o cinto e o deixou sobre a mesa. — Resolvido. Ela o encarou. — Soas… definitivo. — Fui. — disse ele. — Não tornarão a questionar tua autoridade. Rowena respirou fundo. — Obrigada. Ewan a observou por um instante. — Não me agradeças. — disse. — Apenas fiz o necessário. Ela hesitou. Então falou: — Quero voltar a treinar. O olhar dele se ergueu de imediato. — Não. — respondeu sem pensar. Rowena não se afastou. — Meu ferimento é superficial. — Ainda estás machucada. — rebateu ele. — E tu também estavas quando foste à guerra. — retrucou, afiada. Silêncio. Ewan apertou o maxilar. — Não compares. — Comparo sim. — disse ela. — Porque me ensinaste a não recuar. Ela cruzou as mãos à frente do corpo. — Se eu parar agora, estarei provando que estavam certos. Ele respirou fundo. — Quem? — Os que acreditam que uma mulher só pode empunhar uma coroa… mas não uma lâmina. Ewan se aproximou. — O treino não é símbolo. — disse ele. — É risco real. — Eu sei. — respondeu ela. — E ainda assim escolho continuar. Ele a encarou, buscando algo que a fizesse hesitar. Não encontrou. — Não facilitarei. — advertiu. — Nunca pediste que eu fosse fraca. — respondeu ela. Um canto da boca dele se moveu quase imperceptivelmente. — Amanhã. — disse. — Mas com limites. Rowena sorriu contido, mas genuíno. — Amanhã, então. Ela virou-se para pegar algo sobre a mesa. — Ewan? — Hm? — Obrigada… por hoje. — disse ela, sem olhá-lo diretamente. Ele observou suas costas por um instante. — Descansa esta noite. — respondeu. — Amanhã, o aço volta a cantar. Rowena assentiu. Enquanto ela se afastava, Ewan percebeu algo que não esperava admitir nem para si mesmo: A rainha não treinava para provar algo aos outros. Ela treinava porque a lâmina já fazia parte de quem ela era. E o Lobo… não podia negar esse chamado
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