Dois meses haviam passado.
O pátio de treinamento já não murmurava surpresa quando Rowena surgia. O que se via agora era expectativa.
Naquela manhã, Ewan não trouxe espadas de treino.
Trouxe oito guerreiros.
Homens experientes. Testados em batalhas reais. Nenhum jovem inexperiente, nenhum protegido.
O vento frio varria o pátio enquanto eles se posicionavam em semicírculo.
Rowena estava no centro.
Vestia couro de treino, lâmina real na mão não afiada ao extremo, mas pesada o suficiente para exigir precisão absoluta.
Ewan falou apenas uma vez:
— Atacarão um de cada vez. — disse. — Sem piedade. Sem complacência.
Os guerreiros assentiram.
Rowena respirou fundo.
O primeiro avançou.
Ela desviou do golpe inicial, girando o corpo e atingindo o flanco dele com o punho da espada. O homem caiu de joelhos, rendido.
O segundo veio rápido demais.
Rowena quase perdeu o equilíbrio, mas rolou no chão, levantando-se com a lâmina já erguida. Um golpe curto, preciso ele recuou, derrotado.
O terceiro e o quarto exigiram mais.
Um tentou forçá-la para trás.
O outro buscou cansá-la.
Ela não caiu no jogo.
Mudou o ritmo. Atacou antes que eles terminassem a estratégia.
Ambos caíram.
O pátio estava em silêncio agora.
O quinto a atingiu no ombro.
Ela grunhiu, deu dois passos para trás… e voltou.
O impacto da resposta foi suficiente para derrubá-lo.
O sexto a fez cair.
O chão encontrou suas costas com força.
Por um instante, o ar sumiu dos pulmões.
Os soldados se moveram.
Ewan ergueu a mão.
Rowena rolou, levantou-se antes que alguém avançasse.
— Continua. — disse, rouca.
O sexto caiu logo depois.
O sétimo tentou intimidá-la, avançando com força bruta.
Ela esperou.
Esperou demais.
E então, no instante exato, usou o peso dele contra si.
Ele caiu.
Restava o oitavo.
Mais alto. Mais rápido.
Experiente demais para subestimá-la.
Os dois giraram, medindo distância.
Golpe.
Defesa.
Golpe.
Ela sentiu o cansaço pesar. Os braços queimavam. A respiração falhava.
O guerreiro sorriu, certo da vitória.
Rowena estreitou os olhos.
Mudou a empunhadura.
Atacou como Ewan atacaria.
Sem aviso.
Sem hesitação.
A lâmina encontrou o ponto exato.
O oitavo guerreiro caiu de joelhos.
O pátio explodiu em silêncio absoluto.
Rowena ficou parada, respirando com dificuldade.
Oito.
Oito guerreiros.
Vencidos.
Ewan caminhou lentamente até o centro.
Parou diante dela.
Por um longo instante, não disse nada.
Então inclinou levemente a cabeça.
Um gesto mínimo.
Mas profundo.
— Estás pronta. — disse.
Rowena sentiu algo apertar no peito.
Não orgulho.
Não vaidade.
Reconhecimento.
Os guerreiros se ajoelharam.
Um a um.
Não por protocolo.
Por respeito.
Naquele momento, todos compreenderam:
Rowena não era a rainha que aprendera a lutar.
Era a combatente
que por acaso usava uma coroa.
E o Lobo, observando-a, soube algo que jamais admitiria em voz alta:
Se um dia o campo de batalha exigisse escolher quem ficaria de pé até o fim…
Rowena não seria a primeira a cair.
Talvez nem a última.
A noite caiu pesada sobre o castelo.
No salão menor, reservado apenas aos dois, o jantar foi servido em silêncio respeitoso. Velas altas lançavam sombras longas pelas paredes de pedra. O crepitar da lareira preenchia o espaço entre um prato e outro.
Rowena comia pouco.
Movia-se com cuidado demais.
Ewan percebeu.
Percebia sempre.
— Estás ferida. — disse ele, sem erguer a voz.
Rowena ergueu os olhos apenas por um instante.
— Não. — respondeu. — Apenas cansada, dolorida talvez.
Ele pousou os talheres.
— Não mintas para mim.
Ela respirou fundo.
— Estou bem. — repetiu, com firmeza. — Já enfrentei pior.
O olhar dele se estreitou.
— Hoje, não.
Ela sustentou o olhar por alguns segundos… depois desviou.
— Oito guerreiros não passam ilesos. — admitiu, por fim.
— Eu não pedi aquilo. — disse Ewan.
— Mas permitiste. — respondeu ela. — E eu escolhi.
O silêncio voltou a se instalar.
A lareira estalou.
Rowena apoiou lentamente os talheres e respirou fundo, como quem toma uma decisão.
— Ewan… — chamou, a voz mais baixa.
— Hm?
— Quero lutar contigo.
Ele ergueu o olhar de imediato.
— Não.
— Escuta-me. — disse ela, antes que ele continuasse. — Não contra o rei.
Ele permaneceu imóvel.
— Nem contra meu marido. — continuou. — Quero lutar contra o Lobo.
As palavras caíram no ar como um desafio antigo.
Ewan se levantou lentamente.
— Sabes o que pedes? — perguntou, a voz grave.
Rowena também se levantou, apesar da dor.
— Sei. — respondeu. — Peço o que nunca concedeste a ninguém.
Ele deu um passo à frente.
— O Lobo não mede força. — disse. — Ele destrói.
— Então destrói minhas ilusões. — respondeu ela. — Se eu não puder encarar o Lobo… então nunca estarei verdadeiramente ao teu lado.
Silêncio.
Ewan a encarou como encarava inimigos antes do ataque final.
Não viu medo.
Viu decisão.
— Por quê? — perguntou.
Rowena respirou fundo.
— Porque quero saber quem governa ao meu lado quando ninguém mais está olhando. — disse. — E porque, se um dia o Lobo se perder na guerra… eu preciso saber se posso enfrentá-lo.
As palavras atingiram mais fundo do que qualquer lâmina.
Ewan desviou o olhar por um instante.
Quando voltou a encará-la, havia algo novo ali.
Não fúria.
Não desprezo.
Algo próximo de… aceitação.
— Amanhã. — disse, por fim. — Ao amanhecer.
Rowena assentiu, o coração acelerado.
— Sem testemunhas. — acrescentou ele. — Sem concessões.
— Como deve ser. — respondeu ela.
Ewan virou-se, encerrando o assunto.
Mas antes de sair do salão, disse em tom baixo, quase um aviso:
— O Lobo não poupa nem a si mesmo.
Rowena respondeu, firme apesar da dor:
— Então não me poupe, lobo.
E enquanto as velas queimavam até o fim,
ambos sabiam:
O que viria ao amanhecer
não seria treino.
Seria um confronto
entre aço, vontade…
e verdades que jamais haviam sido testadas