XXXVII

978 Words
Dois meses haviam passado. O pátio de treinamento já não murmurava surpresa quando Rowena surgia. O que se via agora era expectativa. Naquela manhã, Ewan não trouxe espadas de treino. Trouxe oito guerreiros. Homens experientes. Testados em batalhas reais. Nenhum jovem inexperiente, nenhum protegido. O vento frio varria o pátio enquanto eles se posicionavam em semicírculo. Rowena estava no centro. Vestia couro de treino, lâmina real na mão não afiada ao extremo, mas pesada o suficiente para exigir precisão absoluta. Ewan falou apenas uma vez: — Atacarão um de cada vez. — disse. — Sem piedade. Sem complacência. Os guerreiros assentiram. Rowena respirou fundo. O primeiro avançou. Ela desviou do golpe inicial, girando o corpo e atingindo o flanco dele com o punho da espada. O homem caiu de joelhos, rendido. O segundo veio rápido demais. Rowena quase perdeu o equilíbrio, mas rolou no chão, levantando-se com a lâmina já erguida. Um golpe curto, preciso ele recuou, derrotado. O terceiro e o quarto exigiram mais. Um tentou forçá-la para trás. O outro buscou cansá-la. Ela não caiu no jogo. Mudou o ritmo. Atacou antes que eles terminassem a estratégia. Ambos caíram. O pátio estava em silêncio agora. O quinto a atingiu no ombro. Ela grunhiu, deu dois passos para trás… e voltou. O impacto da resposta foi suficiente para derrubá-lo. O sexto a fez cair. O chão encontrou suas costas com força. Por um instante, o ar sumiu dos pulmões. Os soldados se moveram. Ewan ergueu a mão. Rowena rolou, levantou-se antes que alguém avançasse. — Continua. — disse, rouca. O sexto caiu logo depois. O sétimo tentou intimidá-la, avançando com força bruta. Ela esperou. Esperou demais. E então, no instante exato, usou o peso dele contra si. Ele caiu. Restava o oitavo. Mais alto. Mais rápido. Experiente demais para subestimá-la. Os dois giraram, medindo distância. Golpe. Defesa. Golpe. Ela sentiu o cansaço pesar. Os braços queimavam. A respiração falhava. O guerreiro sorriu, certo da vitória. Rowena estreitou os olhos. Mudou a empunhadura. Atacou como Ewan atacaria. Sem aviso. Sem hesitação. A lâmina encontrou o ponto exato. O oitavo guerreiro caiu de joelhos. O pátio explodiu em silêncio absoluto. Rowena ficou parada, respirando com dificuldade. Oito. Oito guerreiros. Vencidos. Ewan caminhou lentamente até o centro. Parou diante dela. Por um longo instante, não disse nada. Então inclinou levemente a cabeça. Um gesto mínimo. Mas profundo. — Estás pronta. — disse. Rowena sentiu algo apertar no peito. Não orgulho. Não vaidade. Reconhecimento. Os guerreiros se ajoelharam. Um a um. Não por protocolo. Por respeito. Naquele momento, todos compreenderam: Rowena não era a rainha que aprendera a lutar. Era a combatente que por acaso usava uma coroa. E o Lobo, observando-a, soube algo que jamais admitiria em voz alta: Se um dia o campo de batalha exigisse escolher quem ficaria de pé até o fim… Rowena não seria a primeira a cair. Talvez nem a última. A noite caiu pesada sobre o castelo. No salão menor, reservado apenas aos dois, o jantar foi servido em silêncio respeitoso. Velas altas lançavam sombras longas pelas paredes de pedra. O crepitar da lareira preenchia o espaço entre um prato e outro. Rowena comia pouco. Movia-se com cuidado demais. Ewan percebeu. Percebia sempre. — Estás ferida. — disse ele, sem erguer a voz. Rowena ergueu os olhos apenas por um instante. — Não. — respondeu. — Apenas cansada, dolorida talvez. Ele pousou os talheres. — Não mintas para mim. Ela respirou fundo. — Estou bem. — repetiu, com firmeza. — Já enfrentei pior. O olhar dele se estreitou. — Hoje, não. Ela sustentou o olhar por alguns segundos… depois desviou. — Oito guerreiros não passam ilesos. — admitiu, por fim. — Eu não pedi aquilo. — disse Ewan. — Mas permitiste. — respondeu ela. — E eu escolhi. O silêncio voltou a se instalar. A lareira estalou. Rowena apoiou lentamente os talheres e respirou fundo, como quem toma uma decisão. — Ewan… — chamou, a voz mais baixa. — Hm? — Quero lutar contigo. Ele ergueu o olhar de imediato. — Não. — Escuta-me. — disse ela, antes que ele continuasse. — Não contra o rei. Ele permaneceu imóvel. — Nem contra meu marido. — continuou. — Quero lutar contra o Lobo. As palavras caíram no ar como um desafio antigo. Ewan se levantou lentamente. — Sabes o que pedes? — perguntou, a voz grave. Rowena também se levantou, apesar da dor. — Sei. — respondeu. — Peço o que nunca concedeste a ninguém. Ele deu um passo à frente. — O Lobo não mede força. — disse. — Ele destrói. — Então destrói minhas ilusões. — respondeu ela. — Se eu não puder encarar o Lobo… então nunca estarei verdadeiramente ao teu lado. Silêncio. Ewan a encarou como encarava inimigos antes do ataque final. Não viu medo. Viu decisão. — Por quê? — perguntou. Rowena respirou fundo. — Porque quero saber quem governa ao meu lado quando ninguém mais está olhando. — disse. — E porque, se um dia o Lobo se perder na guerra… eu preciso saber se posso enfrentá-lo. As palavras atingiram mais fundo do que qualquer lâmina. Ewan desviou o olhar por um instante. Quando voltou a encará-la, havia algo novo ali. Não fúria. Não desprezo. Algo próximo de… aceitação. — Amanhã. — disse, por fim. — Ao amanhecer. Rowena assentiu, o coração acelerado. — Sem testemunhas. — acrescentou ele. — Sem concessões. — Como deve ser. — respondeu ela. Ewan virou-se, encerrando o assunto. Mas antes de sair do salão, disse em tom baixo, quase um aviso: — O Lobo não poupa nem a si mesmo. Rowena respondeu, firme apesar da dor: — Então não me poupe, lobo. E enquanto as velas queimavam até o fim, ambos sabiam: O que viria ao amanhecer não seria treino. Seria um confronto entre aço, vontade… e verdades que jamais haviam sido testadas
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